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A biografia de Duque de Caxias está em disputa. Quem foi ele

Patrono do Exército conhecido como ‘O Pacificador’ foi mostrado em desfile da Mangueira dançando sobre corpos, em referência à repressão a negros e índios por tropas lideradas por ele

     

    Uma mensagem publicada pelo Exército Brasileiro em sua conta no Twitter tem sido interpretada como uma resposta dos militares a críticas feitas pela Mangueira a Duque de Caxias (1803-1880), patrono do Exército. A publicação ocorreu às 18h36 de 6 de março de 2019, apenas meia hora após a escola de samba ter sido anunciada como a campeã do Carnaval do Rio.

    A mensagem exaltava o militar, político e monarquista cujo nome de batismo era Luiz Alves de Lima e Silva.

    “Os valores e os feitos de nosso patrono, o Duque de Caxias, ainda reverberam no peito de cada um de nossos soldados. No trecho abaixo, extraído do seu testamento, destaca-se a #SIMPLICIDADE, valor inerente aos grandes cidadãos”

    Exército Brasileiro

    em publicação no Twitter

    A publicação era acompanhada de uma imagem com o seguinte texto:

    “Dispenso as honras fúnebres que me pertencem como marechal do Exército e que só desejo que me mandem seis soldados, escolhidos dos mais antigos, e melhor conduta, dos corpos da guarnição, para pegar das argolas do meu caixão”

    Duque de Caxias

    em seu testamento

    Até sexta-feira (8), a postagem havia recebido 3.800 curtidas e fora replicada 864 vezes. Ela tinha gerado cerca de 130 comentários. Três deles foram feitos pelo general do Exército Geraldo Antônio Miotto, comandante militar do Sul, em Porto Alegre (RS).

    • “Caxias foi um estadista !!! A sua figura imponente está acima de qualquer tentativa de denegrir a sua imagem!!! Ele é o patrono do Exército !!! Brasil acima de tudo !!! Muito Aço !!!”
    • “Brasil acima de tudo !!! Aço !!!”
    • “Caxias é um herói nacional !!! Um exemplo de cidadão e militar !!! Fez muitas coisas pelo nosso Brasil!!! Foi o PACIFICADOR !!! Brasil acima de tudo !! Aço !!!”

    A releitura da Mangueira

    A Mangueira foi a escola de samba campeã do grupo especial do Rio em 2019 com o enredo “História para ninar gente grande”, que pretendeu, segundo seu carnavalesco Leandro Vieira, “contar um outro lado da história do Brasil”.

    Em seu site, a agremiação descreve o enredo como o “lado B da narrativa construída pela história oficial, onde estão nomes de gente comum, que deveriam estar nos livros, mas curiosamente, ou propositalmente, foram deixados no anonimato”.

    “A proposta é questionar acontecimentos históricos cristalizados no imaginário coletivo e que, de alguma forma, nos definem enquanto nação. Essas ideias de ‘descobrimento’, ‘independência’ e ‘abolição’ postas em cheque ou questionadas para possibilitar o entendimento do desprezo pela cultura nacional e as razões de uma sociedade pacífica ou, por que não, passiva”

    Leandro Vieira

    carnavalesco da Mangueira

    Após a vitória da escola, Vieira afirmou que o enredo, que homenageou, entre outras personalidades, a vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em 2018, era uma mensagem política. Ele respondeu a uma postagem de Bolsonaro associando o Carnaval a um vídeo com cenas sexuais explícitas.

    “É um recado político para o presidente Bolsonaro. Isso daqui é a festa do povo, carnaval é a festa do povo, não o que ele acha que é. O carnaval da Mangueira é o carnaval do povo, da arte, da cultura popular!”, disse.

    A Mangueira foi a penúltima escola a entrar no Sambódromo da Sapucaí, no Rio, em 4 de março de 2019, segundo dia de desfiles do Carnaval. Um dos carros alegóricos trazia enormes livros abertos e vários deles estampavam imagens de figuras históricas. 

    Quando o carro foi mostrado na transmissão da TV Globo, a apresentadora Fátima Bernardes afirmou: “Duque de Caxias é visto como pacificador. Eles [integrantes da Mangueira] questionam dizendo que ele liderou tropas contra balaios e quilombolas mortos no Maranhão. Contra indígenas, contra gaúchos, contra negros. Esses heróis estão dançando sobre corpos, sobre mortos. É muito forte o carro.”

    A página do enorme livro cenográfico no carro alegórico referente a Duque de Caxias trazia o seguinte texto impresso:

    “Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, foi um general conservador com muito poder no século 19. Patrono do Exército brasileiro, ganhou o título de ‘O Pacificador’, por liderar tropas em diversas revoltas e guerras na América Latina. Mas, para os brasileiros pobres do Império, devia se chamar ‘Passa e Fica a Dor’. Para Caxias e os poderosos do Império, pacificar era calar pobres, negros e índios, garantindo a tranquilidade da casa-grande. Foi assim com balaios e quilombolas mortos no Maranhão (1838-1841), com os lanceiros negros massacrados na Farroupilha gaúcha (1835-1845) e com negros e indígenas mortos na Guerra do Paraguai (1864-1870). Sua estratégia era simples: para as elites, negociação; para os trabalhadores, bala de canhão. Não era paz que ele levava. Paz sem voz é medo.”

    O texto é assinado por Tarcísio Motta, vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL e professor de história licenciado do Colégio Pedro 2º. Ele concorreu ao cargo de governador em 2018 e foi o terceiro mais votado, com 819.248 votos, atrás apenas de Eduardo Paes (DEM) e Wilson Witzel (PSC), que foram ao segundo turno. Witzel acabou eleito.

    Em sua conta no Facebook, Motta escreveu: “Por detrás do retrato emoldurado de Duque de Caxias tem mesmo muito sangue retinto e pisado. É a história que a história não conta, que tive a honra de poder partilhar não só com uma sala de aula, mas com uma avenida inteira. O texto que escrevi tornou-se, honrosamente, parte de um dos carros alegóricos da Estação Primeira de Mangueira. Que tenhamos coragem de desafiar, dentro e fora da Marquês de Sapucaí, a historiografia que esconde o genocídio do nosso povo”.

    Quem foi Duque de Caxias

    Luiz Alves de Lima e Silva nasceu em 25 de agosto de 1803, numa fazenda próxima à Vila Estrela, no Rio. Seu dia de nascimento (25 de agosto) tornou-se a data em que se comemora o Dia do Soldado. A região em que nasceu mudou posteriormente seu nome para Duque de Caxias. Era de uma família de militares portugueses que ascendeu na sociedade imperial até atingir o topo da hierarquia.

    Foi alistado no Exército com apenas cinco anos de idade, mas isso não significou que começou a servir à corporação. O título de cadete era “honorífico”, por ser filho de militar.

    Como militar, integrou o Batalhão do Imperador, criado por dom Pedro 1º, a quem se manteve leal. Na segunda metade da década de 1830, foi nomeado instrutor de esgrima e hipismo de dom Pedro 2º, de quem acabaria se tornando amigo.

    Entre 1839 e 1845, comandou as tropas que reprimiram a Balaiada (Maranhão, 1838-1841), as revoltas liberais de 1842 em São Paulo e Minas e a Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835-1845). Também foi responsável por comandar as forças brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870). Num intervalo de 28 anos, entre 1841 a 1869, foi barão, conde, marquês e, finalmente, duque, o único a receber tal distinção durante o reinado de dom Pedro 2º.

    Considerado o mais importante militar brasileiro da história, ganhou a fama de general extremamente disciplinado, rigoroso e avesso à política, embora tenha se envolvido na vida política de 1839 até sua morte, em 1880. A palavra caxias tornou-se um adjetivo usado para designar “aquele que cumpre com extremo rigor suas obrigações e responsabilidades”, segundo definição do dicionário Houaiss.

    Foi oficialmente designado patrono do Exército pelo decreto nº 51.429, de 13 de março de 1962, assinado pelo presidente João Goulart, deposto em 1964 pelos militares.

    Atividade política

    Duque de Caxias pertenceu ao Partido Regressista, que depois passou a se chamar Partido Conservador. Ele ocupou os seguintes cargos políticos:

    • Presidente da província do Maranhão (1839-1841)
    • Presidente da província do Rio Grande do Sul (1842-1846 e 1851-1852)
    • Vice-presidente de São Paulo (1842)
    • Senador pelo Rio Grande do Sul em 1845 (cargo vitalício)
    • Ministro da guerra nos gabinetes de 1853 (tendo ingressado em 1855), de 1861 e 1875
    • Presidente do conselho de ministros desses mesmos três gabinetes

    O Nexo conversou com Marcos Napolitano, professor de História do Brasil Independente e docente-orientador no Programa de História Social da USP, sobre a figura do patrono do Exército e sobre a iniciativa de Mangueira de fazer uma releitura de personagens históricos.

    De qual das duas interpretações Duque de Caxias mais se aproxima?

    MARCOS NAPOLITANO É difícil essa visão tão dicotômica. Ele não está para nenhum dos dois [Pacificador ou Passa e Fica a Dor], acho. Pacificador é um pouco generoso demais, porque na verdade ele impôs uma ordem política. É uma paz que não foi pactuada, foi imposta pelo núcleo da monarquia. Ele era um monarquista importantíssimo, um construtor político não só militar, mas do Império também, sobretudo em idade avançada. É um dos poucos duques que existem na nobiliarquia brasileira. Não dá para falar de pacificador naquela chave da história oficial tradicional e conservadora, mas também não sei se dá para jogar para o outro lado. Falta uma compreensão do que significaram as guerras, o que significaram as intervenções das forças da época. Agora, sem dúvidas, essas guerras se voltaram sobretudo para os elementos populares. E acho que é nesse sentido que a alegoria da Mangueira constrói. Essa ordem imperial foi construída obviamente reprimindo rebeliões populares, que muitas vezes eram também citadas por grupos regionais que não tinham nenhuma proposta de libertação, propriamente, das classes populares. Mas, num ambiente de tensão, de escravismo, de muitas desigualdades, de ausência de possibilidade de uma expressão política por outras vias, as rebeliões acabavam sendo válvula de escape para as tensões e elas eram reprimidas duramente, com massacres. Mas não só no Brasil. O Estado nacional moderno se construiu boa parte a partir dessa prática. 

    Ele era o líder militar nas rebeliões regenciais. A balaiada, a cabanagem e um pouco a sabinada também tiveram forte participação popular. É uma grande confusão que começa com uma questão entre as elites locais, vira um problema das elites com o Império e acaba se transformando numa rebelião generalizada dos excluídos, dos mais pobres, de algumas franjas de escravos, de indígenas. Sobretudo a cabanagem, no Pará, foi reprimida violentamente. É um quadro de crise política muito grande, sobretudo em 1830, com muitas rebeliões. Ao contrário da Farroupilha que sempre foi uma luta conduzida por caudilhos, por chefes militares que tinham um certo controle da tropa, o que obviamente não exclui as violências generalizadas, mas o caráter era outro. Nessas rebeliões, com forte participação popular, e ameaçavam a ordem escravista e a ordem social, a resposta do Estado imperial foi particularmente violenta.

    Mas uma coisa não anula a outra. Ele pode ter sido um grande comandante militar, não chegou a ser um estadista, mas um político importante no Império, e um comandante militar implacável. Uma coisa não exclui a outra. O general Julio Roca, na Argentina [ex-presidente do país entre 1880-1886 e 1898-1904] realiza uma campanha de massacre indígena na Patagônia e depois se torna presidente. Não dá para lidar com essas polaridades. A dificuldade, às vezes, de fazer uma análise histórica é que às vezes fica muito polarizada, ou é o grande herói oficial intocável ou é o vilão. A gente precisa aprender a lidar com a contradição e, claro, fazer a crítica. A gente não pode aceitar a chave do heroísmo nacional, que é a coisa mais importante de tudo e não importa quem está na frente. Hoje, a gente tem que olhar com senso crítico, mas sem cair no anacronismo. Precisa entender as pessoas na sua época, com seus valores. Isso não implica em apagar as violências.                      

    O que significa essa tentativa de fazer uma releitura da história?

    MARCOS NAPOLITANO Isso expressa uma tremenda crise no país. Uma disputa pelo passado quando se acirra quer dizer que a disputa pelo presente está feia. Não há pontos de convergência. A chave da história oficial que formava o patriota, aquele que não questionava as autoridades, é impossível hoje em dia. É muito difícil se manter fechado. Por outro lado, tem uma tentativa de se construir uma memória das violências contra as classes populares. E isso revela uma tensão atual. Um sentimento de exclusão desses grupos em relação à própria cidadania contemporânea. A história acaba sendo o palco desse exercício de polaridade. Para o historiador, para a compreensão histórica, por mais que a gente seja crítico, nós temos sempre que colocar em perspectiva. Isso que eu falo para os meus alunos. Não é dourar a pílula, como se diz, mas também não trazer para uma visão maniqueísta. Isso a gente está tentando superar.   

    A releitura da Mangueira tem que ser vista na perspectiva da reação conservadora, que tenta trazer de volta um suposto passado glorioso, que a gente sabe que não foi, pois teve muita violência. A escravidão foi uma violência, a constituição do Estado foi uma violência. Essa visão um tanto quanto idealizada do passado acaba gerando o seu oposto.        

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