O sumiço do presidente da Argélia. E os protestos de rua

Desafiando proibição de 2001, manifestantes se unem contra 5º mandato de um governante que não aparece em público

     

    Milhares de argelinos saíram às ruas da capital, Argel, e de outras grandes cidades do país nesta sexta-feira (22) para protestar contra o presidente Abdelaziz Bouteflika. Os protestos continuaram com menor intensidade no sábado (23) e no domingo (24).

    As manifestações, em sua ampla maioria pacíficas, dominaram ruas e redes sociais de maneira aparentemente espontânea, sem que nenhum partido de oposição assumisse protagonismo.

    Esse foi um raro exemplo de movimentação política popular nos espaços públicos da Argélia. Manifestações como essa estão oficialmente proibidas pelo governo desde 2001.

     

    Quem é Abdelaziz Bouteflika

    O presidente Bouteflika, de 81 anos, governa a Argélia ininterruptamente desde 1999. Ele está em seu quarto mandato seguido e, no dia 10 de fevereiro, anunciou por meio de um comunicado escrito que pretende concorrer a um quinto mandato nas eleições marcadas para o dia 18 de abril.

    A questão é que, em 2013, Bouteflika sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e, desde então, quase não aparece em público, nem recebe mais líderes estrangeiros.

    Os argelinos insatisfeitos com o atual governo acreditam que Saïf Bouteflika, irmão do presidente, e Ahmed Ouyahia, atual primeiro-ministro, estejam manipulando o presidente, cuja saúde é frágil, nos bastidores.

    Nos protestos, o primeiro-ministro foi chamado de “ladrão” e o irmão do presidente, de “mascarado”. No comunicado em que anunciou que pretende disputar novo mandato, Bouteflika disse mover-se por uma “vontade inquebrantável de servir à pátria”, que o permite “transcender qualquer restrição de saúde”.

    O culto ao avatar

     

    Defensores do governo começaram então a realizar comícios de pré-campanha nos quais, na ausência física do candidato, eram colocados grandes retratos com o rosto de Bouteflika.

    Amir Akef, correspondente do jornal francês Le Monde em Argel, escreveu que “muitos argelinos consideravam o presidente um homem velho e doente” e esperavam que seus assessores e familiares “apenas o deixassem passar”.

    Porém, “essas cenas [de campanhas de adoração a imagens de Bouteflika] fizeram crescer a repulsa e a raiva” de muitos cidadãos. “As autoridades não se deram conta da indignação que foi tomando conta do país”, diz Akef.

    Vários outdoors com o rosto de Bouteflika em prefeituras e outras repartições públicas começaram então a ser arrancados e pisoteados. As imagens desses protestos isolados viralizaram nas redes sociais do país, dando início a um ciclo que culminou com as grandes manifestações desta sexta (22).

    O fantasma da anarquia

    O governo argelino não usou a força por ora para reprimir as manifestações. Mas o primeiro-ministro Ouyahia vem repetindo que essa onda de protestos pode levar o país à anarquia. Ele lembra do passado caótico da Argélia que, depois da independência da França, em 1962, viveu anos de instabilidade.

    Usuários de internet relatam interrupções no sistema e indisponibilidade de acesso a redes sociais em pelo menos cinco regiões importantes do país.

    No domingo (24), quando manifestantes tentaram repetir a mobilização de sexta (22), no centro de Argel, 40 pessoas foram detidas. A polícia chegou a lançar bombas de gás e os manifestantes atiraram pedras contra a tropa de choque.

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