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Futebol nos EUA: a luta para igualar salários de mulheres e homens

Atletas de equipe tricampeã do mundo acusam instituição de discriminação de gênero nos salários e nas condições de trabalho

     

    A três meses do início da disputa da Copa do Mundo de Futebol Feminino na França, marcada para 7 de junho de 2019, a seleção americana decidiu processar a federação da modalidade no país na busca de igualdade salarial e mesmas condições de trabalho em relação à equipe masculina.

    Um total de 28 integrantes da delegação assinaram na sexta-feira (8) a representação em uma corte federal em Los Angeles. Entre as envolvidas estão algumas das estrelas do futebol feminino mundial como Alex Morgan, Megan Rapinoe e Carli Lloyd.

    No processo, as signatárias argumentam que, embora jogadoras e jogadores da seleção americana de futebol realizem as mesmas tarefas e tenham as mesmas responsabilidades diante de seu empregador comum, a Federação de Futebol dos Estados Unidos, elas continuam recebendo menos em relação aos colegas homens.

    Descrevem uma discriminação de gênero institucionalizada que afeta não só seu pagamento, mas também as condições de seus treinos, o tratamento médico, o preparo que recebem, onde jogam e com que frequência e em que condições viajam para as partidas – sempre em desvantagem em relação à seleção masculina.

    Ainda segundo o processo, a federação admitiu pagar menos às jogadoras e chegou a afirmar que “as realidades do mercado são tais que as mulheres não merecem receber igual aos homens”.

    “A USSF [United States Soccer Federation] admite tal discriminação de gênero intencional inclusive em épocas em que as mulheres obtiveram mais lucros, jogaram mais partidas, venceram mais partidas, ganharam mais campeonatos e/ou obtiveram audiências televisivas mais altas”, acusa o documento.

    Desempenho

    A seleção feminina americana de futebol detém quatro medalhas de ouro em Olimpíadas e venceu a Copa do Mundo três vezes: conquistou a primeira edição, realizada em 1991 na China, foi novamente campeã em 1999, quando o país-sede foram os Estados Unidos e ganhou também a mais recente edição, ocorrida em 2015, no Canadá.

    A seleção masculina nunca venceu um mundial e só conseguiu chegar às semifinais no Uruguai em 1930, terminando em terceiro. Seu melhor desempenho desde então foi chegar às quartas de final em 2002. O time ficou fora da Copa do Mundo de 2018.

    Rendimentos

    Historicamente, a justificativa apresentada pela federação para a diferença de remuneração foi que a receita gerada era mais alta e o público pagante maior nos jogos da seleção masculina.

    A partir de 2016, porém, a seleção feminina passou a trazer maior arrecadação para a federação do que a masculina.

    Segundo o processo, no ano fiscal de 2016, a federação projetou um prejuízo de cerca de US$ 400 mil, mas encerrou com US$ 17,7 milhões de lucro devido à vitória feminina na Copa do Mundo de 2015 e sua popularidade crescente.

    O relatório mais recente sobre a situação financeira da federação também mostra rendimentos maiores vindos da seleção feminina, uma vez que a equipe masculina nem chegou a se classificar para o Mundial de 2018, perdendo possíveis ganhos.

    A federação

    Mesmo apresentando uma defasagem grande de apoio financeiro e infraestrutura logística oferecida às jogadoras em relação ao time masculino, a federação lidera, há décadas, o apoio ao futebol feminino no mundo. Os investimentos contribuíram para o desempenho da seleção feminina americana, que está hoje entre as melhores.

    Até 11 de março de 2019, a federação não havia falado à imprensa americana. Divulgou, porém, um comunicado em que ressalta o acordo coletivo firmado entre a equipe e a federação em 2017 e o apoio e esforço continuados em melhorar o futebol para as mulheres.

    O processo não deve ter consequências imediatas, já que as jogadoras estão focadas na Copa do Mundo. À ESPN a jogadora Megan Rapino declarou que esse tipo de ação costuma correr por um tempo longo, mas que um acordo poderia tornar o processo mais rápido.

    Um histórico dos embates

    A ação legal representa um novo capítulo de uma disputa de longa data por igualdade entre a seleção feminina de futebol e a federação americana.

    Muitas das questões presentes no processo de 2019 já apareciam em uma queixa de discriminação salarial de 2016, feita por cinco jogadoras da seleção à Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego, agência do governo americano que administra e garante a aplicação das leis contra a discriminação no local de trabalho.

    Depois de quase três anos sem nenhum avanço, as atletas receberam em fevereiro de 2019 permissão da agência federal para processar a federação.

    Uma das cinco a preencherem a primeira queixa, a goleira Hope Solo já havia processado individualmente a instituição em agosto de 2018. O processo segue em andamento. 

    Em janeiro de 2000, uma geração anterior de jogadoras americanas de ponta boicotou um torneio na Austrália exigindo salários maiores.

    Movimento mundial

    As reivindicações fazem parte, além disso, de uma luta mais ampla de atletas mulheres por igualdade no esporte.

    Nos Estados Unidos, jogadoras de outros times e mesmo de outras modalidades, como o hockey, recorrem às atletas da seleção de futebol em busca de orientações de como se articular por melhores salários e condições de trabalho.

    Um movimento semelhante também ocorre em outros países. Em 2015, a seleção feminina espanhola de futebol pediu a expulsão do então técnico Ignacio Quereda em função de não terem recebido preparo adequado para o mundial daquele ano.

    Em 2017, jogadoras importantes da seleção brasileira anunciaram sua retirada em protesto contra a saída da técnica Emily, demitida repentinamente e contra a vontade do time, e da falta de voz das atletas na CBF, a Confederação Brasileira de Futebol.

    No mesmo ano, jogadoras de futebol norueguesas obtiveram, por meio de um acordo, igualdade salarial em relação aos futebolistas homens.

    A eclosão dessas outras mobilizações e as eventuais vitórias de outras seleções encorajaram as americanas a continuarem pressionando a Federação de Futebol dos Estados Unidos, disseram várias jogadoras ao jornal The New York Times.

    “Acreditamos muito ser nossa responsabilidade, não apenas pelo nosso time e pelo futuro das jogadoras americanas, mas também para que jogadoras pelo mundo – e mulheres em todo o mundo – sintam que têm aliadas quando se manifestam, e lutarem pelo que acreditam, pelo que merecem e pelo que sentem que conquistaram”

    Megan Rapinoe

    jogadora da seleção americana, ao New York Times

    Algumas conquistas recentes

    Bônus da Fifa

    Em 2018, a Fifa anunciou que iria dobrar o prêmio da Copa do Mundo de Futebol Feminino de US$ 15 milhões para US$ 30 milhões, valendo a partir da Copa de 2019 na França.

    Na Copa masculina de 2018, o campeão do mundo recebeu US$ 38 milhões da Fifa.

    Além disso, pela primeira vez, times femininos também receberão bônus pela participação de jogadores no campeonato, como já acontece na Copa do Mundo masculina. 

    Patrocínio

    Logo após a divulgação do processo da seleção americana contra a federação, em março de 2019, a Adidas anunciou que jogadoras patrocinadas pela marca que estiverem na seleção vencedora da Copa do Mundo de 2019 receberão bônus associados à performance em valor equivalente ao recebido pelos homens.

    Copa de 2019

    Na Copa da França, a seleção feminina americana é cabeça de chave do Grupo F e enfrenta, na fase inicial, Tailândia, Chile e Suécia. Primeira colocada no ranking da Fifa, é uma das favoritas da disputa.

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