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Os protocolos da Presidência e o estilo de Bolsonaro

Presidente publica fotos em cenas domésticas e em reuniões vestindo roupas informais. O ‘Nexo’ ouviu três professores sobre a imagem pública e a simbologia do cargo

    Pouco antes de assumir o cargo de presidente da República, Jair Bolsonaro apareceu em fotos e vídeos em cenas domésticas: fazendo um churrasco, preparando café, lavando e estendendo roupa, cochilando no sofá, comendo uma manga, entre outras.

    As imagens eram publicadas pelo próprio Bolsonaro em suas redes ou divulgadas por sua assessoria e aliados próximos.

    Em geral, em cenas assim Bolsonaro aparecia com roupas informais. É uma imagem incomum para um militar que teve sete mandatos consecutivos como deputado federal e se elegeu presidente da República, cargo máximo do país e envolto em formalidades.

    Fotos do tipo não cessaram após ele tomar posse, em 1º de janeiro de 2019. Já como presidente, as imagens no exercício do cargo são diversas, por exemplo:

    • encontro com o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), na qual o presidente está usando chinelo
    • reunião com ministros e outros assessores sobre a reforma da Previdência, na qual veste uma camisa do Palmeiras, calça de moletom e chinelo

    O presidente chegou a republicar em seu perfil no Instagram a notícia da revista Veja que dizia que a camisa do Palmeiras usada por ele é falsificada, reforçando a ideia de que não haveria problema em se vestir desse jeito durante o exercício da Presidência.

    As vestimentas de Bolsonaro em alguns eventos formais não são a única novidade que ele traz no modo de um presidente brasileiro lidar com a sua imagem pública. A forma como usa as redes sociais não tem paralelo entre seus antecessores, o que tem sido uma marca da forma de se comunicar até o momento.

    Desde a campanha eleitoral ele priorizou os perfis no Facebook, Instagram, YouTube e Twitter como canal de comunicação com a população. Após ser eleito, Bolsonaro anunciou o nome de cada um dos 22 ministros via Twitter, no decorrer das negociações para fechar o time. A rede social passou a ser a primeira fonte de divulgação sobre sua equipe, projetos e críticas.

    O Nexo conversou com três professores de áreas distintas sobre os protolocos da instituição da Presidência e a imagem pública de um presidente da República, pelo modo como se comunica e até como se veste no exercício do cargo.

    A simbologia da Presidência

    A instituição da Presidência da República segue uma série de leis, decretos e regras sobre como se organiza em cargos e divisões de tarefas. Entre essas atribuições estão a agenda do presidente, quem o assessora no dia a dia com correspondências, eventos e roupas.

    “A Presidência da República ganhou muita força com Getúlio Vargas, quando ele chega ao poder nos anos 1930 e começa um processo de organizar o staff presidencial. É nesse momento que se cria o Gabinete Civil, atual Casa Civil, e outras regras. No Brasil, a Presidência é a instituição com maior peso político. Nem sempre foi assim, antes de Vargas, na Primeira República, estados e governadores tinham mais importância”

    Camila Romero

    professora de ciência política da UFG (Universidade Federal de Goiás), que estuda o Poder Executivo e a Presidência, ao Nexo

    No Brasil, o presidente reúne os cargos de chefe de Estado e chefe de governo. Ou seja, ele é o representante do Estado brasileiro e também lidera a administração, políticas públicas e propõe projetos ao Legislativo.

    A Presidência também faz uso dos símbolos nacionais, estipulados por uma lei de 1971: bandeira, brasão de armas, hino e selo nacional.

    Um decreto presidencial de 1972 é a principal referência sobre como devem ser feitas as cerimônias públicas (com ou sem o presidente) e a “ordem geral de precedência”, ou seja, quais autoridades públicas têm prioridade e destaque nas solenidades. O decreto também detalha visitas do presidente a cidades do Brasil ou do exterior, a posse presidencial, desfiles, entre outros.

    Segundo o decreto, quem determina o traje dos eventos é o chefe do cerimonial, mas o presidente é consultado. Até o momento, no exercício do cargo Bolsonaro não usou vestes informais em cerimônias públicas oficiais, mas sim em reuniões políticas com sua equipe e aliados.

    Além da legislação, também existem regras não escritas sobre o exercício da Presidência, com base em hábitos históricos. Cada presidente tem liberdade para estabelecer uma marca própria no cargo, na forma de se comunicar, se vestir e se relacionar com outros políticos.

    Como Bolsonaro tem se vestido

    Antes de se colocar como pré-candidato presidencial, Bolsonaro era deputado federal. No período em que teve mandato do Congresso, as fotos que divulgava mostravam roupas e ambientes formais, o que contrasta com a imagem recente do presidente.

    “Na área de comunicação política, nós entendemos que tudo comunica. A forma de uma pessoa pública se vestir, aonde ela vai, com quem se relaciona, as cores dos cenários, fotos oficiais, tudo isso possui um significado”

    Luciana Panke

    professora de comunicação política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), ao Nexo

    Segundo a professora Luciana Panke, Bolsonaro publica imagens em cenas informais como estratégia de se aproximar da população. Seria a figura de um homem simples e comum, que privilegia o trabalho e não o que veste ou os produtos que consome.

    Primeiro na campanha, depois no cargo de presidente. “A construção da imagem de simplicidade e proximidade com o povo visa gerar mais adesão ainda de quem o apoiou nas eleições”, afirmou Panke.

    “No passado, outros presidentes, como Jânio Quadros [1961], também procuraram fazer do seu modo de vestir e falar uma forma de fazer política a partir de uma tentativa permanente de identificação com o público”

    Fernando Oliveira Paulino

    professor e diretor da Faculdade de Comunicação da UnB (Universidade de Brasília), ao Nexo

    Para o professor Fernando Oliveira Paulino, o fato de Bolsonaro usar, no exercício do cargo, roupas que exibem marcas não condiz com o posto de presidente e pode colidir com o princípio de que autoridades públicas não devem demonstrar apreço ou desapreço quando estão em serviço.

    Como Bolsonaro tem se comunicado

    Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador no Rio de Janeiro, foi o principal nome da comunicação durante a campanha de Bolsonaro em 2018, priorizando a linguagem para redes sociais. Com o pai no governo, não tem cargo oficial, mas continua influente nessa e em outras áreas.

    No Twitter, o presidente faz anúncios mais formais, publica críticas a adversários, utiliza emojis e retuíta sites simpáticos ao governo ou mesmo perfis que simulam grandes veículos jornalísticos. É comum que Bolsonaro republique mensagens dos filhos Carlos, Eduardo (deputado federal pelo PSL-SP) e Flávio (senador pelo PSL-RJ).

    Por um lado, é uma forma de se comunicar diretamente com a população, aproximando a política dos brasileiros. Por outro, o presidente tem um espaço de grande visibilidade para expor suas opiniões sem questionamentos.

    “Priorizar as redes é uma estratégia coerente para quem quer se mostrar como homem simples e do povo, mas por outro lado continua desqualificando a imprensa e veiculando informações parciais que a maioria da população não teria como checar se é verdade ou não”

    Luciana Panke

    professora de comunicação política da UFPR

    O uso intenso de redes sociais é inédito entre presidentes brasileiros, mas não é fenômeno exclusivo de Bolsonaro. O maior exemplo é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que usa diariamente o Twitter como forma de fazer pronunciamentos, defender suas políticas e criticar adversários. Em diversas ocasiões Bolsonaro já elogiou Trump e disse que o americano é uma inspiração.

    Rafael Correa, presidente do Equador entre 2007 e 2017 e político de esquerda, também era um governante que apostava nas redes, chegava a publicar decretos presidenciais no Twitter. Outros políticos estrangeiros e brasileiros têm dado mais espaço à comunicação via redes sociais como forma de mobilizar seus apoiadores.

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