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O que é ‘guerra cultural’. E por que a expressão está em alta

Ao ‘Nexo’, os pesquisadores Eduardo Wolf e Esther Solano comentam a origem do termo e sua popularização no país nos dias atuais

 

A vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições presidenciais, em outubro de 2018, colocou no centro do debate público uma série de discussões de cunho moral.

Em vários momentos durante a campanha, e também no plano de governo, o presidente prometeu combater “ideologias” que considera nefastas à sociedade.

Em entrevista aos apresentadores do Jornal Nacional, da TV Globo, Bolsonaro voltou a falar do “kit gay”, um suposto material desenvolvido por parlamentares de esquerda, a ser distribuído nas escolas, que pretendia mostrar “crianças se acariciando e meninos se beijando”.

Nestes três primeiros meses de governo Bolsonaro, ministros e o próprio presidente têm reafirmado a preocupação com a “moral e os bons costumes”, em defesa da família tradicional e contra os movimentos feminista e LGBTI.

Bolsonaro e o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, voltaram ao assunto mais recentemente. No Twitter, o presidente referiu-se a uma “agenda globalista” que estaria dividindo a sociedade, em 4 de março de 2019, durante o Carnaval.

No dia seguinte, Bolsonaro compartilhou um vídeo com cenas de nudez e de cunho sexual para criticar o Carnaval de rua.

Para Matias Spektor, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV), o ato do presidente ilustra um fenômeno global de crítica moralista. “E promete que a guerra cultural não se reduzirá a mera estratégia de campanha. É uma forma de governar”, analisou em artigo para o jornal Folha de S.Paulo.

Durante audiência pública da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, em 25 de fevereiro de 2019, o ministro da Educação declarou: “É preciso combater o que se denominou ideologia de gênero, com a destruição de valores culturais e da vida social”.

Calcada nas bandeiras anticorrupção e antissistema, a vitória de Bolsonaro vem no embalo de um discussão comportamental mais ampla. É nesse contexto que se fala em “guerra cultural”.

Modelo ‘importado’

A guerra cultural é frequentemente citada como um modelo “importado” dos Estados Unidos. Em 1989, a Universidade Stanford tentou alterar o currículo de um dos cursos de cultura ocidental, que passaria a incluir autores como a indígena guatemalteca Rigoberta Menchú Tum, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1992. Republicanos reagiram à inclusão ao denunciar, na imprensa americana, a derrocada da cultura ocidental.

Na época, uma exposição sobre o universo underground gay do fotógrafo americano Robert Mapplethorpe na Corcoran Gallery of Art, em Washington, foi censurada após protestos. “Qualquer semelhança com a polêmica do fechamento da exposição ‘Queermuseu não é mera coincidência’”, escreveu o jornalista Maurício Meireles em artigo para a Folha. O contexto americano foi analisado pelo sociólogo James Davison Hunter no livro “Cultural Wars”, lançado nos Estados Unidos, em 1991, e inédito no Brasil.

A expressão é pano de fundo do discurso quando se usam outros jargões como “doutrinação ideológica”, “ideologia de gênero”, “globalismo” e “marxismo cultural”, acirrando posicionamentos sobre a expressão da sexualidade, religiosidade, raça e comportamento, a partir de valores morais: de um lado, estariam os conservadores; de outro, os progressistas.

Entre os exemplos recentes desse embate no país estão as polêmicas sobre o cancelamento da mostra Queermuseu, em Porto Alegre, e a passagem da filósofa feminista Judith Butler por São Paulo, em 2017 (a escritora foi recebida com protestos). Essa movimentação social, evidente nas redes sociais, foi parar na disputa eleitoral de 2018.

Segundo a análise do jornalista Denis R. Burgierman, colunista do Nexo, em 7 de dezembro de 2018, a polarização política fomenta uma “espiral de ódio”.

A análise de 2 especialistas

O Nexo ouviu os dois especialistas para entender por que a expressão está em alta no Brasil.

  • Eduardo Wolf: doutor em Filosofia pela USP, editor do “Estado da Arte” e autor de “Guerra cultural: ideólogos, conspiradores e novos cruzados”, com publicação prevista para 2019
  • Esther Solano: doutora em Ciências Sociais pela Universidad Complutense de Madrid, professora de Relações Internacionais na Unifesp e organizadora de “O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil”

O que é guerra cultural?

Eduardo Wolf  “Guerra cultural” se refere a um tipo especial de tensão social e política em determinada sociedade. Como o nome diz, esse conflito ocorre na dimensão da cultura — da produção artística, pensamento e reflexão, no universo dos valores e símbolos. Não é como uma guerra civil, que representa um estágio avançado de deterioração do quadro social e institucional. Tampouco se reduz a um conflito de facções partidárias. Justamente por ser um fenômeno do campo da cultura, podemos perceber sua presença de maneira ampla e difusa na sociedade.

O que torna esse tipo de tensão diferente é uma percepção, por parte de grupos majoritários ou dominantes, de que as nações e as sociedades em que vivem têm uma unidade e uma identidade que se traduzem em uma essência inalterável. Obviamente, tudo o que divergir dessa visão essencialista (pode ser do Brasil, pode ser do Ocidente), será considerado como uma ameaça radical, pois coloca em xeque a suposta identidade tradicional.

Nesse contexto, os próprios indivíduos que desafiam a visão essencialista costumam ver sua missão em termos idênticos, só que com sinal trocado: a existência continuada da sociedade tradicional, com suas ortodoxias características, é um inimigo intolerável, um impedimento à própria existência da cultura desafiante. E é isso o que define a guerra cultural: não é uma disputa entre duas concepções políticas que se alternam no poder, não é uma divergência profunda quanto a leis ou a políticas públicas, mas sim uma “luta pela alma da nação”, e cada lado só pode almejar o silêncio do outro.

Esther Solano É basicamente uma nomenclatura cunhada nos Estados Unidos, na década de 1990, para se referir a um deslocamento no debate público. Nos anos 1960 e 1970, tínhamos o debate mais clássico entre esquerda e direita, fundamentalmente a partir de pautas econômicas. Depois, temos o deslocamento para pautas mais morais, por exemplo a questão do aborto, uma perspectiva mais punitiva e autoritária do Estado.

A literatura estadunidense indica uma reação ao momento de avanço dos movimentos feministas, do movimento negro e de defesa dos direitos humanos no debate cultural, social e político, isto é, uma reação dos conservadores a tudo isso. Neste contexto, a “guerra cultural” é basicamente a moralização do debate público e, portanto, a moralização do debate político. Assim, os assuntos são abordados a partir do ponto de vista moral e religioso, desviando de questões programáticas e importantes para a vida pública, como, por exemplo, a agenda econômica.

Por que a expressão ‘guerra cultural’ vem se popularizando no Brasil?

Eduardo Wolf A popularização da expressão se deve a algo muito simples: uma intensa atividade da direita digital, fortemente influenciada pela direita digital americana, fez circular na última década um conjunto de teorias sobre como se dá a dominação da esquerda na cultura e na sociedade, e como a guerra cultural é a grande guerra a ser travada para “salvar” o país.

De destaque nesse meio, a figura óbvia de Olavo de Carvalho. Com a vitória presidencial de um candidato que fez sua carreira política como um semi-pária da extrema direita, vitória essa que contou desde o início com a mobilização e o entusiasmo da direita digital brasileira americanizada, esse discurso virou, primeiro, discurso de campanha e, agora, discurso de governo — este é um presidente da guerra cultural.

Agora, há um segundo aspecto: que tipo de mudança de fundo, na cultura, permitiu a eclosão dessa lógica de “guerra cultural”? Como tenho insistido ao comentar o assunto, é preciso entender que houve uma mudança nos ambientes tradicionais da cultura (os meios artísticos, certos setores da imprensa, do mercado editorial e da universidade): durante mais de quatro décadas, se consolidou e se expandiu uma hegemonia quase absoluta da esquerda nesse circuito (inicialmente a esquerda marxista; nos últimos 20 anos, outras vertentes também).

Isso começou a mudar por volta de 2006 a 2008. Hoje, o cenário é outro: há editoras, professores, alunos, artistas, cineastas, escritores e intelectuais que nada devem ao universo da esquerda. Pelo contrário, se caracterizam pelo ataque à esquerda e pela defesa do liberalismo, do conservadorismo ou variantes, além de oferecerem uma espécie de “contra-cânone” para os autores de consenso e celebração usual no Brasil. Simplesmente não existia nada disso (em escala significativa) no Brasil desde antes da década de 1960. Pela primeira vez em muitas décadas, portanto, há efetivamente dois lados em um conflito de ideias. (Uma questão à parte é saber qual é a qualidade desse pensamento liberal, conservador, libertário ou simplesmente anti-esquerdista).

Por fim, essas tensões, com a dinâmica própria da “guerra cultural”, se intensificaram com o fim do ciclo político de organização do país entre os anos de Fernando Henrique Cardoso e os anos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O acirramento das disputas políticas e o agravamento da crise econômica fizeram, é claro, aflorar a tensão cultural também.

Esther Solano Bolsonaro é uma peça simbólica da guerra cultural. Na campanha, por exemplo, não apresentou propostas programáticas e se pautou por questões morais, privilegiando argumentos em defesa de Deus, da família e dos costumes, de uma forma muito superficial. Foi uma reação ao campo progressista.

A ideia da guerra cultural também tem essa característica: não se faz um debate com o opositor, isto é, o enfrentamento entre um conservador e um progressista dentro de um debate político. A ideia é sempre ver o outro como um “inimigo”. Na política brasileira atual, você vê uma postura conservadora, inclusive reacionária, que trata o outro não como um interlocutor para a discussão de ideias, mas um inimigo a ser aniquilado em uma guerra política, dialética e altamente simbólica. Princípios morais se tornam um instrumento bélico. Assim como nos Estados Unidos, em que a guerra cultural se instaurou como uma reação ao campo progressista, no Brasil aconteceu o mesmo.

Tivemos um período longo de proliferação de pautas progressistas. Não só relacionadas aos governos do PT, mas à participação dos movimentos feministas, LGBT, negros — as chamadas pautas identitárias. Houve uma explosão desse campo progressista, que foi ganhando terreno não só na política, mas na cultura e no cotidiano. Agora, vemos uma reação do campo conservador nesses termos. Por exemplo, discute-se aborto não em termos de saúde e políticas públicas, mas em termos de “pecado”. Na mesma linha, discute-se a população LGBT não pensando políticas públicas, mas argumentando o casamento gay como algo contra a família tradicional cristã.

Além do Brasil, onde mais a ideia de ‘guerra cultural’ está em voga?

Eduardo Wolf O “ground zero” [grau zero] da própria ideia de guerra cultural no mundo moderno é a terra do senhor Donald Trump, claro. Nos Estados Unidos, essa dinâmica está instalada há décadas. Isso se intensificou profundamente nos últimos anos, pois a administração de Barack Obama foi marcada por um consistente progressismo social que, como consequência, despertou bestas-feras nos extremos da direita.

Paralelamente a isso, a esquerda acadêmica e o ativismo social, nos Estados Unidos, se radicalizaram muito nos últimos anos. Tudo isso tendo como pano de fundo econômico a grande crise econômica de 2008. A eleição de Trump, nesse cenário, contribui com um elemento novo: o próprio presidente Trump é agente da guerra cultural, agora.

O tipo de abalo político provocado pelo Brexit no Reino Unido tem gerado, mesmo naquele país de tradições pluralistas e estáveis, a mesma dinâmica social de “luta pela alma da nação”. Tendo a ver os demais conflitos culturais na Europa por outras lentes, contudo: seja na questão migratória, seja na questão específica do islamismo, cada vez mais presente, o capítulo europeu das guerras culturais requer uma análise bastante distinta do caso que nos é mais próximo e nos serve de modelo, que é o caso americano.

Esther Solano Sim, há vários exemplos. Podemos pensar na questão do Brexit: como grupos de direita articularam a saída do Reino Unido da União Europeia a partir de um discurso moralista, a ideia de um nacionalismo extremo, a criminalização e o estigma ao estrangeiro. Agora, na Espanha, o mais novo grupo de extrema direita, o Vox, também vem escoltado por um discurso anticomunista, antifeminista e contra “ideologia de gênero” e “doutrinação” nas escolas. Os elementos principais se repetem em diversos países onde a direita está forte.

Donald Trump, nos EUA, e Matteo Salvini, na Itália, são outros exemplos. Há aí também a discussão sobre a imigração, mas a partir de uma ideia moralista da nacionalidade, da suposta superioridade nacional e a inferioridade do imigrante. Os grupos de extrema direita de diferentes países estão alinhados a uma retórica muito similar, que usa a guerra cultural como estratégia eleitoral.

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