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Por que ver o cinema árabe dirigido por mulheres

Mostra no Rio exibe 30 títulos contemporâneos de diretoras que, apesar de sua diversidade, têm em comum viés político e tema da memória

     

    Entre 7 e 25 de março de 2019, a Mostra de Cinema Árabe Feminino apresenta uma seleção de mais de 30 obras cinematográficas dirigidas por mulheres no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

    São 13 longas-metragens, sendo oito inéditos no Brasil, e 24 curtas, unindo produções de mais de 10 países: Arábia Saudita, Argélia, Egito, Iêmen, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, Palestina, Qatar, Síria e Tunísia.

    Apesar das restrições impostas às mulheres em vários países do mundo árabe – que compreende cerca de duas dezenas de nações do Oriente Médio e norte da África –, a participação delas na indústria cinematográfica tem crescido.

    De acordo com um estudo de 2016 comissionado pelo Doha Film Institute, organização voltada ao fomento da atividade cinematográfica no Qatar, 26% dos cineastas que atuam no cinema independente do Oriente Médio são mulheres.

    Uma reportagem da revista especializada Variety publicada em 2017 destaca que, ainda que estejam fazendo “filmes de autor” com orçamentos muito pequenos, elas estão perseverando em uma sociedade dominada por homens, quebrando estereótipos de gênero e transcendendo tabus culturais.

    “As mulheres vêm sendo silenciadas há tanto tempo naquela região que é incrível ter filmes que dão a ver o que elas têm a dizer”

    Haifaa Al-Mansour

    Cineasta saudita, à Variety

    Em um artigo publicado em 2015 pelo site The Conversation, a pesquisadora e professora da Universidade de Sydney, na Austrália, Lucia Sorbera, afirma que, na verdade, as mulheres árabes desempenham um papel vital para o cinema da região como diretoras e produtoras desde as primeiras décadas do século 20.

    Publicado em 2005, o livro “A Enciclopédia das Cineastas Árabes Mulheres” contabiliza mais de 60 diretoras. De acordo com Sorbera, desde o início dos anos 2000, esse número só fez aumentar, fazendo emergir novos gêneros e modos de produção.

    O Nexo conversou com as curadoras da mostra no Rio de Janeiro Analu Bambirra e Ana França sobre os pontos comuns do cinema árabe feito por mulheres em diferentes países, as dificuldades enfrentadas por elas e algumas dicas sobre como se aproximar dessa filmografia. Elas responderam às questões por escrito, em conjunto.

    Por que esse é um conjunto de filmes contemporâneos que vale a pena ser visto?

    Analu Bambirra e Ana França Acreditamos que essa mostra diminui distâncias e reduz muros. As imagens que nos chegam dos países árabes são sempre imagens de noticiários, ligados a terrorismos, violências, guerras, fundamentalismo religioso e opressão contra as mulheres. As imagens, dessa forma, reduzem o nosso entendimento de “países árabes” a apenas isso, sem uma real apresentação das complexidades destas regiões. Ter acesso a imagens contemporâneas nos aproxima desses lugares, apresenta cidades, pessoas, populações, com desejos, medos, felicidades e inseguranças, como em qualquer outro lugar do mundo.

    Com este conjunto de filmes contemporâneos, temos a chance de ver lugares geograficamente distantes, mas com questionamentos muito próximos aos que vivemos no Brasil. As particularidades são outras, mas as dores e as alegrias são as mesmas.

    Para um primeiro contato, quais cineastas e filmes vocês destacariam e por quê?

    Analu Bambirra e Ana França O primeiro contato parece ser sempre uma questão. A verdade é que o cinema que tentamos mostrar é muito diverso e há inúmeras portas de entrada, e não uma única correta.

    Destacaríamos a ficção "Os Afortunados", da Sofia Djama, pela narrativa envolvente e pelo incrível trabalho de roteiro e atuação, e os documentários "Birds of September", de Sarah Francis, "Freedom Fields", de Naziha Arebi, e "A magical substance flows into me", de Jumana Manna, por mostrarem questões sensíveis e íntimas, e ainda as conciliarem com temas universais e novas linguagens.

    Em que condições mulheres árabes fazem cinema?

    Analu Bambirra e Ana França Durante a sessão comentada do filme “Os Afortunados” (na abertura da Mostra) e durante a masterclass que ministrou, Sofia Djama falou bastante sobre ser muito mais fácil ser uma realizadora mulher na Argélia do que na França.

    Na Argélia, há cerca de cinco, seis filmes lançados em grandes festivais internacionais, e, destes, três foram dirigidos por mulheres.

    Enquanto isso, na França, a falta de representatividade feminina no Festival de Cannes é sempre um escândalo. Em vários países, não há esse acirramento de situações como imaginamos de fora.

    A Arábia Saudita, por outro lado, é um caso à parte. Lá, mulheres e homens não podem conviver juntos em ambientes públicos. Dessa forma, as realizadoras precisam buscar soluções práticas para que possam realizar seus filmes.

    O filme “Hajwalah” (Rana Jarbou) utiliza recursos de redes sociais e aplicativos (Skype, Twitter) para poder se aproximar do personagem de seu documentário. Ele é um homem, e eles não podem se conhecer pessoalmente por causa das regras do país.

    O filme retrata com clareza essa dificuldade e resistência: uma mulher insistindo no pertencimento à cidade, ao mesmo tempo em que não pode entrevistar o personagem de seu documentário nem se aproximar fisicamente do objeto do documentário, um esporte de carros chamado “joyriding”, ilegal na Arábia Saudita.

    O que há de comum nos 30 filmes selecionados por vocês, que permitiu a elaboração do recorte da curadoria?

    Analu Bambirra e Ana França Há dois pontos comuns entre todos os filmes que selecionamos na curadoria: as questões políticas e a memória.

    No processo curatorial, a nossa proposta de recorte inicial era “filmes dirigidos por mulheres árabes lançados após os anos 2000”. Com o desenrolar das discussões, percebemos estes pontos em comum e abraçamos essas similaridades no recorte final da curadoria.

    Todos os filmes, de forma direta ou indireta, tratam de questões políticas de seus países e/ou origens.

    Há filmes com viés político extremamente fortes (os filmes da “Trilogia Sci-Fi”, da Larissa Sansour, ou “Arij – Cheiro de Revolução”, da Viola Shafik, por exemplo), e outros mais sutis, cujos questionamentos políticos emergem ao longo do pensamento sobre o filme (o filme “Uma substância mágica flui em mim”, da Jumana Manna, ou “Os Afortunados”, da Sofia Djama, por exemplo).

    Ao mesmo tempo em que vemos as questões políticas, vemos também a importância da memória nos filmes. Seja a memória de um país (com suas questões, paradigmas e complexidades), de sua cultura, de suas relações, de um conflito, como também a fabulação, a memória construída de novas histórias e imagens como forma de resistência.

    Quais as questões políticas e sociais retratadas nos filmes?

    Analu Bambirra e Ana França Filmes como “Aya” (Moufida Fedhila) e “Eu dançarei se eu quiser” (Maysaloun Hamoud) retratam a questão do empoderamento feminino: como mulheres, naqueles contextos, resistem e mantêm suas identidades dentro de contextos patriarcais.

    Há também questões ligadas às guerras civis que os países enfrentam ou enfrentaram no passado. “Os Afortunados” (Sofia Djama) tem como pano de fundo os traumas que a Argélia viveu na década de 1990 após a guerra civil.

    “Povo da terra de ninguém” (Heba Khaled) apresenta imagens em câmeras GoPro filmadas por soldados sírios no front da guerra civil no país – vemos imagens da guerra em primeira pessoa.

    “Aqueles que Restam” (Eliane Raheb) mostra os resquícios da guerra civil libanesa, que acirrou a convivência entre cristãos e muçulmanos, a partir de um conflito de posse de terras no norte do país.

    A questão territorial é muito forte nos filmes palestinos. “Uma substância mágica flui em mim” (Jumana Manna) apresenta a riquíssima cultura musical no país. Um filme antropológico a princípio, se torna arquivo e memória por se tratar de um país despedaçado, cuja união como povo, cultura e identidade é constantemente negada e impedida de ser construída.

    Para um povo ter identidade, é preciso memória, é preciso ter imagens, e esse filme se torna extremamente político a partir dessa concepção.

    Temos também questões migratórias (“Ruptura” – Yassmina Karajah, “Atrás do Mar” – Leïla Saadna, “Aqui tu estás” – Tyma Hezam), e [filmes que tratam de] relações afetivas e minorias.

    “Além do Mar” (Nada Mezni Hafaiedh) mostra uma casa que se tornou abrigo LGBTQ, e as resistências de afeto em um país homofóbico, onde ser LGBTQ é passível de prisão. “Três Centímetros” (Lara Zeidan) apresenta quatro adolescentes discutindo sexualidade em um passeio na roda gigante.

    ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto afirmava que a produção iraniana era exemplo de sucesso do cinema árabe. Na verdade, o Irã não é um país árabe. A correção foi feita às 11h49 do dia 19 de março de 2019.

     

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