O problema da ideia de que armar professor evita massacre

Na mesma manhã do massacre de Suzano, o senador Major Olímpio (PSL), afirmou que um "professor, um servente ou policial aposentado“ armado na escola poderia ter evitado mortes

 

Na manhã de quarta-feira (13) dois jovens armados realizaram uma série de homicídios em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. Eles entraram em uma locadora de veículos e mataram um comerciante, parente de um deles, antes de seguir para a escola estadual Raul Brasil, onde haviam estudado. Lá, mataram mais sete pessoas e se suicidaram.

Na mesma manhã do ataque, o senador Major Olímpio (PSL) afirmou em um discurso na Comissão de Constituição e Justiça do Senado que funcionários armados poderiam ter evitado mortes.

“Se houvesse um cidadão com uma arma regular dentro da escola, professor, um servente ou policial aposentado que trabalha lá, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia”

Major Olímpio

Senador pelo PSL, em discurso na CCJ

Senador mais votado no estado de São Paulo, Major Olímpio é presidente do PSL paulista, partido do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Casos como o de Suzano já ocorreram antes no Brasil, mas são pouco frequentes. Especialmente em comparação com os Estados Unidos, onde ocorreram, apenas em 2018, 24 tiroteios em escolas, promovidos por alunos ou ex-alunos. Eles resultaram em 35 mortes e 79 feridos. Os dados são de acompanhamento do site voltado a educação Education Week.

A fala de Olímpio ecoa a proposta do presidente americano Donald Trump para lidar com o problema em seu país. Após um atentado de alunos com armas em uma escola do estado da Flórida, em fevereiro de 2018, Trump afirmou que funcionários armados poderiam ter evitado o incidente.

O americano disse ainda que pretendia apresentar uma proposta legislativa sobre o assunto, e que professores que andassem armados poderiam receber bonificações.

Em nível estadual, esse tipo de medida já vem sendo aplicado nos Estados Unidos.

Uma reportagem publicada em março de 2018 pelo jornal americano The New York Times mostrou como ao menos 10 estados haviam criado leis permitindo que funcionários de escolas portassem armas, em grande medida como resposta a massacres de ampla repercussão. Em alguns casos, essas leis descrevem como os quadros seriam armados, e as armas, geridas.

Diversas escolas do país já vinham adotando essa política no momento da publicação da reportagem. E, após os tiroteios, legisladores da Flórida liberaram US$ 67 milhões destinados a armar e treinar professores para usar armas de fogo.

 

O debate sobre posse de armas e violência

A fala de Major Olímpio ocorre em meio a um debate de medidas que facilitam o acesso a armas no Brasil, também a partir da sugestão de que, com elas, cidadãos poderiam agir em legítima defesa, evitando ou minimizando crimes violentos.

Em janeiro de 2019, o presidente expediu um decreto que amplia o grupo dos que têm “efetiva necessidade” à posse no país, pré-requisito para adquirir armamentos. Além disso, há um projeto de lei na Câmara que pretende reduzir a idade mínima para a posse de 25 para 21 anos.

Bolsonaro afirma que pretende aprovar uma lei que amplie o direito de cidadãos andarem armados. Ele também afirma que avalia reduzir impostos sobre armamentos.

As mudanças na legislação estão em linha com as propostas feitas durante sua vitoriosa campanha eleitoral.  Apesar disso, pesquisa divulgada em dezembro de 2018 pelo Instituto Datafolha apontou que 55% dos brasileiros acreditam que a posse de armas deveria ser proibida, porque elas representam risco à vida das pessoas.

O que dizem as pesquisas sobre as armas

No geral, iniciativas que facilitam o acesso a armas a partir do pressuposto de que poderiam proteger civis são criticadas por pesquisadores do campo da segurança pública, internacionalmente.

Os dados disponíveis sobre circulação de armas e crimes violentos, e os cálculos de econometria realizados a partir deles derrubam a ideia de que a facilitação do acesso a armas legais diminui a violência.

Em entrevista ao Nexo, o coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, ressalta que também as pesquisas mais confiáveis no Brasil indicam que a proliferação de armas leva a aumento de homicídios.

"Não se basear em evidências é irresponsável, é uma argumentação que tenta vender uma realidade que não se sustenta. Se a alegação é de que com mais armas bandidos agem menos, provem. Mas eles não têm base”

José Vicente

Coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário nacional de Segurança Pública

Ele afirma que "uma pessoa armada seria a primeira vítima de um bandido, que depois pegaria sua arma".

“Cansamos de ver vigilantes mortos em porta de banco, porque não estavam preparados. E outro dia teve um caso em que um cara avançou e tirou a arma do coldre de um PM [policial militar]. Por sorte, ele foi acudido por outros. Isso pode acontecer com professores em uma situação dessas”, disse.

Para José Vicente, a presença de armas em redes de ensino levaria a “uma série de incidentes” em escolas. “É uma ideia idiota, absurda, achar que alguém armado poderia ter evitado isso [o massacre em Suzano]. Eu não colocaria meu filho em uma escola com professores armados.”

 

A questão dos professores

A proposta de armar professores também sofre oposição de parte da categoria. Em um artigo escrito para a revista Time em resposta a Trump, a professora de colegial e ex-membro das Forças Armadas dos Estados Unidos, Debra Ciamacca, rechaça a proposta de portar armas em sala de aula.

Entre as justificativas, ela diz que um disparo acidental da arma poderia ocorrer contra alunos próximos.

Além disso, ressalta que não tem treinamento específico para tomar decisões de “vida ou morte” em uma escola com milhares de crianças. “Até mesmo policiais treinados têm dificuldade em reagir a ameaças e empregar força letal de forma adequada."

Ciamacca argumenta também que portar uma arma poderia ser um empecilho na construção de sua relação com os alunos. “Uma arma é uma barreira que me separa dos alunos. Ela diz ‘afaste-se’ ao invés de ‘levante-se’.”

No artigo, diz que prefere planejar formas de evacuar sua sala e proteger os estudantes ao invés de lecionar armada.

Em entrevista ao Nexo, Arlley Parreira, professor de sociologia e filosofia da rede pública estadual de São Paulo, também avalia que mesmo membros de instituições treinadas para usar armas podem fazer mau uso delas. “Até mesmo a polícia e o Exército, que fazem treinamento para isso, ninguém está preparado para lidar com uma arma.”

“Mesmo um policial não minimizaria a violência. Ele poderia criar um tiroteio. Ao invés de duas armas, haveria três. Poderia ter bala perdida e ficar até pior”, afirmou.

A professora das redes públicas municipal e estadual em São Paulo, Michele Santos, afirmou que não se sente preparada para portar uma arma ou para usá-la em caso de ataque.

Ela questiona: “onde fica a função socializadora da escola quando os próprios funcionários pautam a possibilidade de armar-se?”, como sugere o Major Olímpio. “Essa ideia de bangue bangue é sintoma de que a sociedade falhou. Miseravelmente.”

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