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Das memórias das torturas no Dops aos sermões como pastor

Em documentário dirigido por Beth Formaggini, o hoje bispo evangélico Cláudio Guerra relata execuções e ocultação de cadáveres de opositores da ditadura militar

     

    Cláudio Guerra incinerou ao menos dez corpos na usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, durante a ditadura militar (1964-1985). Ele atuava como delegado no Espírito Santo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de repressão do governo, a partir de 1971.

    A mando do coronel Freddie Perdigão Vieira, Guerra queimava os corpos de opositores da ditadura, com marcas de tortura, nos fornos da usina. Alguns vinham da Casa da Morte, um centro clandestino dos órgãos de repressão do regime em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Os corpos eram embalados em sacos plásticos pretos - e Guerra os abria para ver as vítimas, segundo sua expressão, “por curiosidade”.

    Entre eles estavam David Capistrano, João Batista Rita, João Massena, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, do Partido Comunista Brasileiro; Ana Rosa Kucinski, Thomaz Antônio Meirelles e Wilson Silva, da Ação Libertadora Nacional; Joaquim Pires Cerveira, da Frente de Libertação Nacional; e Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, da Ação Popular Marxista-Leninista. 

    Guerra também atuou na Operação Radar (1973-1976), montada pelo DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) do II Exército, de São Paulo, que executou 19 militantes do Partido Comunista Brasileiro. Durante a ditadura, o delegado executou pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte.

    Atualmente pastor evangélico, Guerra relata esses e outros crimes no documentário “Pastor Cláudio”, dirigido pela pesquisadora e historiadora Beth Formaggini, que estreou em 14 de março de 2019. 

    Guerra é respaldado pela Lei da Anistia, assinada em 1979, pelo então presidente militar João Baptista Figueiredo. A norma concedia, em seu artigo 1º, anistia aos que tivessem cometido “crimes políticos ou praticados por motivação política” durante a ditadura.

    Em janeiro de 2018, Guerra foi denunciado pelo Ministério Público Federal por um caso específico: o assassinato a tiros do estudante Ronaldo Mouth Queiroz, em São Paulo, em abril de 1973. Segundo a denúncia, “o caso é imprescritível e impassível de anistia”.

    Nesta sexta-feira, 29 de março de 2019, o Ministério Público Federal informou que vai ouvir novamente o depoimento de Guerra para buscar novas informações sobre casos investigados e localizar restos mortais dos desaparecidos políticos.

    O contexto do documentário

    A ideia de “Pastor Cláudio” surgiu a partir de outro documentário, "Memória Para Uso Diário" (2007), também dirigido por Beth Formaggini, sobre o Grupo Tortura Nunca Mais, movimento de defesa de direitos humanos, fundado por ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos políticos, em 1985.

    Em 2012, os jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto publicaram o livro “Memórias de Uma Guerra Suja" (ed. Topbooks), que traz um relato autobiográfico de Guerra. A partir dos depoimentos do livro, a documentarista conseguiu respostas para um caso que investigava, o paradeiro dos 19 integrantes do Partido Comunista Brasileiro mortos na Operação Radar. Em 2015, Formaggini convidou Guerra para o documentário, que estreou em 2019.

    À época do lançamento do livro, foram apontadas algumas inconsistências nas datas relatadas por Guerra. O repórter Leonencio Nossa, do jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, destacou que em biografia anterior autorizada, “Guerra, o cana dura”, publicada entre 1980 e 1981, o ex-agente afirma que só ingressou no Dops em setembro de 1975.

    Desde o lançamento das “Memórias”, Guerra deu diversos depoimentos públicos. Entre os mais marcantes estão a entrevista a Alberto Dines no Observatório da Imprensa, em junho de 2012, e o depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em julho de 2014. Os exemplos são citados pelo cineasta Eduardo Escorel em crítica do filme publicada na revista piauí. Segundo Escorel, “Pastor Cláudio” não traz revelações e se limita a ouvir fatos narrados sob a perspectiva do pastor, sem confrontá-lo.

    O filme é um diálogo entre Guerra e o psicólogo e ativista de direitos humanos Eduardo Passos, gravado em 1º de abril de 2015, em Vitória, no Espírito Santo. O relato de Guerra é simples e direto sobre suas ações da época: “cumpria ordens”.

    “Eu não faria hoje o que fiz no passado. Fiz porque eu era um soldado. Obedecia ordens. E por razão ideológica. Eu realmente acreditava que o comunismo era uma ameaça. Sinto tristeza de ter participado. Nosso país não merece nada disso. Não merece guerra”, disse Guerra, em entrevista ao jornal O Globo.

    Em entrevista ao Nexo, Beth Formaggini afirma que a ideia do documentário era entender os mecanismos de repressão durante a ditadura. E admite que se trata de um “relato incompleto”: “É o que nós pudemos obter naquela tarde. E, ainda assim, é muito assustador”.

    Como surgiu a ideia do documentário? E qual o significado de um filme com um personagem como Cláudio Guerra no Brasil atual?

    BETH FORMAGGINI A escolha de fazer um filme com Cláudio Guerra vem da necessidade de conhecer a história do país. A história não tem nos revelado toda a violência cometida no Brasil, desde a época da colônia, da escravidão, Estado Novo [1937-1945], enfim, temos uma história muito manchada de sangue. Decidimos procurar Cláudio Guerra pelo fato de que ele tem revelado violações de direitos humanos cometidas por ele mesmo na época da ditadura a mando de um Estado terrorista, totalitário, que assassinou, ocultou cadáveres. E essa história ainda não foi contada corretamente, ainda temos muitos arquivos secretos.

    Inicialmente, Cláudio Guerra nos mostra uma atitude muito fria, desprovida de emoção com relação a seus feitos, com relação a atos de barbárie e violência. Isso é muito assustador. Lá pelo meio do filme, ele fala que é perseguido pela direita e pela esquerda. Nesse momento, quando ele fala da direita que o persegue, o filme torna-se subitamente muito contemporâneo, porque ele fala de uma extrema direita que tomou o poder em 1964 e aponta para um projeto dessa extrema direita que estaria se articulando para novamente tomar o poder.

    Estávamos em 2015 e nas manifestações já havia pedidos da volta da ditadura. Acho que o filme aponta para essa situação que estamos vivendo hoje no Brasil. O mais assustador é que ele diz que a mesma elite de extrema direita que financiou o golpe de 1964, que pagava a Operação Bandeirante, as torturas, as operações do DOI-Codi, é a mesma que paga e sempre pagou depois da ditadura o aparato de torturas e assassinatos que a gente vê no campo, contra lideranças camponesas, indígenas, quilombolas, os assassinatos de jovens, as torturas nas prisões. Enfim, o Brasil não parou com a violência de Estado com o fim da ditadura. Continuam os mesmos métodos. Não se pode fazer política assassinando seus adversários.

    Como é a relação atual de Cláudio Guerra com o passado? Ele demonstra remorso no depoimento?

    BETH FORMAGGINI Nosso foco era realmente a violência cometida no período da ditadura a serviço do Estado brasileiro. Não abordamos a vida espiritual, nem buscamos analisar os crimes que ele cometeu depois ou a sua vida pessoal, pois não era essa nossa intenção. A ideia era realmente focar na história política daqueles tempos e pensar os dias de hoje. Tentar ver a influência daquele período de exceção e como, mesmo depois da abertura, ele afeta o Brasil. Portanto, não tenho condição de avaliar se o pastor se arrependeu. A intenção do filme era focar na trajetória política e deixar para o público as demais reflexões.

    Suas motivações variavam entre o orgulho de ser um cumpridor de ordens competente, um servo leal da luta contra o comunismo, o prazer de ser temido e o amor ao poder e ao dinheiro. Mas a tarde que passamos com o pastor Cláudio Guerra não foi suficiente para realmente entendermos suas motivações. Para nós, era mais interessante aproveitar esse tempo para focar no que queríamos saber, quais os crimes que ele estava assumindo. E com relação a esses crimes, quem eram os mandantes, quem financiava, onde estavam esses desaparecidos, onde foram incinerados. Para nós, o que realmente interessava era entender esse mecanismo de ação do Estado.

    As práticas foram realizadas com conhecimento do presidente da República, como vimos na documentação da CIA encontrada pelo pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getulio Vargas. Geisel, na época da atuação de Cláudio Guerra não só estava a par, mas era quem aprovava esse tipo de política de extermínio de pessoas que discordavam do governo.

    Como foi o convite para o filme? Cláudio Guerra fez exigências ou pedidos?

    BETH FORMAGGINI Fiquei muito surpresa, porque ele aceitou na mesma hora e não fez nenhuma exigência, nenhum pedido. Ele só chegou lá e relatou o que ele desejava relatar. No filme, ele diz que ele não está falando tudo, mas apenas uma parte. A outra parte ele teria contado para algumas pessoas e, se acontecesse alguma coisa com ele, isso viria à tona depois. Então, temos um relato incompleto. É o que nós pudemos obter naquela tarde. E, ainda assim, é muito assustador.

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