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A morte do neto de Lula. E a reação aos haters digitais

Casos recentes de manifestações de ódio motivam demandas por exposição e cobram responsabilidade de seus autores

 

Neto de Luiz Lula da Silva, o menino Arthur Araújo, de 7 anos, morreu nesta sexta-feira (1º), em um hospital de Santo André, na Grande São Paulo, vítima de uma meningite meningocócica

Ele era filho de Marlene Araújo e Sandro Luis, filho do ex-presidente com a ex-primeira-dama Marisa Letícia - a esposa do petista morreu em fevereiro de 2017, após sofrer um AVC.

A notícia causou comoção, mas também comentários irônicos e ofensivos de muitos usuários das redes sociais. A figura de Lula desperta amor e ódio. Ele governou o Brasil de 2003 a 2010. Deixou Brasília com popularidade recorde. Hoje está preso pela Operação Lava Jato, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

A questão da saída temporária

A morte do menino trouxe à tona mais uma vez a discussão sobre a saída temporária de Lula da carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e 1 mês de detenção em razão do processo do caso tríplex. Ele está preso desde 7 de abril de 2018.

Em janeiro de 2019, um irmão próximo do ex-presidente, Genival Inácio da Silva, o Vavá, morreu em decorrência de um câncer. A juíza Carolina Lebbos, responsável pela execução da sua pena, negou a ida do petista ao enterro. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, acabou revertendo a decisão e autorizando a saída do ex-presidente. Mas isso só ocorreu quando a cerimônia já estava para acabar. Lula não foi.

A Lei de Execução Penal prevê a liberação de presos em caso de morte ou doença grave de alguns familiares, incluindo irmãos. Uma escolta policial acompanha o preso, que pode permanecer fora da cadeia pelo tempo “necessário à finalidade da saída”.

Em 2015, ano com os dados mais atualizados, foram concedidas mais de 175 mil autorizações de saída temporária da prisão no Brasil por conta de morte de parentes próximos, nos termos do artigo 120 da lei. Os números são do Ministério da Justiça.

O tuíte de Eduardo Bolsonaro

Desta vez, a juíza Carolina Lebbos autorizou a saída de Lula para comparecer ao velório e ao enterro do neto. Um avião do governo do Paraná foi colocado à disposição da Polícia Federal para a escolta. Antes que isso ocorresse, porém, um tuíte de um dos filhos do atual presidente da República, Jair Bolsonaro, chamou atenção.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), mais votado da história para o cargo, escreveu: “Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado”.

A declaração foi repudiada por boa parte dos usuários nos comentários, incluindo eleitores de Jair Bolsonaro. O mesmo repúdio foi registrado nas redes sociais contra aqueles que ironizaram ou atacaram Lula diante da morte do neto. O episódio expôs, mais uma vez, a ação dos chamados haters digitais. Mas também mostrou uma reação contra eles.

Os haters da era digital. E as reações

O fenômeno hater existe desde os primórdios da internet. Ele ganhou plataformas mais fáceis de usar e de maior alcance com a popularização de redes sociais como Facebook ou Twitter.

“Existem muitos estudos que mostram que a distância facilita a descontextualização e tira a empatia”, afirmou ao Nexo Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, um centro de pesquisa em direito e tecnologia. “Com a internet, é a primeira vez que isso acontece em massa.”

Com o aumento da polarização política, exacerbou-se a intensidade de postagens agressivas e odiosas. Um estudo de 2016 analisou quase 400 mil menções no Facebook, Twitter e Instagram a temas como racismo, posicionamento político e homofobia. Destas, 84% tinham abordagem negativa, reveladoras de preconceito e discriminação.

Na eleição de 2018, a ONG SaferNet constatou que o número de denúncias de discurso de ódio durante a campanha eleitoral de 2018 havia dobrado em relação ao período eleitoral de 2014, de 14.653 para 39.316 ocorrências.

Para Brito, na lógica da polarização, trata-se de “apagar todos os pontos de consenso” em relação ao outro que se encontra no pólo político oposto. Foi assim que a morte de uma criança, um evento que sensibiliza a maior parte das pessoas, gerou reações agressivas e ataques.

A reação aos haters tem se tornado cada vez mais comum nas redes sociais. Muitos têm exposto quem faz comentários ofensivos. No caso da morte do neto de Lula, uma internauta fez o seguinte comentário no Facebook: “Quantas crianças esse tra$te matou ao roubar o povo? Aqui se faz...”.

A mulher se apresentava como funcionária da empresa de cosméticos Natura. Internautas passaram, então, a marcar a empresa, exigindo providências.

À noite, a página oficial da Natura publicou uma nota em que lamentava a morte do neto de Lula, se dizia apartidária e informava aos internautas que a mulher em questão estava desligada da empresa desde 2015.

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