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O que é o método fônico de alfabetização recomendado pelo MEC

Minuta do decreto de nova Política Nacional de Alfabetização deve recomendar metodologia focada na apreensão de sons e sílabas segmentados. O método se opõe a técnicas construtivistas, que privilegiam a leitura de textos. Especialistas divergem sobre o tema

 

Um texto preliminar do Ministério da Educação prevê recomendar para todas as escolas do país a adoção do chamado método fônico de ensino. A proposta, revelada na quarta-feira (20) pelo jornal Folha de S.Paulo, consta da nova Política Nacional de Alfabetização, em debate no governo Jair Bolsonaro.

De acordo com o texto, a nova política deve privilegiar cinco ações voltadas à estratégia de ensinar a ler, sempre por meio da decodificação de letras e segmentos de sons nas palavras. O texto ainda fala da importância da família como agente da alfabetização.

Marcada pela recitação do “bê-a-bá”, a metodologia fônica, uma das várias que existem para o processo de alfabetização, rivaliza com o chamado método global, associado ao construtivismo, que se opõe às técnicas dos fonemas isolados e ensina a partir de textos completos.

Ambos os métodos têm espaço em escolas do Brasil — a atual BNCC (Base Curricular Nacional Comum) não recomenda metodologia específica —, ainda que as técnicas construtivistas tenham sido incentivadas pelo MEC nos anos 1990. Grupos associados ao governo atribuem a elas falhas de alfabetização no ensino público, sem mostrar evidências.

A minuta do decreto prevê a adesão voluntária das redes de ensino à nova política — algo comum nas diretrizes do MEC —, mas condiciona assistência técnica e financeira do governo federal ao alinhamento das secretarias de Educação com o método de ensino proposto.

À imprensa especialistas em educação afirmaram que o MEC não deve impor um modo único de alfabetizar, respeitando a autonomia pedagógica de professores e das redes nos estados e municípios. Alguns defendem ainda a conciliação de diferentes métodos de ensino.

O secretário de Alfabetização do MEC, o educador Carlos Nadalim, indicado pelo escritor Olavo de Carvalho, é adepto do método fônico. Já a secretária de Educação Básica, Tânia Almeida, é adepta da ideia de que a pedagogia deve “refletir realidades locais”. Na terça-feira (19), ela disse que o governo pode voltar atrás e deixar de lado o plano de recomendação.

O que é o método fônico

O método fônico propõe que a alfabetização aconteça por meio da associação entre símbolos (como uma letra) e seu som, ou fonema. Após reconhecerem o som de cada letra, as crianças aprendem a combiná-las para formar sílabas e palavras e escrever e ler textos.

“[...] privilegia-se a decifração, com os alunos memorizando sílabas (ba-be-bi-bo-bu) para depois tentar formar palavras ou frases descontextualizadas ("eu vejo a barriga do bebê"). [...] todas elas [as metodologias do tipo] tratam o processo de alfabetização como a aquisição de uma técnica, relacionada às relações entre sons e letras”

Revista Nova Escola

em conteúdo sobre métodos de alfabetização tradicionais

A prática em sala de aula envolve, por exemplo, o ensino de sons de vogais e consoantes, dos mais simples aos complexos. São também comuns exercícios com cartilhas com frases ou palavras isoladas.

A metodologia está entre o que pesquisadores na área de educação chamam de “métodos de alfabetização sintéticos”, que privilegiam o aprendizado das partes para se compreender o todo e, por esse motivo, propõem, a princípio, o distanciamento de contextos e significados.

Existem registros do uso desse método na educação desde o século 18, na França. No Brasil, ele passou a ser amplamente usado no lugar da metodologia alfabética (por soletração), popular até os anos 1980.

O que é o método global

O método global, baseado no construtivismo, foi criado a partir da premissa de que textos e palavras fazem parte do cotidiano de crianças — devendo, portanto, estar presentes na alfabetização desde o início. Ele tem sido cada vez mais popular em escolas nos últimos anos.

Na sala de aula, as crianças são orientadas a fazer hipóteses de leitura e de escrita e a entender a organização de letras e palavras em seu todo. Elas têm contato com textos curtos, além de livros e letras de música. Não existe a decomposição de palavras em partes menores.

A metodologia, considerada mais moderna que a fônica, faz parte dos métodos de alfabetização analíticos — que, ao contrário dos sintéticos, incentivam as crianças a pensar sobre o todo, a escrita, no lugar das letras. Assim, elas constroem o próprio conhecimento por meio de tentativas de escrita de textos, conforme seu desenvolvimento cognitivo.

O construtivismo, corrente pedagógica que originou o método global, entende que a aprendizagem, para ser obtida da melhor maneira, deve estar relacionada com as vivências do indivíduo — ou seja, o estudante.

Os prós e contras

Método fônico

Por sua abordagem sistemática, o método fônico é considerado compatível com os sistemas alfabético e de escrita — algo que, segundo defensores, favorece a aprendizagem. Por outro lado, métodos tradicionais se apoiam em práticas mecânicas (como exercícios de caligrafia), com foco na repetição e não no raciocínio. Essa metodologia também pode ser difícil no caso do aprendizado de letras que não t��m só um fonema (como a letra “s” nas palavras “suco” e “casa”).

Método global

O método global dá contexto aos exercícios e faz do estudante um agente ativo de seu aprendizado. Isso favorece o envolvimento da criança com o processo de alfabetização. Por outro lado, métodos como o global, na busca exclusiva pelo significado do que está escrito, dedicam menos tempo (que o fônico, por exemplo) à reflexão sobre o funcionamento do sistema alfabético e às relações entre sons e grafia.

Qual o debate entre esses métodos

A disparidade entre métodos sintéticos (como o fônico) e analíticos (como o global) levou a discussões na academia que caracterizam o que se chamou de “guerra entre os métodos”. Nesses debates, defensores de cada uma das pedagogias defendem a eficácia de seu método, propondo a exclusão do outro do processo de alfabetização.

Além dos métodos fônico e global, existem outros — como alfabético, silábico, de palavração (por palavras) e de sentenciação (por frases). Há estratégias que mesclam conceitos de mais de um desses métodos, assim como há quem defenda que a aprendizagem depende menos da metodologia e mais do professor e de sua abordagem de ensino.

“Alfabetização não é uma questão de método. [...] Os professores alfabetizadores sempre perguntam: que método usar? E eles são tão espertos e lúcidos que falam: ‘Eu uso o método eclético’. Eles misturam e tiram de cada um aquilo que está dando certo para seus alunos”

Magda Becker Soares

professora na área de educação na Universidade Federal de Minas Gerais, em entrevista à Nova Escola publicada em janeiro de 2019

A ideia de conjugar técnicas fônicas e construtivistas nas salas de aula tem crescido entre parte dos especialistas, que afirmam que as escolas devem trabalhar, ao mesmo tempo, tanto as unidades menores das palavras como os processos de compreensão e produção de textos.

Ainda segundo educadores, a eficácia de metodologias depende não só do modo como elas se organizam, mas de como os estudantes a compreendem, conforme sua personalidade e desenvolvimento cognitivo. “O foco do alfabetizador não é o ensino, mas a aprendizagem da criança”, disse a professora Magda Soares em entrevista ao Nexo.

Foi essa concepção que levou à formulação da BNCC, aprovada em 2017, que define o conteúdo mínimo da educação infantil e do ensino fundamental — mas que não apontou um tipo de alfabetização melhor ou pior. No exterior, pesquisas sobre o uso combinado de métodos fônico e global nas escolas foram elaborados na França e nos EUA.

Qual o quadro da alfabetização no Brasil

Aproximadamente 7% dos brasileiros com 15 anos ou mais não sabem ler ou escrever, segundo dados de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A quantidade caiu em relação a 2016, quando 7,2% eram analfabetos. Ainda assim, o número está acima do estabelecido — 6,5% — em uma das metas estipuladas ainda para 2015 no Plano Nacional de Educação. A estatística cobre sobretudo idosos, população negra e nordestina.

11,5 mi

eram os brasileiros que não sabiam ler ou escrever em 2017, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE

3 a cada 10

brasileiros tinham dificuldade em usar a leitura e a escrita no cotidiano, segundo dados de 2018 do Indicador de Analfabetismo Funcional, estatística da Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro

54,7%

é a insuficiência de leitura entre crianças do 3º ano do ensino fundamental de escolas públicas, segundo dados de 2016 da Avaliação Nacional de Alfabetização; o número não indica analfabetismo

58º

foi a posição do Brasil no Pisa de 2015, na categoria leitura; a avaliação, internacional, foi aplicada a estudantes de 15 e 16 anos em 70 países

A dificuldade de se alfabetizar é atribuída, entre outros fatores, à falta de programas de formação de professores para o tema e aos desafios da educação com a universalização do ensino básico, que, a partir do fim do século 20, passou a levar às escolas cada vez mais crianças de famílias mais pobres, sem acesso à cultura letrada fora da sala de aula.

Para combater o problema, o Brasil criou, em 2003, o programa Brasil Alfabetizado, que atendeu mais de 1 milhão de jovens e adultos uma década depois. Como a metodologia da Pnad Contínua mudou em 2016, não é possível comparar os indicadores de agora com as estatísticas de analfabetismo desde o início do programa.

A nova Política Nacional de Alfabetização, se aprovada, deve ser a primeira ação da secretaria sob o comando de Carlos Nadalim. Entre as metas para os primeiros cem dias da gestão de Jair Bolsonaro (PSL) no MEC, está um programa batizado como “Alfabetização Acima de Tudo”.

 

 

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