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O que foi a ‘L.A. Rebellion’, movimento do cinema negro nos EUA

Geração de cineastas que ingressaram na Universidade da Califórnia nas décadas de 1970 e 1980 produziu conjunto de filmes seminal e ainda pouco conhecido

 

Em 1970, Elyseo Taylor, então único professor negro da escola de cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, encabeçou a implementação de um programa de “etnocomunicações”, que incentivou o ingresso de estudantes negros, indígenas, asiáticos e latinos - de acordo com as classificações étnicas dos Estados Unidos.

Da virada para a década de 1970 até o fim da década de 1980, esse programa impulsionou a produção de um conjunto de obras cinematográficas de afro-americanos que ficou conhecido como “L.A. Rebellion” (Rebelião em Los Angeles).

Apesar de sua relevância, por razões ligadas às estruturas de distribuição e ao racismo, a filmografia foi pouco vista nos Estados Unidos e no mundo. Em fevereiro de 2019, o Instituto Moreira Salles exibe, em São Paulo e no Rio de Janeiro, um recorte de 14 filmes do movimento.

 

“Durante muito tempo, esses filmes ficaram um tanto escondidos. A gente não ouvia falar deles, tirando alguns cineastas, como o Charles Burnett”, disse um dos curadores da mostra no IMS, o crítico Victor Guimarães, ao Nexo. Burnett é o nome mais conhecido do numeroso grupo “L.A. Rebellion” e foi laureado com um Oscar honorário só em 2018.

Rebelião contra quê?

Opondo-se aos códigos da indústria americana, cineastas como Haile Gerima, Burnett e Julie Dash buscavam a construção de um cinema feito a partir do entendimento da população negra americana sobre si própria, sem estigmas ou exotização.

“Eram filmes que, de maneiras diferentes, buscavam a emancipação do olhar”, disse ao Nexo Luís Fernando Moura, cocurador da mostra no IMS.

Apesar de serem muito diversos entre si, um dos traços que tinham em comum era a investigação do que seria o ponto de vista de um diretor ou diretora e de uma equipe de cinema afro-americana expresso em um filme.

Tinham também afinidades temáticas e formais: a ancestralidade, a ligação com a África, a relação com os movimentos negros e o discurso de emancipação da mulher negra; a relação forte com a música, principalmente do jazz, e com a literatura escrita por autores negros.

 

Tratando-se de filmes universitários, frequentemente realizados como trabalho de conclusão de curso ou tese, o fazer coletivo era a regra: muitos diretores trabalharam, em funções diversas, nos filmes uns dos outros, os nomes nos créditos dos filmes se embaralham e são quase sempre os mesmos.

Três filmes importantes da L.A. Rebellion

‘Bush Mama’ (1979), Haile Gerima

O filme foi o trabalho de conclusão de mestrado na UCLA de Haile Gerima, etíope que havia imigrado para Los Angeles em 1967.

Foto: Reprodução
Barbara O'Jones no papel de Dorothy em 'Bush Mama', de Haile Gerima (1972)
 

Arrojado por sua forma fragmentada, o filme acompanha o drama de Dorothy, mulher negra moradora do bairro periférico de Watts, em Los Angeles, que vive entre a precariedade do desemprego, a ausência do marido, que está na prisão, a violência do bairro e da polícia, e a ameaça da assistência social de retirar o benefício que ela recebe, a menos que concorde em abortar.

‘Matador de Ovelhas’ (1978), de Charles Burnett

Primeiro longa de Burnett, também foi apresentado como dissertação de mestrado do curso de cinema da Universidade da Califórnia em 1977.

Nascido em Watts, Burnett também faz do bairro a locação de seu filme: o lugar é retratado pelos olhos de Stan, um homem sensível e sonhador que sobrevive ao custo psíquico decorrente de seu trabalho em um abatedouro e às dificuldades financeiras, encontrando alento em momentos de beleza singela.

‘Filhas do Pó’ (1991), Juli Dash

Primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher afro-americana a ser lançado no circuito comercial do cinema americano, o longa de ficção de estreia de Dash se passa no ano de 1902 e mostra as comunidades  ilhas marítimas da Carolina do Sul e Geórgia, chamadas de Gullah, que preservaram suas raízes africanas mesmo com a migração forçada para a América.

A história de três gerações de mulheres de uma família é contada por um bebê dentro do ventre de sua mãe. A obra foi uma inspiração fundamental para o álbum visual “Lemonade”, lançado em 2016 por Beyoncé.

Restauração

Em 2011, a UCLA lançou uma trilogia de DVDs com filmes da L.A. Rebellion que a universidade vinha restaurando e catalogando em seu arquivo. Ao todo, 73 filmes de realizadores afro-americanos foram identificados, mas estima-se que mais de cem tenham sido produzidos.

A partir desse trabalho de localização e reabilitação das cópias, até então dispersas, os filmes voltaram a circular timidamente, primeiro em uma “turnê” em cidades e universidades americanas e, em seguida, em festivais estrangeiros: em 2015, foram exibidos em Londres, em 2017 em Paris, e, no mesmo ano, alguns foram apresentados no Brasil, durante o festival Janela Internacional de Cinema do Recife.

“A partir desse trabalho [de restauração], pode-se dizer que há uma redescoberta – e uma descoberta, antes de tudo – em muitos níveis: no nível acadêmico, da indústria de cinema, dos festivais, globalmente. Dizem recorrentemente que são filmes que deveriam estar nos currículos básicos de escolas de cinema, que as pessoas deveriam conhecer e discutir esses filmes desde cedo na sua formação”, disse o curador Luís Fernando Moura, em entrevista ao Nexo.

Uma geração atual de cineastas negros bem-sucedidos em Hollywood, entre eles Ava DuVernay, Dee Rees, Barry Jenkins e Jordan Peele, têm apontado filmes de cineastas da L.A. Rebellion como influências decisivas de sua produção.

Aproximações com o cinema negro brasileiro contemporâneo

Segundo os curadores, há um paralelo histórico que pode ser feito entre a geração da L.A. Rebellion e o momento atual do cinema negro no Brasil, e há também uma ressonância direta dos filmes de alguns dos diretores do movimento sobre realizadores brasileiros.

“Estamos vivendo um aumento muito grande de produção de cinema por jovens negros nos últimos anos. É um processo semelhante ao da UCLA, porque também tem uma ligação muito forte com a inclusão na universidade. Esse repertório [da L.A. Rebellion] só existe por conta disso e, no Brasil, a formação de jovens negros em cursos de cinema aumentou exponencialmente a produção de curtas-metragens [por realizadores negros], e de longas que estão começando a surgir”, disse o crítico e curador da mostra Victor Guimarães ao Nexo.

Segundo Guimarães e Moura, alguns realizadores brasileiros contemporâneos citam o diretor Charles Burnett como referência fundamental para seus filmes. É o caso de André Novais Oliveira, Gabriel Martins e David Aynan, que citam explicitamente o cineasta da L.A. Rebellion entre suas inspirações.

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