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O que se espera de político para o Carnaval de 2019

Para fazer crítica, sambas-enredo apostam em história e metáforas. Marchinhas populares na internet e nas ruas vão direto a Brasília

    Ao longo da história do carnaval, desfiles nos sambódromos brasileiros criticaram presidentes, ditaduras e planos econômicos. Fizeram sambas sobre o racismo, a devastação da Amazônia e a Operação Lava-Jato.

    Em 2018, os cantos “Monstro é aquele que não sabe amar”, da carioca Beija-Flor, e “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, da Paraíso do Tuiuti, marcaram a ligação da festa com a política. Venceram em primeiro e em segundo lugares no campeonato do Rio.

    Assim como os sambódromos, o carnaval de rua, cada vez tão evidente quanto as grandes produções, é palco tradicional de críticas francas e bem-humoradas ao poder e aos costumes — muito diferente da ideia de “alienação regada a samba” às vezes atribuída à comemoração.

    “É uma festa engajada que satiriza o cotidiano, a política e os costumes, o atual momento. Os sambas e as marchinhas são muito adequados à caricatura. [Tem] esse papel de cutucar a onça com vara curta”

    Luiz Antônio Simas

    historiador, em entrevista ao UOL TAB

    Em 2019, os sambas-enredo em São Paulo e no Rio de Janeiro devem ser marcados pela recuperação crítica da história brasileira. Enquanto isso, marchinhas populares falam no início do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). O Nexo reuniu alguns destaques da temporada.

    A luta por liberdade

    “Apesar de você…

    Vamos romper as barreiras
    Erguer as bandeiras, por mais união
    Oh! Meu Brasil!
    A liberdade emana do amor
    Meu direito à igualdade não representa favor!”

    Acadêmicos do Tucuruvi

    no samba-enredo “Liberdade, o canto retumbante de um povo heroico”

    Em “Liberdade, o canto retumbante de um povo heroico”, a paulistana Acadêmicos do Tucuruvi homenageia a luta pela liberdade na história do Brasil desde a chegada dos portugueses, em 1500, até os dias de hoje.

    Na apresentação do enredo, os Acadêmicos afirmam que juntos todos “forjamos a resistência através de lutas, guerras e cantos de liberdade”. “Conquistamos fronteiras, quebramos tabus e hoje buscamos novamente a dignidade que sempre nos foi roubada”, continua o texto.

    São especiais homenageados os indígenas, a população negra e os trabalhadores — “um povo aguerrido, que por nada desiste”, afirma a apresentação. Segundo o texto, “somos o canto da alma e da dor”.

    A homenagem a Marielle Franco

    “Brasil, meu dengo, a Mangueira chegou

    Com versos que o livro apagou
    Desde 1500, tem mais invasão do que descobrimento
    Tem sangue retinto pisado
    Atrás do herói emoldurado
    Mulheres, tamoios, mulatos
    Eu quero o país que não tá no retrato”

    Mangueira

    no samba-enredo “História para ninar gente grande”

    Ao lado da guerreira abolicionista Dandara, da revoltosa malê Luísa Mahin e o povo indígena Cariri, a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018, é homenageada no samba-enredo “História para ninar gente grande”, da Mangueira, escola de samba do Rio de Janeiro.

    Ao celebrar os “heróis de barracões”, a Mangueira homenageia personagens excluídos da “história [do Brasil] que a história não conta”, mas que tiveram importante papel para enfrentar injustiças e opressões perpetuadas pelos “heróis” da história oficial, segundo o enredo.

    A liberdade não veio “das mãos de Isabel” (a princesa, que assinou a abolição da escravatura em 1889), diz o canto da Mangueira. “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, continua.

    Após a morte, Marielle tornou-se um símbolo da defesa dos direitos humanos no Brasil. Em sua curta carreira como vereadora (ela havia sido eleita em 2016), representou mulheres, negros, LGBTIs, pobres, moradores de favelas, entre outros. Ainda não se sabe quem é o autor de seu assassinato. A Justiça suspeita de envolvimento de milícias.

    Que país é esse?

    “Vejam só que ironia

    Da colônia à monarquia por aqui nada mudou
    Imperava uma história mal contada
    Logo após republicada pelas mãos do ditador
    Em planos, um país descolorido
    Saqueado e dividido
    O poder de quem tem mais
    A farra das elites sociais
    E o povo na rua, revestido de coragem
    ‘Lava a alma’ de esperança
    Pra acabar com a sacanagem”

    Águia de Ouro

    no samba-enredo “Brasil, eu quero falar de você! Que país é esse!”

    A paulistana Águia de Ouro mostra indignação com as mazelas, as injustiças e as revoltas no país no samba-enredo “Brasil, eu quero falar de você! Que país é esse!”, sobre um histórico de problemas nacionais.

    Na sinopse do enredo de 2019, a Água de Ouro fala em injustiças históricas como a escravidão e critica a exploração das riquezas naturais do Brasil em nome da “ganância e poder”. Menciona também a Operação Lava Jato, pedindo um “grito de basta” para a corrupção.

    ‘Me dá um dinheiro aí’

    “A tentação seduziu a poesia

    Da volta todo dia é a oferta e a demanda
    Pecado capital da humanidade
    Senhor da desigualdade
    Sempre diz quem é que manda”

    Imperatriz Leopoldinense

    no samba-enredo “Me dá um dinheiro aí”

    No samba-enredo “Me dá um dinheiro aí”, a carioca Imperatriz Leopoldinense conta a história da relação do homem com o dinheiro, destacando sua influência sobre a política e a vida social.

    “A gente vai mostrar desde o nascimento do dinheiro e como o homem se relaciona com o dinheiro, a ambição do ser humano. O dinheiro é o que move muitas relações, e às vezes é mal utilizado, mal aplicado. Tem crítica, tem humor”, disse o carnavalesco Mario Monteiro, autor do enredo, em entrevista ao Site Sambarazzo.

    O ‘salvador da pátria’

    “Ora meu patrão!

    Vida de gado desse povo tão marcado
    Não precisa de dotô
    Quando clareou o resultado
    Tava o bode ali sentado
    Aclamado o vencedor”

    Paraíso de Tuiuti

    no samba-enredo “O salvador da pátria”

    Após ter exibido um boneco de um popular “vampirão neoliberal” — o ex-presidente Michel Temer — no desfile de 2018, a Paraíso do Tuiuti, escola de samba carioca, homenageia neste ano o bode Ioiô, animal que, em um ato de protesto, foi eleito vereador em Fortaleza em 1922.

    Ioiô foi um personagem popular, que chegou à capital cearense junto de quem enfrentava a seca, em 1915. Em pouco tempo, tornou-se parte do cenário da cidade, circulando entre estabelecimentos comerciais com “carisma e liberdade”. Seu samba-enredo é “O salvador da pátria”.

    A sinopse do enredo apresenta Ioiô como “um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes intelectuais”. Segundo o texto, o bode “incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo”.

    Alguns apontam que o texto faz referências não só ao bode cearense, mas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também nordestino, de origem pobre e com força popular. “Não posso provar, mas tenho total convicção da autenticidade de tudo o que a ele [ao bode] atribuíram…”, diz a sinopse, em possível referência ao processo que levou à prisão de Lula, condenado duas vezes pela Lava-Jato.

    Os guerreiros do cotidiano

    “É amar e amar sem pensar

    Fazer o bem a cada manhã
    Um mundo melhor pra se viver
    E não perder a fé, sabe por quê?
    Sou brasileiro
    Vou defender minha nação
    Oh, pátria amada, idolatrada
    Não chores em vão”

    Acadêmicos do Tatuapé

    no samba-enredo “Bravos guerreiros - Por Deus, pela honra, pela justiça e pelos que precisam de nós”

    Em “Bravos guerreiros”, a paulistana Acadêmicos do Tatuapé homenageia guerreiros de páginas da história e, sobretudo, os “guerreiros do cotidiano” — os brasileiros que fazem o país avançar.

    “Nosso enredo vai exaltar o povo brasileiro, guerreiros do cotidiano, gente sofrida e aguerrida que sobrevive a todas as mazelas deste país, subjugados por uma política de corrupção e poder, que oferece migalhas no lugar de políticas públicas que resgatem o respeito e a dignidade humana”, diz a apresentação do enredo da escola.

    Entre os “guerreiros” da história a aparecer no desfile, estão Joana D’Arc, Zumbi dos Palmares, Gandhi e Martin Luther King, entre outros personagens que representaram a força, a coragem ou a paz em diversos momentos da história. Do século 21, serão homenageados movimentos de ativismo ambiental, como o Greenpeace.

    O que promete o carnaval de rua

    Ao contrário dos sambas-enredo, que costumam manifestar mensagens políticas por meio de metáforas e histórias, as marchinhas de carnaval na internet e nos blocos de rua falam em política sem meias-palavras.

    No YouTube, a marchinha “Talquey Talquey a Culpa é do PT” critica o governo do presidente Jair Bolsonaro, com referência à ministra Damares Alves, ao filho do vice-presidente, o general Hamilton Mourão, e ao ex-assessor Fabricio Queiroz, suspeito de estar envolvido em esquema de laranjas quando trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro.

    A marchinha é da família Passos, conhecida na rede social por diversas composições de carnaval que fez em crítica a Bolsonaro e a medidas do governo federal, como o decreto que flexibilizou a posse de armas.

    “Melhor JAIR procurando o que fazer

    Vou acabar com a Lei Rouanet
    Traz a Damares
    Traz ou Mourão
    Que traz seu filho para mamar no tetão
    Prepara o suco de laranja para o Queiroz
    Que traz um dinheirinho para todos nós”

    Família Passos

    na marchinha “Talquey Talquey a culpa é do PT”

    Critica também o governo federal o Bloco do Biroliro, que brinca com um apelido que o presidente ganhou nas redes. Na marchinha “Banda maracutaia”, o grupo faz referência a ideias do ministro da Economia, Paulo Guedes, episódios com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e os recuos políticos que o governo fez nos primeiros dois meses.

    “O nosso bloco se criou no zap zap

    Não tem dinheiro de estatal
    Dizem que ouviram do Ipiranga o Paulo Guedes
    Que decidiu privatizar o carnaval
    Tem o ministro que tem nome de chuveiro
    O dia inteiro desfazendo tantos ‘ais’
    O bloco vai pra frente
    O mito volta atrás
    Pra onde, nem sabe mais”

    Bloco do Biroliro

    na marchinha “Banda maracutaia”

    Embaladas pelo sucesso de blocos femininos no carnaval de rua, marchinhas sobre igualdade de gênero também se popularizaram na internet no pré-carnaval em 2019. Entre elas, estão “Tomara que caia”, cantada pelo Grupo Vozeiral, “Se você quiser”, por Chico César e Bruna Caram, para a campanha #CarnavalSemAssédio.

    “Tomara que caia! - o patriarcado

    Tomara que caia! - o presidente
    Tomara que caia! - o esquerdomacho
    Tomara que caia! - toda essa gente!”

    Grupo Vozeiral

    cantando a marchinha “Tomara que caia”

    “Se você diz ‘não’

    Eu sei que é ‘não’ (ô, se é não)
    E que só é ‘sim’
    Se assim você disser
    Não importa o que é
    Que você vai vestir
    Eu não vou te tocar
    Sem você consentir”

    Chico César e Bruna Caram

    cantando a marchinha “Se você quiser”

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