Ir direto ao conteúdo

O que é alimentação intuitiva. E como ela se opõe às dietas

‘Corrente’ criada na década de 1990 vem se popularizando nas redes sociais, em contraposição aos ‘blogueiros fitness’

 

Uma pesquisa realizada em 2017 pela Associação Brasileira de Nutrologia ouviu 503 pessoas de 10 estados brasileiros, e revelou que 76% dos participantes haviam entrado em uma dieta nos últimos 12 meses. Além disso, 21,6% estavam, pelo menos, na quarta tentativa de restrição alimentar ao longo desse período.

A maioria (77%) já havia iniciado uma dieta por conta própria: cetogênica e low carb (30%), detox (19,1%), Dukan (15,7%), hiperproteica (13,3%) e sem glúten (12,9%) lideravam o ranking dos cardápios da moda escolhidos pelos participantes. A maior parte, 70%, buscava emagrecer.

A reação a dietas restritivas vem de adeptos – dietistas, nutricionistas e influenciadores digitais – da “alimentação intuitiva”. Eles pregam que a relação com a comida não se baseie na preocupação com o peso, no sentimento de culpa e na noção de pecado que são embutidos culturalmente no ato de comer.

Em lugar disso, a pessoa pode comer “o que quiser”, sem restrições de quando ou quanto, ficando atenta à sensação física de fome e saciedade.

Uma lista de 10 princípios da alimentação intuitiva traz recomendações como ficar em paz com a comida, resgatando uma relação saudável e prazerosa com ela, e rejeitar a mentalidade das dietas. 

A proposta se opõe às dietas restritivas, que normalmente envolvem contagem de calorias, eliminação de carboidratos, medir a cintura e pesar a comida.

A alimentação intuitiva é crítica aos efeitos emocionais e aos riscos à  saúde para pessoas que fazem dieta e controlam a alimentação de maneira tão rígida.

Qual a origem do conceito

A alimentação intuitiva vem expandindo sua popularidade online: no Instagram, a hashtag #alimentaçãointuitiva reunia 5.386 publicações em 1º de março de 2019. Sua versão em inglês, #intuitiveeating, agregava, na mesma data, 877 mil postagens na rede social.

Suas premissas ressoam entre pessoas que fazem dietas sem alcançar o resultado que desejam – mulheres, em sua maioria – e se contrapõe a ideias nocivas propagadas por “especialistas amadores” sobre corpo e bem-estar nas redes sociais.  

A ideia, entretanto, é mais antiga – vem do livro “Intuitive Eating: A Revolutionary Program That Works”. publicado em 1995 pelas dietistas americanas Evelyn Tribole e Elyse Resch.

Elas seguiam a mesma abordagem de outros profissionais da época, que consistia em focar a saúde alimentar no controle do peso, até perceberem que não estava funcionando, porque os pacientes voltavam a ganhar peso após a dieta.

Devido à correlação da obesidade com doenças cardíacas e diabetes, muitos nutricionistas ainda seguem essa abordagem.

Mas a novidade introduzida por Tribole e Resch provocou uma divisão no campo da nutrição, uma vez que dar menor foco ao peso e maior atenção a outros indicadores de bem-estar, como propunham, também ganhou seguidores.

Quais os benefícios e limitações

Ao Nexo, Ana Paula Bortoletto Martins, nutricionista e líder do programa de alimentação saudável do Idec, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, estabelece uma distinção entre a pertinência da alimentação intuitiva nos níveis individual e coletivo.

No nível da orientação clínica individual, a abordagem anterior, que orientava o paciente a ter uma preocupação grande com a alimentação, podia levá-lo a desenvolver distúrbios alimentares.

“Quando se fala com um paciente no consultório, faz todo o sentido incentivar uma relação mais saudável da pessoa com a alimentação: algumas orientações [da alimentação intuitiva] sobre não contar calorias, não ficar com essa preocupação excessiva em relação ao que está consumindo, poder comer uma variedade grande de alimentos de acordo com seus hábitos e com prazer”, disse Martins.

Por outro lado, do ponto de vista da saúde pública, o conceito tem algumas limitações, segundo a pesquisadora.

“Em nível populacional, corre-se o risco de que isso gere um entendimento de que todos os alimentos cabem em uma alimentação saudável, independente da sua qualidade. Aí eu vejo um problema: temos que orientar as pessoas em relação ao consumo, por exemplo, dos alimentos ultraprocessados que, conforme o Guia Alimentar [para a População Brasileira, do Ministério da Saúde] já recomenda, são uma categoria de alimentos com vários problemas em relação à qualidade nutricional, ao estímulo do consumo excessivo de nutrientes não saudáveis e estão associados a doenças crônicas. Nesse nível, esse conceito de alimentação intuitiva se torna reducionista”, disse.

Em contraste com as “dietas da moda”, a alimentação intuitiva é positiva.

“Com certeza a abordagem [da alimentação intuitiva] é mais positiva do que essa linha das dietas restritivas. Mas tanto uma quanto a outra acabam não deixando claro quais alimentos de fato estão associados a doenças crônicas, não falam sobre dar preferência ao consumo de alimentos in natura. Às vezes a pessoa procura um produto que é light ou integral, achando que vai trazer mais saúde, e na verdade ele também é ultraprocessado. Então esse problema não necessariamente é resolvido quando se passa de uma dieta restritiva para a alimentação intuitiva. Mas, com certeza, essa ideia de olhar para a alimentação de uma forma menos penosa, e mais pelo prazer, pela ótica de uma relação saudável com o alimento é positiva”, afirma a pesquisadora do Idec.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!