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O manifesto internacional lançado neste 8 de março

Publicado simultaneamente em mais de uma dezena de idiomas e diversos países em 2019, livro ‘Feminismo para os 99%’ lança 11 teses que esboçam os caminhos da luta por direitos no Dia Internacional da Mulher

 

Após dois anos consecutivos (2017 e 2018) de greve internacional de mulheres, com manifestações e marchas realizadas em mais de 50 países no 8 de março, Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya – três acadêmicas e ativistas feministas que participaram da organização e divulgação das greves – lançam, em 2019, o livro “Feminismo para os 99%: um manifesto”. 

Trata-se de uma reflexão teórica sobre “a nova onda de ativismo feminista combativo” e, ao mesmo tempo, de um manifesto para que ela caminhe em direção ao que as autoras definem como um “feminismo para os 99%”.

O livro está sendo lançado simultaneamente em março de 2019 em mais de uma dezena de idiomas, por editoras de vários países. No Brasil, foi publicado pela editora Boitempo e ganhou um prefácio de Talíria Petrone, deputada federal do PSOL eleita em 2018 pelo Rio de Janeiro.

Ao Nexo, Isabella Marcatti, editora da versão brasileira do “Feminismo para os 99%: um manifesto”, avalia que “é um texto que pode ser lido não só por militantes, ou só por marxistas – embora seja um texto marxista – mas que toca qualquer mulher. Qualquer uma que viva essa condição no cotidiano, de se dividir em mil tarefas, vai se sensibilizar e se sentir representada no manifesto.”

Junto a outras ativistas brasileiras e estrangeiras (como Amelinha Teles e Angela Davis), Fraser, Arruzza e Bhattacharya assinam também um texto publicado no dia 6 de março de 2019 pelo blog #AgoraÉQueSãoElas.

O artigo sintetiza e reafirma ideias presentes no “Feminismo para os 99%”. Destaca a solidariedade internacional e as ações transnacionais que têm sido retomadas por feministas e aponta para a necessidade de “convocar reuniões internacionais e assembleias dos movimentos”, após o 8 de março de 2019.

Acrescenta, ainda, eventos recentes e pautas específicas parao contexto brasileiro, como os 126 feminicídios já registrados no país desde o início de 2019, o assassinato da vereadora Marielle Franco, que completa um ano em 14 de março e segue sem resolução, e o movimento “Ele Não”, liderado por mulheres contra o então candidato à presidência Jair Bolsonaro em setembro de 2018.

Para as autoras, tais fatos sinalizam que “a nova onda feminista é a linha de frente na defesa contra o fortalecimento da extrema-direita”.

O Nexo lista abaixo, sob a forma de respostas a cinco perguntas, pontos-chave do manifesto lançado em 2019, contextualizando suas reivindicações.

O que significa ‘um feminismo para os 99%?

Para compreender o slogan principal do manifesto, é preciso retroceder ao ano de 2013, quando a empresária americana Sheryl Sandberg lançou o livro “Faça Acontecer” (ed. Companhia das Letras).

Em linhas gerais, Sandberg, que trabalha no Facebook, defende em seu livro que mulheres assumam riscos e se lancem na busca de seus objetivos, mirando ampliar o número de mulheres em cargos de liderança.

O livro teve uma recepção mista entre feministas, mas se tornou um best-seller e pautou, sobretudo nos Estados Unidos, o debate sobre para onde a luta das mulheres deve caminhar.

O manifesto de Fraser, Arruzza e Bhattacharya se contrapõe frontalmente ao “feminismo corporativo” de Sandberg, também identificado como liberal ou neoliberal, caracterizado por elas como um feminismo para o 1% que tem condições de “fazer acontecer”.

Defendem, de outro lado, uma associação do movimento feminista a outras articulações sociais comprometidas com a defesa dos direitos dos “99%”:

“Devemos nos unir a outros movimentos anticapitalistas e contrários ao sistema, por que nosso movimento deve se tornar um feminismo para os 99%. Apenas dessa forma – pela associação com ativistas antirracistas, ambientalistas e pelos direitos trabalhistas e de imigrantes – o feminismo pode se mostrar à altura dos desafios atuais”, escrevem.

“O feminismo para os 99% busca uma transformação social profunda e de longo alcance”, prosseguem as autoras em outro trecho. “Propomos, ao contrário, participar de todo movimento que combate a favor dos 99%, seja lutando por justiça ambiental, educação gratuita de alta qualidade, serviços públicos amplos, habitação de baixo custo, direitos trabalhistas, sistema de saúde gratuito e universal, seja batalhando por um mundo sem racismo nem guerra. É apenas ao se aliar a esses movimentos que conquistamos poder e visão para desmantelar as relações sociais e as instituições que nos oprimem.”

O que é uma greve feminista?

As greves feministas recentes tiveram como estopim paralisações e marchas ocorridas na Polônia, em 2016, em que mulheres protestaram contra a proibição total do aborto no país e foram vitoriosas. No mesmo ano, as argentinas protestaram contra o assassinato de Lucía Pérez e lançaram o grito “ni una menos” (nenhuma a menos), que se alastrou por dezenas de países, incluindo o Brasil.

Em 2017 e 2018, greves de mulheres foram convocadas globalmente para o Dia Internacional da Mulher, e outros lemas feministas, normalmente no formato de hashtags, ecoaram nas redes e no espaço público.

O diferencial de uma greve feminista é que ela não paralisa apenas o trabalho assalariado, tido como produtivo, mas também o trabalho não remunerado e frequentemente invisível realizado por elas, que possibilita a reprodução humana e social, como o trabalho doméstico e de cuidado.

“Essa nova onda democratiza as greves e expande sua abrangência – acima de tudo, por ampliar a própria ideia do que é considerado ‘trabalho’. Recusando-se a limitar essa categoria ao trabalho assalariado, o ativismo das mulheres grevistas também bate em retirada do trabalho doméstico, do sexo e dos sorrisos”, escrevem as autoras do manifesto.

Para elas, o movimento inventou novas formas de greve e “impregnou o modelo da greve em si com um novo tipo de política”, ao conjugar a paralisação do trabalho com marchas, manifestações, fechamento de pequenos comércios, bloqueios e boicotes, renovando o repertório de ações de greve.

O que é reprodução social?

De filiação marxista, as autoras definem, no prólogo do livro, o conceito de reprodução social – o trabalho não remunerado, majoritariamente realizado pelas mulheres devido aos papéis de gênero, de que o sistema capitalista depende para a obtenção de lucro:

  • “Abrange atividades que sustentam seres humanos como seres sociais corporificados que precisam não apenas comer e dormir, mas também criar suas crianças, cuidar de suas famílias e manter suas comunidades”
  • “Grandes quantidades de tempo e recursos são necessárias para dar à luz, cuidar e manter seres humanos”
  • “Muito do trabalho de criar e/ou manter seres humanos ainda é
  • feito pelas mulheres em nossa sociedade”
  • “No curso normal das coisas, a sociedade capitalista não confere nenhum valor a esse trabalho, mesmo dependendo dele”

O que o feminismo tem a ver com a crise global existente hoje?

Segundo as autoras, o “ponto político fundamental” do manifesto é que o feminismo deve estar à altura da atual crise.

“O feminismo que temos em mente reconhece que deve responder a uma crise de proporções monumentais: padrões de vida em queda livre e desastre ecológico iminente; guerras desenfreadas e desapropriação intensificada; migrações em massa enfrentadas com arame farpado; racismo e xenofobia encorajados; e revogação de direitos – tanto sociais como políticos – duramente conquistados. Aspiramos a enfrentar esses desafios.”

Também por isso, o feminismo que defendem “não se limita às ‘questões das mulheres’ como tem sido tradicionalmente definido. Defendendo todas as pessoas que são exploradas, dominadas e oprimidas, ele tem como objetivo se tornar uma fonte de esperança para a humanidade”.

Para enunciar a construção de alternativas, fazem, ainda, uma crítica ao “reducionismo de classe de esquerda”, que faz um “típico retrato do trabalhador militante como branco e do sexo masculino”, “extremamente defasado em relação ao momento – na verdade, desde o princípio ele nunca foi muito fiel (...) classe trabalhadora global de hoje compreende bilhões de mulheres, imigrantes e pessoas de grupos étnicos minoritários. Sua luta não é apenas no local de trabalho”.

O que propõe para enfrentar a violência de gênero e o controle da sexualidade? 

O manifesto faz uma crítica às estratégias adotadas hoje no combate à violência contra as mulheres, como a criminalização de atos de violência contra a mulher (assédio, estupro e outros).

“As respostas feministas convencionais à violência de gênero são compreensíveis, mas, ainda assim, inadequadas. A mais comum é a reivindicação de criminalização e punição. Esse ‘feminismo carcerário’, como tem sido chamado, aceita como natural precisamente o que deve ser questionado: a suposição equivocada de que as leis, a polícia e os tribunais mantêm autonomia suficiente em relação à estrutura de poder capitalista para contestar sua profunda tendência a gerar a violência de gênero. Na verdade, o sistema de justiça c­riminal atinge, de modo desproporcional, homens de grupos étnicos minoritários pobres e da classe trabalhadora, incluindo imigrantes, enquanto deixa seus colegas de colarinho branco livres para estuprar e espancar.”

Conectam, assim, a violência de gênero não só à desigualdade existente entre homens e mulheres, mas também ao sistema econômico: “no capitalismo, a violência de gênero não é uma ruptura da ordem regular das coisas, e sim uma condição sistêmica. Profundamente ancorada na ordem social, ela não pode ser entendida nem reparada isoladamente”.

“Prometendo erradicar todas elas, as feministas para os 99% têm o objetivo de associar a luta contra a violência de gênero ao combate contra todas as formas de violência na sociedade capitalista e contra o sistema social que as sustenta”, diz o manifesto.

Sobre a sexualidade, problematizam simultaneamente a corrente do reacionarismo e do liberalismo sexuais existentes hoje.

“Nenhum dos lados é o que parece”, avaliam as autoras. “Por um lado, o autoritarismo sexual que encontramos hoje é tudo menos arcaico. Embora apresentadas como ordens divinas atemporais ou costumes antigos, as proibições que busca estabelecer são, na verdade, “neotradicionais”. De modo similar, os direitos sexuais prometidos pelas oponentes liberais são concebidos em termos que pressupõem as formas capitalistas da modernidade; longe de permitir a real libertação, são normatizadoras, estatistas e consumistas”.

Propõem novamente a construção de uma nova forma de sociedade, “não capitalista, que assegure as bases materiais da liberação sexual, entre elas o amplo suporte público à reprodução social, redesenhada para uma gama muito mais ampla de famílias e uniões afetivas”.

 

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