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O que move o encontro de Bolsonaro com Trump

Aliados declarados, os dois presidentes se reúnem pela primeira vez na Casa Branca

O presidente Jair Bolsonaro desembarcou no domingo (17) em Washington, capital dos Estados Unidos. A visita oficial vai durar até terça-feira (19), dia em que Bolsonaro se encontrará pela primeira vez com o presidente americano, Donald Trump.

É a primeira viagem de Bolsonaro ao exterior destinada a um encontro bilateral, um sinal de prestígio que o seu governo dá aos EUA. Em janeiro de 2019, Bolsonaro foi à Suíça, mas para participar do Fórum Econômico Mundial, não para uma visita oficial a outro chefe de Estado.

O presidente brasileiro já elogiou Trump em diversas ocasiões, adota ações e discursos semelhantes aos do americano e, antes da campanha de 2018, chegou a se referir a Trump como um “exemplo”.

Nos EUA, Bolsonaro está acompanhado de sete ministros: Paulo Guedes (Economia), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Sergio Moro (Justiça), Tereza Cristina (Agricultura), Bento Albuquerque (Minas e Energia) e Marcos Pontes (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações).

No domingo (17), primeiro dia de viagem, Bolsonaro teve um jantar na embaixada brasileira com líderes conservadores e jornalistas. Na ocasião, ele disse que o Brasil “caminhava para o comunismo” e que a sua vitória na eleição de 2018 foi um “milagre”. Temas como infraestrutura, comércio e agricultura foram tratados pelos ministros presentes.

Nesta segunda (18), Bolsonaro e sua comitiva visitam a CIA, agência de inteligência americana, e à noite participam de um jantar oferecido pelo Conselho Empresarial Brasil-EUA.

A viagem como um todo traz à tona questões centrais da política externa brasileira e da economia no governo Bolsonaro.

A questão da China

Bolsonaro e o chanceler Araújo veem nos EUA de Trump o principal parceiro internacional do Brasil. A viagem a Washington traz à tona a relação do governo Bolsonaro com a China, rival dos americanos no cenário global.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil — os EUA estão em segundo lugar. Os chineses têm aumentado sua influência na América Latina, incluindo no Brasil. Já os americanos desejam que o poder dos chineses na região diminua.

Desde 2018 EUA e China disputam uma guerra comercial. Os dois países têm aumentado as tarifas de bens comercializados entre eles, com o intuito de exercer pressão política ao prejudicar a economia do outro, e protagonizam disputas na OMC (Organização Mundial do Comércio). Os EUA falam em aplicar punições pelo que dizem ser um roubo de propriedade intelectual americana.

No contexto brasileiro, trata-se também de um assunto político-ideológico. Bolsonaro faz das críticas à esquerda uma das bases do seu discurso político, e a China segue um regime comunista de partido único desde 1949. Antes de ser eleito, o presidente fazia críticas abertas à China, mas após a eleição mudou o discurso e deu sinais favoráveis ao país asiático.

Uma ala do governo brasileiro, incluindo Araújo, critica parcerias com a China, usando como argumento o lado ideológico.

Outra parte do governo, incluindo o ministro Paulo Guedes, defende as relações comerciais com a China, assim como empresários e a base parlamentar do governo Bolsonaro. Nesse grupo estão ruralistas e políticos ligados ao agronegócio, como a ministra Tereza Cristina.

A questão da Venezuela

A crise política na Venezuela é um dos assuntos previstos para a conversa privada entre Bolsonaro e Trump. Os dois são contrários ao governo de Nicolás Maduro e reconhecem o líder opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela.

É improvável que Bolsonaro e Trump tomem alguma decisão concreta sobre o tema, embora possam fazer um pronunciamento conjunto. Eles dois têm uma divergência central sobre o assunto: o governo brasileiro descarta intervenção militar na Venezuela, e o governo americano deixa o uso da força como uma das opções à disposição, mas não declara isso com total clareza.

Apesar da disputa pelo posto de legítimo presidente da Venezuela, é Maduro quem controla o aparelho estatal e tem o reconhecimento das Forças Armadas venezuelanas.

A crise na Venezuela é também uma guerra de versões sobre os fatos. De acordo com Maduro, a oposição age em parceria com os EUA para derrubar à força um governo respaldado pela população e voltado aos mais pobres. De acordo com Guaidó, o segundo mandato de Maduro, que começou em janeiro de 2019, é ilegítimo por conta de um processo eleitoral fraudulento e a Venezuela precisa de novas eleições.

O país atravessa uma grave crise econômica, com hiperinflação, problemas estruturais como apagões elétricos e desabastecimento de alimentos e remédios.

As medidas concretas da viagem

Na visita de Bolsonaro, Brasil e EUA vão assinar um acordo para viabilizar o uso comercial da base militar de Alcântara, no Maranhão. Segundo o texto, os americanos vão ter áreas de acesso restrito no local, uma forma de evitar espionagem ou roubo de tecnologia. Tanto o Congresso do Brasil como o dos EUA vão precisar aprovar o acordo.

A base de Alcântara existe para o lançamento de satélites, mas até hoje não enviou nenhum ao espaço. Isso porque os americanos dominam cerca de 80% do mercado e é necessário um acordo com os EUA para usar esses equipamentos e tecnologias.

Em 2000, os dois países firmaram um acordo sobre a base de Alcântara, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Dois anos depois, o Congresso brasileiro rejeitou os termos, considerando o texto muito permissivo com os americanos e uma ameaça à soberania nacional. As negociações foram retomadas em 2018, no governo Michel Temer.

Além disso, durante a viagem Bolsonaro decretou o fim do visto obrigatório a americanos que visitarem o Brasil a partir de junho de 2019. O governo também estendeu esse benefício a canadenses, japoneses e australianos. Não haverá reciprocidade — ou seja, os brasileiros que forem aos EUA, Canadá, Japão e Austrália continuam precisando de visto.

Bolsonaro também vai tratar da candidatura do Brasil para ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade que reúne sobretudo países desenvolvidos, realiza estudos e propõe medidas econômicas de perfil liberal aos seus 36 membros. Fazer parte do órgão é um sinal a investidores internacionais de que o país é confiável. O Brasil tenta entrar no órgão desde 2017.

Bolsonaro deseja conseguir o apoio de Trump, o que seria um fator de peso no processo de adesão. Até o momento, porém, os EUA têm deixado claro que não irão apoiar enfaticamente a entrada do Brasil. Trump é um crítico de órgãos multilaterais como a OCDE.

Uma análise sobre a visita oficial

Sobre o encontro entre os dois presidentes e a relação atual do Brasil com os EUA, o Nexo ouviu Fernanda Magnotta, professora de relações internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e especialista em política externa americana.

O que esperar do encontro entre Bolsonaro e Trump?

Fernanda Magnotta Será um encontro de formalização do alinhamento brasileiro ao governo Trump, com reforço de uma narrativa comum: antiglobalista, ocidentalista e conservadora. Para além dos efeitos diplomáticos e simbólicos, o encontro deve permitir a discussão de novas oportunidades de cooperação sobretudo em comércio, investimentos e defesa, além da tentativa de coordenação de políticas no que diz respeito à países específicos, como Venezuela e China.

A crise da Venezuela é um tema importante para o encontro?

Fernanda Magnotta Sim, embora não se tenha clareza sobre quais estratégias eventualmente propostas pelos norte-americanos poderiam ser efetivamente acomodadas por parte do governo brasileiro, já que existem forças com posições divergentes nessa matéria dentro da própria administração, com destaque especial aos militares liderados por Hamilton Mourão [vice-presidente do Brasil], que têm mantido ressalvas quanto a qualquer saída militar para lidar com a crise no país.

Qual é o peso que o Brasil tem para o governo Trump? E vice-versa?

Fernanda Magnotta  Estados Unidos e Brasil são, em geral, as duas maiores economias das Américas e importantes parceiros históricos. Para Trump e Bolsonaro, em particular, a aliança nesse momento representa uma forma de buscar o reforço de sua legitimidade, tanto do ponto de vista doméstico, quanto perante outras lideranças internacionais. Trata-se de uma tentativa de acumular capital político, e reforçar agendas que repousem sobre ideias, crenças e valores comuns.

Qual é a intenção de Bolsonaro em retirar visto obrigatório a visitantes dos EUA e outros três países? É normal um governo fazer isso sem contrapartidas?

Fernanda Magnotta O discurso oficial do governo afirma que o fim do visto para norte-americanos, canadenses, australianos e japoneses no Brasil tem como objetivo dinamizar o mercado do turismo no país. A decisão, no entanto, é cercada de contradições e destoa do padrão histórico praticado pelo Itamaraty, que sempre prezou pela reciprocidade como um valor nos relacionamentos bilaterais.

Bolsonaro é alinhado aos EUA, mas vem dando sinais favoráveis à China, rival dos americanos. O que esperar desse comportamento dual?

Fernanda Magnotta O comportamento dual reflete crises que ocorrem no seio do governo. Primeiro, a permanente oposição entre ideologia e pragmatismo, representados pelos discípulos de Olavo de Carvalho [escritor] versus o grupo dos militares liderados por Mourão. Segundo, os interesses dos grupos que disputam poder no estabelecimento das agendas do governo brasileiro, sobretudo antiglobalistas como Ernesto Araújo, e liberais como Paulo Guedes.

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