O ataque de Bolsonaro a uma repórter a partir de uma notícia falsa

Presidente compartilhou em suas redes sociais declaração inexistente atribuída a jornalista do Estadão por um blog francês

     

    Jair Bolsonaro compartilhou em seu perfil no Twitter, na noite de domingo (10), uma notícia que atribui uma declaração falsa a uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Após a publicação do presidente, que faz da rede social seu canal de comunicação mais importante, a profissional foi alvo de ataques de apoiadores de Bolsonaro.

    O Estado de S. Paulo foi o primeiro veículo a revelar a existência do relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que apontou movimentação financeira atípica nas contas de Fabrício Queiroz.

    O policial militar aposentado foi assessor de Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, quando ele era deputado estadual do Rio. Entre as movimentações está um depósito de Queiroz, no valor de R$ 24 mil, na conta da primeira dama Michelle Bolsonaro.

    A repórter Constança Rezende, a exemplo de outros profissionais do jornal e de outros veículos de comunicação, tem atuado na cobertura do tema. Na noite de domingo (10), Bolsonaro compartilhou um tuíte de um site brasileiro, segundo o qual a repórter estaria trabalhando com a “intenção” de arruinar seu governo.

     

    Em sua mensagem, Bolsonaro faz referência ao pai da repórter, jornalista Chico Otávio, profissional do jornal O Globo. Otávio é autor de reportagens recentes sobre a atuação de milícias no Rio. Também O Globo publicou reportagens sobre a contratação, pelo antigo gabinete de Flávio, na Assembleia do Rio, de familiares de um policial aposentado suspeito de integrar um daqueles grupos e de participar da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) em março de 2018.

    O caso Coaf e o impacto para a família Bolsonaro

    A reportagem que deu início à cobertura do relatório do Coaf foi publicada em dezembro de 2018. O documento fazia parte de uma investigação maior, que atinge também Flávio, e está em curso no Ministério Público do Estado do Rio.

    O relatório foi obtido pelo jornal. A veracidade dele e a existência da investigação foram confirmadas depois pelo Ministério Público, que a mantém sob sigilo. A suspeita do órgão é de que havia um esquema de contratação ilegal de servidores na Assembleia Legislativa, cujos salários eram repassados a outros funcionários ou a deputados. Além de Flávio, os gabinetes de outros 21 deputados e ex-deputados estão sob apuração.

    A exemplo do pai, usou como bandeira eleitoral o discurso de moralização da política e a promessa do combate à corrupção. A revelação da investigação tornou-se um ponto sensível para o entorno da família Bolsonaro.

    Eleito senador em 2018, Flávio nega que tenha participado de esquemas ilegais na Assembleia. A respeito de empregar parentes de um miliciano no gabinete, o senador diz oficialmente que não pode ser responsabilizado por atos de terceiros. Ele diz também que Queiroz foi o responsável pelas contratações.

    Já Jair Bolsonaro justifica o depósito na conta da primeira dama dizendo se tratar do pagamento de um empréstimo que fez ao ex-assessor do filho e amigo da família.

    Flávio e o presidente dizem que o caso é explorado com intuito de enfraquecer o governo federal. O senador é alvo de procedimentos investigatórios em outras duas frentes, que tratam de informações sobre seu patrimônio.

    A publicação do áudio da repórter

    A mensagem compartilhada por Bolsonaro foi publicada no Terça Livre,  existente desde novembro de 2014. O site define-se como portal de notícias, além de uma plataforma de cursos, de viés conservador e crítico à esquerda e ao que chama de “ocupação das militâncias nas redações dos veículos da grande mídia”.

    Fazem parte dele apoiadores do PSL e simpatizantes do Bolsonaro. A autora do texto sobre a repórter, Fernanda Salles, ocupa cargo no gabinete do deputado estadual Bruno Engler, do PSL de Minas Gerais. Ao Estado de S. Paulo, Salles afirmou que o texto foi escrito fora do seu horário de expediente e sustentou que as informações publicadas são verídicas.

    O conteúdo contra a repórter de O Estado de S. Paulo foi publicado com o título “Jornalista do Estadão: a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. O Terça Livre, por sua vez, republicou conteúdo escrito por um jornalista francês Jawad Rhalid, em um blog hospedado no Mediapart, em 6 de março de 2019.

    Rhalid afirma ter feito uma entrevista com Constança Rezende, como parte de uma pesquisa dele para compreender a atuação de jornalistas “anti-Bolsonaro”. Esse conteúdo foi republicado também por um jornalista do The Washington Times, jornal americano fundado em 1982 também de viés conservador.

    Rhalid diz que entrou em contato com a repórter de O Estado de S. Paulo por ela ter sido a primeira a abordar o caso Coaf. A reportagem que revelou a existência do relatório foi publicada pelo O Estado de S. Paulo, mas escrita pelo repórter Fábio Serapião.

    A entrevista com Rezende, no entanto, não foi feita por Rhalid, mas por um estudante. Não fica claro se a repórter sabia que o conteúdo da conversa seria publicado pelo blog.

    Parte das respostas foi divulgada em áudios separados. Não foi disponibilizada a íntegra da entrevista. Segundo o autor do texto, as declarações da repórter confirmam que ela e parte da mídia brasileira atuam com interesse de "arruinar" o presidente.

    No texto, o blog francês afirma que a repórter usa documentos que não estavam públicos, revelados após as eleições e questiona quem se beneficia desses vazamentos.

    A entrevista foi feita em inglês. Os trechos divulgados não trazem a informação de que a repórter tem a intenção de arruinar o governo ou Flávio. Nos áudios, a jornalista diz que ela vem se dedicando a esse caso e que o processo pode “comprometer��, “arruinar” Bolsonaro. Ela não diz que sua atividade profissional está voltada a esse fim.

    Em outro trecho divulgado, ela diz que que sua preocupação é que as suspeitas não sejam investigadas e que, em sua opinião, trata-se de um “caso de impeachment”. A transcrição dos áudios também consta no blog francês.

    A resposta do jornal

    Segundo O Estado de S. Paulo, Rezende não concedeu entrevista ao blog. As frases publicadas foram retiradas de uma conversa ocorrida em 23 de janeiro de 2019 entre ela e Alex MacAllister, que se apresentou como um estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump.

    Trump, a exemplo de Bolsonaro, também é usuário assíduo do Twitter e crítico frequente de parte da imprensa americana.

    “A conversa em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. (...) As informações publicadas pelo jornal se baseiam em fatos e documentos oficiais”, escreveu O Estado de S. Paulo.

    A relação de Bolsonaro com a imprensa

    O presidente tem uma relação conflituosa com parte dos veículos de comunicação. São frequentes as críticas a empresas e jornalistas que, segundo Bolsonaro, distorcem fatos com intuito de atingi-lo.

    Como presidente, Bolsonaro manteve a prática usada nas eleições de se manifestar principalmente por meio de suas redes sociais. Quando concede entrevistas, em geral opta por atender os canais de televisão Record e SBT.

    Um dos elementos marcantes das eleições 2018 foi a intensa publicação e compartilhamento de notícias falsas, tanto por eleitores quanto por candidatos das diversas linhas partidárias.

    Segundo pesquisas de monitoramento realizadas pela Fundação Getúlio Vargas durante a campanha, as notícias falsas mais compartilhadas eram de apoiadores da candidatura de Bolsonaro e de teor negativo a Fernando Haddad, candidato derrotado do PT.

    Entre os exemplos estavam informações sobre fraudes nas urnas eletrônicas e sobre o “kit gay”, assuntos que foram também compartilhados por Bolsonaro.

    Após eleito, o presidente pediu desculpas por “caneladas” durante a campanha, ao se referir sobre as suspeitas levantadas, sem comprovação, sobre a lisura das urnas eletrônicas.

    Já o “kit gay” continuou sendo assunto, mesmo após Bolsonaro ter sido proibido pela Justiça Eleitoral de explorar o assunto politicamente, uma vez que a versão era distorcida e inverídica.

    A reação ao novo episódio

    Integrantes da bancada do PSL na Câmara, como Eduardo Bolsonaro (um dos filhos do presidente) e Carla Zambelli também compartilharam os tuítes do presidente e do site Terça Livre.

    Representantes de partidos de oposição, como PT e PSOL, repudiaram a publicação do presidente e viram na mensagem uma forma de ataque à democracia.

    Em nota, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) afirmam que Bolsonaro se valeu de informações falsas para promover um ataque público à imprensa e que, ao divulgá-la, o presidente usa de sua posição para intimidar jornalistas.

    “Isso [compartilhar informações falsas] mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos, o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão. Quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica”

    OAB e Abraji

    em nota divulgada na segunda-feira (11)

    A assessoria de imprensa do Palácio do Planalto não se manifestou sobre o assunto. Após o tuíte sobre a repórter, o presidente publicou outros dois tuítes com críticas à imprensa. No primeiro, disse que havia muitas manifestações de solidariedade de jornais e revistas e afirmou: “Segue o jogo da farsa e do vitimismo de quem nunca foi vítima”. Em outro, ironizou: “Se não ler as notícias é desinformado... se as ler ficará mal informado”.

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