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Por que parlamentares chilenos boicotam a visita de Bolsonaro

Senador socialista Juan Pablo Letelier fala ao ‘Nexo’ sobre a decisão de não participar da recepção ao presidente brasileiro em Santiago

 

Parlamentares chilenos de oposição decidiram não participar de nenhuma cerimônia oficial de recepção ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em Santiago, na quinta (21), sexta (22) e sábado (23).

Entre os membros do grupo de esquerda e centro esquerda que se recusam a receber o presidente brasileiro, há políticos com cargos importantes, como o presidente do Senado, Jaime Quintana, o vice-presidente do Senado, Alfonso de Urresti, e o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, José Miguel Insulza.

O gesto deles é um sinal de rechaço ao discurso contra os direitos humanos do presidente brasileiro, que construiu sua carreira política enaltecendo a ditadura militar e elogiando torturadores.

A viagem ao Chile ocorre dias depois da passagem de Bolsonaro pelos EUA, onde se encontrou com o presidente americano, Donald Trump. Em janeiro, o presidente brasileiro fez sua primeira viagem internacional, ao participar do Fórum Econômico de Davos, na Suíça.

Duas histórias de ditaduras

O Chile viveu sob ditadura do general Augusto Pinochet de 1973 a 1990. O Brasil viveu sob regime semelhante entre 1964 e 1985. No país vizinho, as Forças Armadas fizeram um mea culpa após a redemocratização e militares envolvidos em crimes contra os direitos humanos foram julgados, condenados e, em muitos casos, presos. No Brasil, o mesmo não ocorreu, por força da Lei de Anistia, de 1979.

O senador socialista Juan Pablo Letelier é uma das vozes contrárias à visita de Bolsonaro. Ele tinha 12 anos quando foi dado o golpe militar no Chile. O pai dele, Orlando Letelier, era então ministro das Relações Exteriores do presidente Salvador Allende.

Allende, que havia sido eleito democraticamente, suicidou-se no dia 11 de setembro de 1973, dentro do palácio presidencial, durante o bombardeio ordenado por Pinochet.

Orlando Letelier foi preso logo após o golpe. Em seguida, foi para o exílio, em Washington, nos EUA, onde acabou assassinado por agentes da ditadura chilena, num atentado a bomba, em setembro de 1976.

Afinidade ideológica

Os atuais presidentes do Brasil e do Chile têm afinidades ideológicas. Ambos estão alinhados à direita. Entretanto, o chileno Piñera nunca fez elogios à ditadura chilena da forma como Bolsonaro faz no Brasil.

Piñera é um rico empresário de direita. Seus dois mandatos – o atual, iniciado em 2018, e o anterior, de 2010 a 2014 – foram marcados por reformas liberais, mas ele nunca fez discursos contra indígenas e homossexuais, como Bolsonaro fez. Além disso, o presidente brasileiro, de extrema direita, lidera uma cruzada ideológica intransigente contra as esquerdas, enquanto Piñera, a despeito de suas características ideológicas, protagonizou duas alternâncias exemplares de mandato com a socialista Michelle Bachelet, à qual nunca dirigiu ofensas.

O Chile ergueu em sua capital um grande Museu da Memória e dos Direitos Humanos para relembrar os crimes da ditadura. Generais foram presos e nenhum político relevante ousa elogiar Pinochet.

No Brasil, Bolsonaro já chegou a dizer que a ditadura deveria ter matado mais. Ele também faz elogios públicos a Brilhante Ustra – considerado “torturador” em ação declaratória da Justiça. Bolsonaro considera o coronel, já morto, um de seus heróis. 

Ideologia e pragmatismo

O Brasil é o maior destino de investimentos externos chilenos no mundo. O Itamaraty diz que esses investimentos já ultrapassaram US$ 28 bilhões, mas não especifica em que intervalo de tempo.

Esses laços econômicos são uma das fortes razões pelas quais o atual governo chileno não quer que a agenda de direitos humanos contamine os negócios.

O chanceler chileno, Roberto Ampuero, classificou o boicote dos parlamentares opositores como um “gesto de desprezo com um dos maiores aliados do Chile [o Brasil], com o qual temos extraordinárias relações”.

Ele acusou os parlamentares de tomarem a decisão com base em “gostinhos pessoais”, em vez de “olharem a política externa com altivez”.

Piñera tenta lançar um novo bloco sul-americano chamado Prosul, para o qual espera apoio brasileiro. Não há ainda uma descrição detalhada sobre o projeto, mas ele vem sendo tratado como uma reação de governos de direita à Unasul (União de Nações Sul-Americanas), grupo atualmente inativo, que foi fundado nos anos 2000, no auge do bolivarianismo de esquerda na região.

‘Bolsonaro não tem o mínimo padrão ético e moral’

Foto: Divulgação
Senador socialista Juan Pablo Letelier
Senador socialista Juan Pablo Letelier
 Abaixo, a entrevista feita pelo Nexo com Juan Pablo Letelier, por telefone, nesta quinta-feira (21).

Por que parlamentares chilenos de oposição se recusam a participar da recepção ao presidente brasileiro?

Juan Pablo Letelier  Pelas declarações que ele deu ao longo da vida. Nós, no Chile, temos uma história muito dura [em relação à ditadura], mas há aqui uma base ética mínima de respeito aos direitos humanos e de condenação às violações de direitos humanos. As declarações de Bolsonaro são bastante inadequadas para nós. Nós somos muito sensíveis quando se trata do respeito aos direitos humanos, do respeito à diversidade e à tolerância. Por essa razão, nos sentimentos muito violentados por tudo o que ele diz. Não estamos confortáveis na companhia de Bolsonaro. Há assuntos em relação aos quais nós temos uma padrão mínimo e nós não estamos dispostos a sermos violentados a esse respeito.

O que os parlamentares chilenos esperam conseguir com esse gesto?

Juan Pablo Letelier  Nada. Bolsonaro se encontrará afinal com o presidente Piñera. Mas uma coisa é a pessoa e outra coisa é o país. Veja, nós temos o máximo respeito pelos brasileiros, pelo povo, pela história do Brasil, e pela relações existentes entre os dois países. Mas, outra coisa é essa situação particular e curiosa que deriva do que acontece atualmente no Brasil, onde foi eleito um presidente que, por vezes, faz declarações que nós não estamos dispostos a compartilhar.

Bolsonaro é um entusiasta declarado do golpe militar brasileiro. Um de seus heróis é um general que já foi declarado ‘torturador’ pela Justiça. Isso seria possível no Chile?

Juan Pablo Letelier  Não, não seria possível. Até houve aqui pessoas que tentaram reivindicar o legado de Pinochet durante um tempo, mas nunca com entusiasmo e tampouco da forma como Bolsonaro faz. Trata-se de ética e de mínimos padrões morais da convivência democrática.

Tivemos aqui no Chile uma tragédia, assim como o Brasil também teve com sua ditadura. Sabemos que Bolsonaro disse no passado que a ditadura brasileira deveria ter matado mais pessoas. Isso, para nós, é inaceitável. Isso é inaceitável no Chile. Aqui há gente de direita que trabalhou com Pinochet. Essas pessoas são cúmplices passivas mas nunca andariam festejando esse tipo de coisa. Jamais.

O presidente do Chile lidera a tentativa de formar uma nova instância sul-americana chamada Prosur, para substituir a antiga Unasul, considera de esquerda. Qual sua posição a esse respeito?

Juan Pablo Letelier  A Unasul foi um espaço positivo, mas teve um erro institucional ao adotar o critério da unanimidade para a tomada de suas decisões, o que tornou seu funcionamento muito complexo, dados os eixos ideológicos que se instalaram na região. A Alba [Alternativa Bolivariana para as América, fundada em 2004] é um exemplo [de um desses eixos ideológicos, o caso, de esquerda]. Essas tensões entre eixos ideológicos terminaram por distorcer muito o que era para ser uma política de integração regional.

Agora, o Prosul surge como um espaço parecido a uma Alba de direita. Esperamos que isso não siga assim, porque seria condenar uma nova iniciativa ao fracasso, em vez de fortalecer um espaço de diversidade e de convergência. Eu espero que recuperemos espaços multilaterais em nossa região.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a ditadura chilena terminou em 1991. O ano correto é 1990. A informação foi corrigida às 10h03 do dia 22 de março de 2019.

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