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Os 20 anos da ‘Batalha de Seattle’. E por que o protesto foi um marco

Manifestação impulsionou modelo de ativismo digital que marca movimentos sociais atuais, como o dos coletes amarelos na França

     

    Em 1999, a Rodada do Milênio, uma reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos EUA, discutiria novas normas de transações financeiras para o comércio internacional no século 21.

    Do lado de fora do prédio, milhares de manifestantes ocuparam as ruas da cidade americana, compondo uma manifestação inédita contra o capitalismo global. O protesto de 30 de novembro de 1999, duramente reprimido pela polícia, ficou conhecido como a “Batalha de Seattle”. 2019 marca os 20 anos desta mobilização que ecoa em movimentos sociais urbanos até hoje.

    Policiais lançaram spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar a multidão, estimada em 100 mil manifestantes – mais de 600 foram presos. A cidade decretou estado de emergência e toque de recolher até o fim da cúpula.

    Entre os manifestantes estavam anarquistas, ambientalistas, ativistas de direitos humanos e sindicalistas, que consideravam que as medidas liberais favoreceriam apenas os países ricos, explorando os países pobres. Muitos grupos e coletivos se organizaram na Rede de Ação Direta (Dan), que planejou bloquear ruas no centro da cidade e arredores do centro de convenções da OMC.

    Organizados pela internet, eles protestaram contra o livre mercado e tentaram impedir a realização das reuniões (com sucesso). Delegações não conseguiram chegar ao centro de conferências, decisões foram dificultadas e a cerimônia de abertura da Rodada do Milênio foi cancelada. Assim, a “Batalha de Seattle” se tornou um marco no movimento antiglobalização, descentralizado, global e juvenil. Na sequência, protestos marcaram cidades como Washington (EUA), Quebec (Canadá), Praga (República Tcheca), Londres (Inglaterra), Davos (Suíça) e Gênova (Itália).

    Parte dos manifestantes “antiglobalização” articularam o movimento “alter-globalização” ou “altermundialista”, culminando na idealização do Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, realizado pela primeira vez em Porto Alegre, sob o lema “outro mundo é possível”. É dessa época o livro “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, do geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001).

    Ao longo de duas décadas, a experiência de Seattle impulsionou o ativismo digital e inspirou, direta ou indiretamente, movimentos como o Occupy Wall Street (de 2011), o M15 na Espanha (2011) e o #YoSoy132 no México (2012).

    De Seattle a São Paulo

    Entre 2000 e 2002, o fotógrafo André Ryoki e o professor universitário Pablo Ortellado, autores de “Estamos vencendo! resistência global no Brasil” (ed. Conrad, 2004), registraram manifestações na capital paulista alinhadas ao movimento antiglobalização de Seattle. “Essas cidades passavam por contextos históricos similares, com o auge do neoliberalismo e das políticas de Estado mínimo, que tiveram impactos socioeconômicos não só na América Latina e no Brasil, mas nos países centrais do capitalismo”, definiu Ryoki, em entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo, em agosto de 2013.

    O protesto de Seattle também inaugurou o projeto Indymedia, uma rede internacional de mídia independente que pretendia publicar relatos e fotografias dos protestos como alternativa à cobertura da imprensa tradicional. No Brasil, a iniciativa foi batizada de Centro de Mídia Independente, ativo até hoje.

    De Seattle a Nova York

    Em 2011, a jornalista canadense Naomi Klein discursou no Parque Zucotti, em Nova York, onde estavam acampados os manifestantes do Occupy Wall Street. “Em Seattle, em 1999, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a OMC, o FMI, o G8. As cúpulas são transitórias, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos”, declarou Klein. Segundo a ativista, as causas continuavam: “Apontávamos que a desregulamentação cobraria um preço. Que prejudicava os padrões trabalhistas. Que prejudicava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e isso prejudicava nossas democracias”.

    Net-ativismo

    Para o sociólogo italiano Massimo Di Felice, coordenador do Centro de Pesquisa Atopos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a “Batalha de Seattle” consolidou um novo tipo de interação, o “net-ativismo”.

    Autor do livro “Net-ativismo: da ação social ao ato conectivo” (ed. Paulus, 2017), resultado de dez anos de investigação acadêmica e diversos congressos internacionais, Di Felice analisa as formas de ativismo digital, não necessariamente o conteúdo das diferentes reivindicações.

    O autor destaca três características do net-ativismo: articulação em tempo real entre o que acontece nas ruas e nas redes (como o “live blogging” e a transmissão ao vivo dos protestos); valorização do anonimato (as máscaras dos zapatistas e, depois, dos Anonymous, por exemplo); e recusa de lideranças de institucionalização das marchas, afastando-se dos partidos políticos tradicionais.

    “Seattle consagrou um novo modelo de ativismo, que expressa novas formas de participação, interação e conflito. É resultado da relação entre indivíduos, dispositivos e dados na rede, com dimensão global”, disse ao Nexo. Segundo o sociólogo, esse ativismo é diferente da política tradicional, pois “nasce” nas redes digitais e não se identifica com uma ideologia política única, à esquerda ou à direita.

    “De Seattle a Davos, esse modelo de movimento net-ativista chega até os dias atuais, com os coletes amarelos na França. Não há líderes ou porta-vozes. Não está à direita ou à esquerda. Esse tipo de movimento nasce nas redes, ganha as ruas, nas ruas continua conectado e volta às redes. Agrega indivíduos com opiniões e trajetórias diferentes, mas que interagem nas redes a partir de pontos comuns em certos momentos”

    Massimo Di Felice

    em entrevista ao Nexo

     

    Di Felice identifica três momentos do ativismo digital.

    1. No início da década de 1990, movimentos internacionais e teóricos da estética na Austrália e na Índia buscavam criar novas estratégias de ações para intervenções artísticas de cunho político, almejando repercussão internacional. Um exemplo da época é o movimento digital cyberpunk
    2. No fim da década de 1990, o ativismo digital se desenvolveu a partir do movimento zapatista de Chiapas, no sul do México. Foi a primeira experiência de articular ações e protestos via internet, que inspirou os primeiros protestos de repercussão internacional contra o capitalismo: Seattle, em 1999; Praga, em 2000; Davos, em 2001
    3. A partir da década de 2000 até o presente, desenvolveu-se um novo ativismo catalisado pelas redes sociais. Entre os exemplos estão a Primavera Árabe, o #YoSoy132 no México, o M15 na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, as “jornadas de junho” no Brasil e os “coletes amarelos” na França

    Para Di Felice, os avanços tecnológicos da internet ajudam a compreender a difusão de tantos movimentos. A estrutura inicial da internet, uma rede de computadores conectados por modems e linhas telefônicas, permitia a troca de textos e de imagens. Com o desenvolvimento de novas ferramentas e o advento das redes sociais, a internet se tornou uma plataforma mais ágil, interativa e multimídia.

    “A web 2.0, com softwares sofisticados e dispositivos móveis, catalisou protestos globais. Estamos passando para um novo momento, com o blockchain, um protocolo que permite criar novas moedas e tipos de organização social. Estão sendo construídas plataformas pensadas para uma democracia direta com escolhas populares de propostas e candidatos — um exemplo é a plataforma Liquid Democracy, do Partido Pirata na Alemanha. É a passagem de uma fase de protesto para uma fase de proposta, na qual se usam as redes digitais para uma organização social horizontal. As plataformas serão os novos parlamentos”, diz.

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