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O maior acervo digital sobre as relações entre Brasil e EUA

Desde 2012, historiadores brasileiros e americanos estão indexando cerca de 300 mil páginas de correspondências oficiais, de diferentes níveis de sigilo, trocadas entre os governos ao longo do século 20

 

Um projeto internacional coordenado por historiadores brasileiros e americanos está digitalizando documentos diplomáticos dos Estados Unidos sobre o Brasil, datados de 1908 a 1963. Em andamento desde 2012, o Opening the Archives (Abrindo os Arquivos) disponibilizou milhares de documentos do Departamento de Estado dos EUA. A expectativa é chegar a 300 mil páginas ao longo de 2019.

Esta é a segunda fase da iniciativa liderada por Sidnei Munhoz, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e James Green, da Universidade Brown, nos Estados Unidos.

A primeira fase, que cobriu as décadas de 1960 a 1980, incluiu documentações do Departamento de Estado, da CIA (agência americana de inteligência) e das bibliotecas presidenciais John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson a respeito da ditadura militar (1964-1985) no Brasil. Antes, esses arquivos estavam disponíveis apenas para consulta “in loco” no Arquivo Nacional dos EUA, nos arredores da capital, Washington.

A proposta, segundo os organizadores, é disponibilizar os documentos para acadêmicos, jornalistas e interessados, passando por acontecimentos-chave do século 20

“O acervo contém dezenas de milhares de documentos sobre os mais diferentes momentos da história do Brasil e das relações entre o Brasil e os EUA. Por intermédio deles, será possível encontrar um rico manancial de informações sobre os impactos da crise de 1929 no país, a chegada de Getúlio Vargas ao poder em 1930, o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a crise que levou à deposição de Vargas em 1945, as transformações ocorridas no pós-guerra, a crise que levou ao suicídio de Vargas em 1954, as eleições de Jânio Quadros e sua renúncia. Por fim, há um vasto acervo relacionado à crise desencadeada com a renúncia de Jânio e os difíceis anos do governo João Goulart”, diz a introdução do projeto, apoiado por diferentes agências de fomento.

Eixo Maringá - Washington

Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutor pela Universidade Brown e especialista em a Guerra Fria, o historiador Sidnei Munhoz convidou James Green para escrever um artigo para o livro “Relações Brasil Estados Unidos: Séculos XX e XXI” (2011). Uma segunda edição, traduzida para o inglês, foi publicada em 2013.

Autor de “Revolucionário e gay: a extraordinária vida de Herbert Daniel” (2018), Green dirige um dos mais importantes centros de estudos brasileiros no exterior, a Brazil Initiative do Instituto Watson, da Brown.

Em 2012, foi a vez de Green lançar um convite para Munhoz: firmar um convênio internacional entre as universidades de Brown e Maringá, para digitalizar arquivos de Washington e disponibilizá-los para o público.

Em 2013, jovens pesquisadores do projeto escanearam milhares de registros de agências, bibliotecas presidenciais e outras organizações. Após o trabalho nos arquivos (a leitura das páginas e o cadastramento por palavras-chaves, por exemplo), é feito o carregamento dos documentos. 

O contexto da colaboração

A ideia inicial do projeto surgiu no contexto da Comissão Nacional da Verdade de 2012, após a aprovação da Lei de Acesso à Informação, que ampliou o acesso a documentos sobre violações de direitos humanos durante a ditadura militar.

Historiadores de diferentes nacionalidades vêm analisando o envolvimento do governo dos Estados Unidos durante a ditadura no Brasil, por exemplo, a assistência militar ao regime. “A política dos Estados Unidos mudou em relação ao Brasil no fim da década de 1970, quando líderes do governo estadunidense começaram a usar direitos humanos como uma bandeira para reavaliar o apoio a regimes militares no Brasil e América Latina”, escrevem os coordenadores.

Na próxima fase, o projeto pretende digitalizar mais documentos do período 1940-1944. A etapa terá colaboração do historiador Alexandre Busko Valim, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de “O triunfo da persuasão” (Alameda, 2017), Valim reuniu documentos microfilmados sobre o cinema e as estratégias de propaganda americana na América Latina durante a Segunda Guerra (1939-1945). Também participará o pesquisador Francisco Ferraz, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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