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Como a genética pode reduzir a eficácia da contracepção hormonal

Estudo feito na Universidade do Colorado, nos EUA, é pioneiro ao constatar que determinados genes estão relacionados a falhas em métodos contraceptivos hormonais

 

Mulheres que engravidam mesmo fazendo uso de contracepção hormonal, como a pílula, podem ser portadoras de um gene que compromete a eficácia do controle de natalidade.

É o que mostra uma pesquisa realizada na Escola de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, e publicada em março de 2019 na publicação acadêmica “Obstetrics and Gynecology”.

O estudo constatou que uma em cada 20 mulheres potencialmente carrega um traço genético que leva à produção de uma enzima capaz de quebrar os hormônios que atuam na contracepção.

O que é contracepção hormonal

Milhões de mulheres em todo o mundo usam alguma forma de contracepção hormonal. Além da pílula, também são métodos hormonais o anel vaginal, adesivos, implantes colocados no braço, por exemplo, e o DIU mirena (sistema intrauterino de liberação de hormônio).

Eles liberam hormônios que inibem a ovulação, além de provocarem outras mudanças no organismo da mulher para impedir a gestação, alterando características físico-químicas do endométrio e do muco cervical, que são, respectivamente, a mucosa que cobre o interior do útero e a secreção produzida no colo do útero (sua “entrada”).

Esses métodos contraceptivos são considerados altamente eficazes. O implante contraceptivo, por exemplo, tem eficácia superior a 99%.

Implantes e DIU são métodos de longa duração, bem menos usados pelas brasileiras. Já a pílula, por exemplo, depende do uso correto (ser tomada todos os dias, em horário regular) para ter sua eficácia garantida.

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores analisaram o DNA de 350 mulheres que usavam um implante contraceptivo – uma pequena haste de plástico colocada sob a pele do braço que libera o hormônio progestagênio para combater a ovulação.

A partir do sequenciamento genético das participantes, foram examinadas seções do DNA conhecidas por estarem envolvidas na regulação hormonal.

Os cientistas descobriram que cerca de 5% das participantes tinham uma forma diferenciada do gene CYP3A7*1C.

Ativo quando o indivíduo ainda está no útero, esse gene normalmente “se desliga” pouco antes do nascimento.

Mulheres que nascem possuindo a forma ativa do gene produzem durante toda vida uma enzima, a CYP3A7, que quebra os hormônios presentes nos anticoncepcionais, podendo elevar o risco de gravidez durante o uso, especialmente para métodos com doses hormonais mais baixas.

A presença da variante genética pode promover uma queda hormonal de, em média, 23%. Os níveis de hormônios anticoncepcionais encontrados na circulação das mulheres com esse gene ficam abaixo do necessário para impedir o funcionamento normal do sistema reprodutor feminino.

O que as descobertas significam

É a primeira vez que um estudo científico relaciona uma explicação genética às falhas de métodos contraceptivos hormonais.

Os autores destacam que o estudo pode contribuir para desmontar preconceitos de profissionais de saúde e da população em geral.

Quando uma mulher que toma anticoncepcional engravida, costuma-se supor que ela não usou o método corretamente. “A suposição é sempre de que, de alguma forma, foi culpa dela”, disse ao jornal britânico The Independent Aaron Lazorwitz, principal autor do estudo.

A descoberta também pode ser importante para médicos e pesquisadores que trabalham com o desenvolvimento de  novos tratamentos contraceptivos e ajudar um número maior de mulheres a evitar os impactos de uma gravidez não planejada.

No Brasil, uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz que ouviu 24 mil mulheres entre 2011 e 2012 mostrou que mais de 55% das gestações no país não são planejadas,  percentual que está acima da média mundial, de 40%.

Ressalvas

Mesmo com os resultados, o pesquisador Aaron Lazorwitz lembrou, em entrevista ao The Guardian, que o implante subcutâneo e os sistemas intrauterinos de liberação de hormônios (o DIU Hormonal) ainda são os melhores métodos de controle de natalidade.

Segundo os pesquisadores, as descobertas exigem que se continue investigando, sobretudo o uso da pílula, já que as progestinas empregadas nesse método têm níveis hormonais mais baixos do que os utilizados nos implantes.

Segundo a equipe envolvida no estudo, outros fatores, como índice de massa corporal e maior tempo de uso do implante, também podem interferir na concentração hormonal.

Além disso, outros especialistas destacam que o estudo não analisou separadamente dados de mulheres de diferentes etnias – questão que poderia influenciar os resultados.

A professora Sharon Cameron, codiretora da Unidade de Eficácia Clínica da Faculdade de Saúde Sexual e Reprodutiva, também tranquilizou mulheres que utilizam o implante, que tem uma taxa de falha muito baixa.

“Embora o código genético possa ter um impacto sobre quão bem a contracepção pode funcionar para algumas mulheres, este é apenas um estudo e é muito cedo para dizer se essa tecnologia [de teste genético] será útil no futuro” para dizer às mulheres que a contracepção hormonal é menos eficaz para elas, disse Cameron ao Guardian.

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