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O número de perguntas do Censo. E os planos de Paulo Guedes

Ministro critica excesso de questões em levantamento feito de dez em dez anos no Brasil. Ao ‘Nexo’ pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole avalia a quantidade e a qualidade da pesquisa do IBGE

     

    O economista Paulo Guedes chancelou o nome de Jair Bolsonaro junto a empresários e investidores na eleição presidencial de 2018. Prometeu políticas liberais, com redução dos gastos públicos e do tamanho do Estado. Com o governo empossado, o agora ministro da Economia vem anunciado cortes em áreas variadas.

    No dia 22 de fevereiro, ao discursar na posse da nova presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a economista Suzana Cordeiro Guerra, ele defendeu que o órgão venda prédios e corte também perguntas do Censo para diminuir os custos do estudo estatístico realizado de dez em dez anos. O próximo acontece em 2020.

    “O Censo é importante. Vamos tentar simplificar. O Censo de países ricos têm dez perguntas. O brasileiro tem 150 perguntas. Sejamos espartanos e façamos o essencial.”

    Paulo Guedes

    ministro da Economia

    O governo deve fechar 2019 com deficit primário pelo sexto ano consecutivo - isso significa que mesmo sem contar as despesas com juros da dívida pública, o que o governo arrecada não é suficiente para financiar o orçamento. Mais do que isso, a União tem quase toda a sua arrecadação comprometida com despesas obrigatórias, como salários de funcionários.

    As despesas com a realização do Censo são do tipo discricionária. Ou seja, elas são, junto com bolsas de estudo, por exemplo, passíveis de corte dependendo da vontade do governante.

    Estimativas divulgadas pela gestão anterior prevêem que o Censo 2020 custará R$ 3,4 bilhões, divididos, principalmente, nos anos de 2019 e 2020. A edição 2010 custou R$ 1,2 bilhão em valores nominais, ou R$ 1,9 bilhão em valores corrigidos pela inflação do período.

    Ao lado do ministro da Economia, a nova presidente do IBGE lembrou que o órgão perdeu 30% de seus funcionários nos últimos anos desde a realização do Censo 2010, mas afirmou que a edição do próximo ano é prioridade.

    O Ministério da Economia foi procurado para comentar a intenção de Guedes e explicar exatamente o que ele pretende cortar, mas informou que nem o ministro nem a instituição vão comentar o assunto.

    O que é e para que serve um censo

    O Censo é a maior e mais completa pesquisa realizada em território nacional. Seu objetivo básico é contar o número de habitantes de um determinado lugar, saber como eles se dividem em gênero, idade e condições de vida - em diversas dimensões. Os pesquisadores vão às casas das pessoas, o objetivo é entrevistar praticamente todas as famílias do país.

    O primeiro censo oficial no Brasil foi feito em 1872. Desde então, ele é realizado sistematicamente. Entre 1900 e 1940, foi realizado a cada 20 anos. Desde 1950 o Brasil faz um censo por década.

    As informações desse levantamento, e de vários outros, seguem disponíveis para consulta da população. As perguntas dependem do tipo de questionário. O aplicado à maioria tem perguntas como o nome, a idade e o grau de escolaridade.

    Na versão mais completa, aplicada a 10% dos entrevistados, há um grau de detalhamento maior. No Censo mais recente, os pesquisadores perguntavam, por exemplo, o tipo de material predominante nas paredes externas da residência, se há algum tipo de deficiência física na família ou se trabalha no próprio município ou em outro.

    O Censo mais recente foi feito em 2010, o próximo está programado para 2020. É a ele que Guedes se refere quando fala em cortar perguntas. Apesar de a pesquisa não ter começado efetivamente, o IBGE já trabalha na organização desde 2018.

    Segundo números do instituto, a ideia é visitar 70 mil domicílios em todas as 5.570 cidades do país. Para esse trabalho, o instituto estima que será preciso contratar, temporariamente, 250 mil pessoas para fazer as entrevistas e dar apoio.

    Os primeiros resultados devem estar disponíveis na segunda quinzena de dezembro de 2020, mas os números definitivos e conclusões serão divulgados entre 2021 e 2023.

    Sobre a possibilidade de diminuição do número de perguntas no Censo e a comparação feita por Paulo Guedes com os levantamentos de outros países, o Nexo entrevistou Rogério Barbosa, doutor em sociologia e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole.

    Qual a sua avaliação sobre o Censo brasileiro?

    Rogério Barbosa O Censo brasileiro é um dos melhores do mundo. Tanto pela capacidade que o IBGE tem de mobilizar um contingente absurdo de pessoas quanto pela consistência do trabalho feito em campo. Com os computadores de mão, é possível identificar erros de preenchimento, por exemplo, in loco. Há um grande controle sobre onde está o pesquisador, se ele realizou ou não a pesquisa, uma checagem da amostragem.

    Os microdados estão disponíveis desde o Censo de 1960, há alguns do século 19, é uma das maiores séries históricas do mundo. Nos Estados Unidos, também começa em 1960.

    O Censo do Brasil é de fato maior e mais complexo do que de outros países?

    Rogério Barbosa No Brasil, o Censo assume uma responsabilidade que os censos de outros países não necessariamente assumem. Há uma série de pesquisas em outros países que não existem no Brasil, e que aqui acabam no Censo.

    Por exemplo, o Censo brasileiro pergunta sobre o curso superior que uma pessoa fez, seja graduação, mestrado ou doutorado. É uma pergunta difícil, há uma lista que pode chegar a cem cursos diferentes. Quase nenhum censo no mundo pergunta isso.

    Isso deveria ser perguntado no censo demográfico? Talvez não. Mas o problema é que, se o objetivo é entender o funcionamento do mercado de trabalho, os encaixes entre as ocupações e as formações das pessoas, é preciso que a pergunta seja feita na mesma pesquisa.

    As pesquisas sobre ensino superior não indagam nada sobre mercado de trabalho, renda e condições de moradia. Então o Censo acaba recebendo essa função de mapear tanto a educação, como o mercado de trabalho porque não existem outras que façam esse papel.

    Qual a avaliação sobre a comparação feita pelo ministro Paulo Guedes?

    Rogério Barbosa Acho uma comparação um pouco injusta, principalmente com os países ricos, porque lá existe uma série de outras pesquisas que fazem o papel de auxiliar.

    Sobre o tamanho do Censo, há outro detalhe. Desde 1960, o Censo no Brasil se constitui de duas pesquisas: universo e amostra. Universo vai em todas as casas, tem um questionário menor. A cada dez casas, um questionário maior é aplicado, é a amostra.

    O Paulo Guedes falou que o Censo é grande, isso não é bem verdade. O questionário do universo tem 15 a 20 perguntas, varia bastante. À medida que se melhorou a amostra, cada vez mais o questionário do universo foi enxugado. No começo, era um questionário longo a cada quatro casas, desde 1991 é a cada dez casas.

    Ou seja, 20 milhões de pessoas respondem ao questionário maior que também não tem 150 perguntas. São aproximadamente umas 80 que, ao se transformarem em banco de dados, se convertem em aproximadamente 150 variáveis. Então há muitos exageros na declaração.

    Em que áreas o Censo do Brasil é diferente?

    Rogério Barbosa Nos outros países, quando querem fazer uma caracterização básica, simplesmente perguntam a renda. Não tem ocupação, ocupação anterior, se está desempregado. Aqui se pergunta muito de mercado de trabalho. Boa parte das perguntas do Censo são parecidas com as da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) [feita mensalmente por amostragem].

    O Censo permite uma representatividade no nível intramunicipal, alguns bairros até. É a partir disso que a gente sabe, por exemplo, que a expectativa de vida nos bairros mais pobres de São Paulo é muito menor, o quão menor é e qual o impacto possível de reformas que envolvam o estabelecimento de faixas etárias. A mesma coisa com relação a desemprego, trabalho.

    Não existem pesquisas no nível municipal, e muito menos intramunicipal, a não ser o Censo demográfico. A Pnad, no máximo, mostra as 27 capitais. Os demais municípios não estão representados. Há perguntas feitas em todos eles, mas é tão pouca gente entrevistada que não é possível generalizar a situação do município a partir das entrevistas.

    Há coisas sobrando no Censo?

    Rogério Barbosa Acho que pode haver perguntas sobrando, sim. Mas não há blocos sobrando. Não é que o Censo deva deixar de fazer perguntas sobre mercado de trabalho. Mas outra questão é como avaliar o que é uma sobra. Se a pergunta não foi muito utilizada pelos pesquisadores e formuladores de políticas públicas até agora não significa que ela seja descartável.

    A questão das ocupações e da formação superior, até hoje, foi relativamente pouco usada no Brasil. Mas hoje a gente tem um quadro em que há excesso de graduados em determinadas áreas e falta em outras. E há um desencaixe. A falta de olhar especificamente para essas duas questões, de um cruzamento entre elas, gerou um problema de política pública de má oferta de ensino superior no geral. Há sobreoferta de alguns cursos, mas falta médico. Houve um desencontro entre demandas locais e nacionais e a oferta de cursos.

    Com o Censo, isso pode ser identificado e motivar políticas públicas de ofertas em determinados lugares.

    É possível cortar, deixar só o essencial, como disse o ministro?

    Rogério Barbosa Nós podemos, sim, e talvez até devêssemos enxugar o Censo. Mas isso deve vir acompanhado de uma mudança maior, a criação de pesquisas que preencham o que hoje só é feito pelo Censo.

    Só se acompanha municípios pelo Censo. Todos esses indicadores de educação e mercado de trabalho servem, por exemplo, para calcular o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

    Enquanto não tivermos pesquisas auxiliares que supram as coisas que o Censo tem suprido, é impossível fazer esses cortes. É gerar um apagão informacional.

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