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Como o ex-advogado de Trump tenta incriminá-lo

Em depoimento à comissão de investigação do Congresso americano, Michael Cohen fala dos bastidores de negociações ilegais com russos

     

    Michael Cohen, advogado de Donald Trump por mais de dez anos, depôs nesta quarta-feira (27) na comissão do Congresso americano que investiga possível conluio entre o hoje presidente dos EUA e agentes russos ao longo da campanha eleitoral de 2016.

    O depoimento de Cohen trouxe aos congressistas, à Justiça e à imprensa informações inéditas e potencialmente comprometedoras sobre os bastidores da disputa vencida por Trump contra sua rival democrata, Hillary Clinton.

    Politicamente, o ponto central dessa investigação consiste em determinar se Trump se aliou a agentes russos, ligados ao governo Vladimir Putin, para obter e vazar informações comprometedoras sobre sua rival durante a disputa eleitoral.

    Atos assim, se confirmados, podem configurar uma série de crimes e alimentar uma eventual pressão democrata por um processo de impeachment do presidente americano.

    O Partido Democrata, de Hillary, conquistou a maioria dos assentos na Câmara na eleição de meio de mandato, em novembro de 2018, o que aumentou a pressão sobre o mandato de Trump no Congresso.

    Além disso, o trabalho do procurador especial do Departamento de Justiça, Robert Mueller, responsável pela apuração do caso, vem resultando na condenação de colaboradores importantes da campanha de Trump, o que aperta o cerco judicial ao redor do presidente, cada vez mais.

    “Trump sabia e dirigiu as negociações em Moscou durante a campanha e mentiu sobre isso”

    Michael Cohen

    ex-advogado de Donald Trump, em depoimento à Comissão de Supervisão e Reforma da Câmara dos Deputados dos EUA, no dia 27 de fevereiro de 2019

    Os pontos fortes do testemunho

    Os detalhes do relato de Cohen começaram a emergir ao longo desta quarta-feira (26). Antes mesmo de começar a falar, ele distribuiu um documento de 20 páginas no qual adiantou parte do testemunho que daria logo em seguida no Congresso.

    Nesse documento, Cohen chamou Trump de “racista”, “trapaceiro” e “fraude”. Ele também disse que o presidente dos EUA sabia de inúmeras violações às regras de financiamento de campanha e encorajou ele, Cohen, como seu advogado, a ocultar e distorcer essas informações que poderiam vir a incriminar o presidente.

    Resumo das informações

    Roger Stone

    Segundo Cohen, Trump sabia que seu conselheiro político Roger Stone estava em contato com o fundador do Wikileaks, Julian Assange, para ter acesso a e-mails vazados do Comitê Nacional Democrata, de Hillary Clinton. O Wikileaks, organização dedicada a tornar públicos documentos e informações confidenciais de empresas e governos, teria conseguido esses e-mails por meio de vazamentos no governo russo. A campanha de 2016 acabou vencida por Trump. Stone foi condenado à prisão no dia 25 de janeiro de 2019 por ter mentido em depoimento ao Congresso e por ter obstruído o trabalho de investigação a respeito da suspeita de conluio entre Trump e o governo russo. Ele continua livre, no entanto, graças a um acordo com a Justiça. Uma condição desse acordo é não dar entrevistas sobre o caso. Mas Stone falou nesta quarta-feira (27) a um site americano, dizendo que “o testemunho de Cohen é inteiramente falso”.

    Stormy Daniels

    Trump assinou cheques que, segundo Cohen, foram usados para comprar o silêncio da ex-atriz pornô Stephanie Clifford, conhecida como Stormy Daniels. Ela diz ter mantido relações com Trump, que teria pagado a ela US$ 130 mil em depósito bancário, além de valores adicionais não especificados e divididos em pelo menos 11 cheques assinados em 2017. Esses pagamentos podem ter sido camuflados em gastos de campanha. A intenção era evitar que um escândalo conjugal de forte componente moral viesse à tona no meio da campanha republicana.

    Moscou

    Trump sabia, segundo Cohen, que funcionários ligados à sua campanha – além de familiares, incluindo os filhos de Trump, Donald Jr. e Ivanka, e o genro Jared Kushner – mantinham contato com agentes russos que ofereciam informações comprometedoras sobre a campanha de Hillary Clinton. Uma dessas conversas ocorreu em junho de 2016, quando empregados de Trump discutiam com autoridades russas a construção de uma Trump Tower em Moscou. O negócio imobiliário envolvendo a torre que leva o nome do presidente “rendeu centenas de milhões de dólares” a Trump, segundo Cohen.

    Racismo

    Trump aparece como protagonista, no relato de Cohen, de diversos casos de racismo. Num dos relatos, Cohen diz que estava com Trump num bairro pobre de Chicago, durante a campanha eleitoral de 2016, quando o então candidato disse a ele que apenas negros conseguem viver naquelas condições de pobreza. “Ele me disse que negros nunca votariam nele porque eram muito burros”, disse Cohen. Embora não tenha relação com o assunto do conluio russo em si, esse aspecto realçado por Cohen teve o poder de realçar aspectos negativos da personalidade de Trump.

    Os pontos fracos do testemunho

    Cohen é visto como alguém que possui informações valiosas, mas que é bem capaz de mentir para salvar a própria pele.

    Em dezembro de 2018, ele foi condenado a três anos de prisão por ter mentido em depoimentos e também ter escondido informações de interesse público ao falar, em outra oportunidade, ao Congresso. A pena começará a ser cumprida no dia 6 de maio de 2019.

    Vários deputados republicanos – colegas de partido de Trump, portanto – questionaram pontos do depoimento de Cohen, sugerindo repetidamente que o advogado já mostrou não ser confiável.

    Cohen, por sua vez, respondeu no depoimento desta quarta (27) com uma acusação potencialmente ainda mais grave: ele disse que foi orientado por Trump a ocultar informações dos investigadores no passado.

    A intenção de Cohen com esse depoimento é conseguir negociar com a Justiça a redução da própria pena, da mesma forma que delatores da Lava Jato fazem no Brasil. Além disso, analistas dizem que ele espera melhorar a própria biografia e manter-se como um interlocutor politicamente relevante em Washington, não como um criminoso obscuro.

    O que diz Trump

    Trump e seus apoiadores se aferram ao fato de Cohen já ter uma condenação à prisão por ter mentido ao Congresso. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, diz que o advogado “não é confiável”. No Twitter, Trump disse que Cohen “está mentindo para diminuir seu tempo de prisão”.

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