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Qual o saldo político e humanitário do 23F na Venezuela

Oposição força a passagem de mantimentos pela fronteira, Maduro endurece, mantém a fidelidade dos militares e repele manifestantes

     

    Fiéis a Nicolás Maduro, policiais e militares barraram à força neste sábado (23) a entrada na Venezuela de toneladas de alimentos e de suprimentos médicos que a oposição, com apoio de um grupo de países estrangeiros liderados pelos EUA, pretendia fazer chegar ao país através das fronteiras com a Colômbia e com o Brasil.

    A maior ambição dessa jornada, batizada pela oposição venezuelana de 23F - referência à data em que ocorreu, 23 de fevereiro de 2019 - era fazer com que os militares venezuelanos se virassem contra Maduro, permitissem a entrada de suprimentos, jurassem fidelidade ao líder opositor Juan Guaidó e, com isso, precipitassem o fim do chamado “chavismo” - período iniciado por Hugo Chávez, em 1999, e personificado hoje na figura de seu herdeiro político, Maduro.

    A prometida “avalanche humanitária” acabou frustrada pelos militares na fronteira, que fizeram uso da força em confrontos que provocaram a morte de três pessoas em Santa Elena do Uairén, divisa com o Brasil, segundo o jornal Folha de S. Paulo. De acordo com o site de notícias venezuelano Efecto Cocuyo e o jornal americano Washington Post, houve quatro mortes ao longo do sábado. Elas se somam a duas outras ocorridas no dia anterior, em San Francisco de Yuruani, na divisa com o Brasil. O registro das mortes de sexta é contestado pelo governo e confirmado pela oposição.

    Mapa Venezuela
     

    Do que se trata a crise

    A dinâmica da crise política na Venezuela tem início em 1989, como explicado em detalhes neste vídeo do Nexo. Seu capítulo atual, no entanto, é mais recente. Ele teve início no dia 10 de janeiro de 2019, quando Maduro deu início a seu segundo mandato presidencial.

    A posse de Maduro foi imediatamente contestada pela oposição venezuelana, que controla a Assembleia Nacional, e por um grupo de países que, hoje, ronda os 50, além da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da União Europeia. O principal argumento desse bloco é o de que as eleições presidenciais vencidas por Maduro, em 20 de maio de 2018, foram fraudadas

    No dia seguinte à posse de Maduro, 11 de janeiro de 2019, Guaidó, deputado oposicionista que havia sido escolhido presidente da Assembleia Nacional cinco dias antes, foi proclamado presidente interino da Venezuela por seus pares, e reconhecido como tal por aproximadamente meia centena de países. O reconhecimento de Guaidó teve como base uma interpretação da Constituição venezuelana segundo a qual cabe ao presidente do Legislativo assumir o poder e convocar novas eleições caso a presidência do país esteja vaga por qualquer razão - incluindo razão alegada no caso da fraude eleitoral atribuída a Maduro.

    Todo esse cenário de disputa política na Venezuela ocorre em meio a uma crise econômica profunda, marcada por hiperinflação e pela queda no preço do petróleo, principal produto da economia venezuelana. A derrocada econômica veio acompanhada de uma crise humanitária, marcada pela escassez de alimentos e remédios. Mais de 3 milhões de venezuelanos fugiram do próprio país, sendo que 2,4 milhões estão em países da região, segundo dados das Nações Unidas do fim de 2018.  

    Os governistas culpam os embargos e sanções impostas sobretudo pelos EUA pela crise humanitária venezuelana. Mas a oposição diz que a má gestão e a corrupção dos anos Chávez e Maduro é que levaram a Venezuela à bancarrota.

    O papel da ajuda humanitária na disputa

    A população venezuelana sofre com a pobreza, a escassez de alimentos e de remédios. A penúria é atestada por médicos locais, funcionários de agências internacionais e pela imprensa venezuelana e estrangeira, com entrevistas, fotos e vídeos, há anos.

    Maduro reconhece a carência, mas diz que ela não é maior que a de outros países latino-americanos, e afirma que pode ser suprida com o fim das sanções e embargos impostos a seu governo. A oposição discorda. Para ela, a ditadura de Maduro está na raiz do desastre humanitário em curso e faz da própria população refém.

    Foi, portanto, em torno desse eixo do “desastre humanitário” e da “ajuda humanitária” que se deu a ofensiva política e militar empreendida no 23F pela oposição, municiada com suprimentos enviados principalmente pelos EUA, mas também por Brasil e Chile.

    O uso político e militar da ajuda humanitária no mundo é contestado por grandes agências do setor - como o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) e os MSF (Médicos Sem Fronteiras) - que defendem que toda operação desse tipo deve ser feita com base num tripé formado por independência, neutralidade e imparcialidade, o que não combina com o manejo político da assistência.

    O 23F chamado por Guaidó de “avalanche humanitária” foi também apelidado de “Dia D” - expressão bélica que se refere originalmente ao desembarque das tropas Aliadas na Normandia francesa, que levou à queda do nazismo e ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

     

    O saldo humanitário do 23F

    A ajuda humanitária foi estocada em três entrepostos principais. Do lado brasileiro, as cidades escolhidas foram Pacaraima, perto da fronteira com a Venezuela, e Boa Vista, capital do estado de Roraima. Do lado colombiano, o entreposto foi montado em Cúcuta.

    2.300 km

    É a extensão da linha de fronteira entre a Venezuela e a Colômbia

    2.200 km

    É a extensão da linha de fronteira entre a Venezuela e o Brasil, o que equivale à distância entre as cidades de Curitiba (PR) e Salvador (BA) 

    De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, que manteve dois repórteres na região, apenas duas caminhonetes buscaram a ajuda do lado brasileiro da fronteira no sábado (23). Ao regressar à Venezuela com os mantimentos, ambos veículos foram retidos na aduana venezuelana, sendo que um deles ainda teve o pneu furado na estrada durante a viagem.

    As fronteiras da Venezuela com a Colômbia e Brasil estavam fechadas por ordem de Maduro desde a véspera, sexta-feira (22).

    Do lado colombiano, era esperado que dez caminhões buscassem a ajuda na cidade de Cúcuta, segundo o jornal O Globo. No fim da tarde de sábado, dois dos caminhões que iam da Colômbia para a Venezuela pegaram fogo após terem furado um bloqueio montado pela Guarda Nacional Venezuelana leal a Maduro. Dezenas de pessoas correram para tirar a carga em meio à fumaça. Guaidó acusou os militares venezuelanos por incendiarem os veículos. O governo falou em armação. No fim do dia, uma rádio colombiana mostrou caminhões com ajuda humanitária voltando após terem sido barrados na fronteira.

    Alguns dos choques mais violentos entre manifestantes e forças de segurança da Venezuela ocorreram na cidade Ureña, na fronteira com a Colômbia. Manifestantes atiraram paus e pedras contra a polícia, que respondeu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

     

    Em Santa Elena do Uairén, na fronteira com o Brasil, ocorreram as mortes da jornada. De acordo com fontes médicas ouvidas pela imprensa, elas foram provocadas por disparos de armas de fogo. Em pronunciamento ao lado de Guaidó, o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) Luiz Almagro responsabilizou membros de milícias populares armadas por Maduro pelas mortes.

    Além das tensões na fronteira, também houve mobilização na capital, Caracas. Um grupo de opositores protestou diante da Base Aérea La Carlota para pedir a entrada da ajuda humanitária. Também na capital, milhares de apoiadores de Maduro participaram de manifestação. A mobilização foi semelhante à de sexta, quando a oposição organizou um festival de música em Cúcuta, na Colômbia, que rivalizou com um festival semelhante organizado pelo governo Maduro do lado venezuelano da fronteira.

    O saldo político da jornada

    No fim da jornada do 23F, governo e oposição cantavam vitória, reproduzindo o impasse e a queda de braço que caracteriza a política venezuelana há anos.

    Analistas viram na jornada a instalação de um ambiente de “insurreição nacional” contra Maduro, marcado até por deserções de militares venezuelanos. O Washington Post afirma que 60 membros das Forças Armadas procuraram asilo junto à oposição antichavista na Colômbia.

    Por outro lado, Maduro, que segue onde estava, chegou a postar vídeo no qual sorri e dança em palco durante festa popular com seus apoiadores, em tom triunfante.

    O enfrentamento político venezuelano transborda há muito tempo para os países vizinhos, e até para países distantes. China e Rússia, por exemplo, respaldam Maduro, embora com nuances. Os EUA, por sua vez, fala abertamente na possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela.

    Na América Latina, a pressão vem de dois clubes de países: a OEA, com sede em Washington, e o Grupo de Lima, que se reúne nesta segunda-feira (25) em Bogotá, capital da Colômbia, com a participação do vice-presidente americano, Mike Pence.

    O Grupo de Lima foi criado por 14 países da região para tratar especialmente da crise venezuelana. De todos esses países, o único que não reconhece Guaidó é o México. Cuba e Bolívia também apoiam Maduro, mas estes dois países não fazem parte do Grupo de Lima.

    Entre os que condenam Maduro e apoiam Guaidó, três chefes de Estado se fizeram representar na fronteira por seus respectivos presidentes no 23F: o Chile, com Sebastián Piñera, o Paraguai, com Mario Abdo Benítez, e a Colômbia, com Iván Duque, no papel de anfitrião - os três de direita.

    O Brasil enviou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que também participa da reunião do Grupo de Lima em Bogotá na segunda (25), ao lado do vice-presidente da República, Hamilton Mourão.

    A pressão regional sobre Maduro levou a Venezuela a romper relações diplomáticas com a Colômbia neste sábado (23). Maduro deu 24 horas para que o presidente Duque retirasse todo o pessoal diplomático da Venezuela.

    ESTAVA ERRADO: A primeiro versão deste texto afirmava que Santa Elena de Uairén fica na divisa com a Colômbia. Na verdade, fica próxima à fronteira brasileira. A informação foi corrigida em 24 de fevereiro de 2019 às 10h08.

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