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Por que a margarina está em declínio. E como foi sua ascensão

Substituta industrializada superou o consumo de manteiga ao longo do século 20, mas tendência tem se invertido nos últimos anos

 

Nos últimos anos, as vendas de margarina apresentaram queda significativa em várias partes do mundo. Fabricada a partir de óleos vegetais, ela se popularizou no século 20 como substituta da manteiga, tida então como vilã nutricional.

Em contrapartida, o consumo de manteiga cresceu, impulsionado por novos estudos que questionam o prejuízo das gorduras saturadas para a saúde, indicando que incluir a manteiga como parte de uma dieta balanceada não é um problema.

A margarina, por outro lado, passou a ser acusada de ter um efeito ainda pior para a saúde por possuir gordura trans.

A mudança impactou os negócios da multinacional Unilever, maior produtora de margarina do mundo. No fim de 2017, a empresa anunciou a venda de sua divisão de margarinas, na tentativa de elevar o retorno aos acionistas.

No Brasil, a Unilever introduziu a marca Becel na década de 1970. Segundo um relatório da multinacional, a marca foi, a princípio, mal recebida pelos consumidores no país, mas conseguiu se consolidar na década de 1980.

A invenção da margarina

Em 1813, o químico francês Michel Eugène Chevreul descobriu um novo ácido graxo, composto orgânico proveniente de óleos e gorduras vegetais e animais. Batizou-o de “ácido margárico”, em referência ao termo grego “margarites”, que significa perolado, como os depósitos de aspecto brilhante que encontrou na substância.

Do ácido margárico à margarina, mais meio século transcorreu: chamada de “oleomargarina”, sua precursora foi produzida pela primeira vez em 1869 por Hippolyte Mège-Mouriès, em resposta a um desafio lançado pelo imperador da França Napoleão 3º para incentivar a criação de um substituto, mais barato, para a manteiga, destinado ao consumo das classes baixas e das Forças Armadas do país.

A invenção de Mège-Mouriès, no entanto, não decolou. Em 1871, o químico levou sua criação a uma empresa holandesa chamada Jurgens, que aprimorou a receita.

Uma das alterações essenciais para que a margarina “pegasse” no mercado foi o tingimento de amarelo, no intuito de torná-la mais parecida com a manteiga. Sem o corante, a margarina é branca.

A Jurgens se tornou uma companhia mundialmente renomada e mais tarde fez parte da Unilever.

Além de ser mais barata que manteiga, a margarina tinha outros atrativos para o consumidor do final do século 19: a manteiga dessa época era com frequência um produto duvidoso e perecível, e podia adquirir um paladar rançoso e azedo, ou muito salgado, além de conter sujeira ou mofo, segundo explicou Elaine Khosrova, autora do livro “Butter: A Rich History”, ao site The Takeout em 2018.

Era, além disso, um produto sazonal, dependente do período em que as vacas dão leite. Tudo isso realçava a conveniência e confiança em um produto industrial como a margarina. 

Em países como Estados Unidos e Canadá, houve forte reação, entre o fim do século 19 e meados do século 20, da indústria de laticínios à chegada da margarina ao mercado.

Leis “anti-margarina” foram aprovadas na tentativa de proteger o setor, impondo, por exemplo, taxas sobre o produto e exigindo que se comunicasse ao consumidor que o produto não era manteiga.

No estado americano de New Hampshire, no fim do século 19, uma outra lei determinou que o produto fosse obrigatoriamente tingido de rosa, característica que repelia os compradores.

Mesmo assim, o consumo de margarina cresceu exponencialmente ao longo do século 20, enquanto o de manteiga caía. Nos Estados Unidos, o consumo de margarina atingiu em 1976 o pico de 5,5 kg por pessoa por ano. 

À medida em que se fortaleciam, os fabricantes de margarina também passaram a investir na promoção de uma imagem saudável de seu produto, que ganhou endosso de médicos e nutricionistas.

Apontar a gordura saturada como culpada pelas doenças cardíacas também interessava à indústria do açúcar, que chegou a pagar cientistas na década de 1960 para que as gorduras fossem indicadas como principal vilã da dieta.

No Brasil, a Unilever criou, no fim da década de 1970, o “Centro de Informações Becel”, que produziu impressos com informações sobre alimentação equilibrada e fatores de risco para o coração, e participou de eventos relacionados à cardiologia, reforçando a imagem do produto entre a classe médica.

Faz bem ou faz mal?

Tanto a manteiga quanto a margarina possuem gorduras que aumentam o LDL, chamado de “mau colesterol”. É ele que entope as artérias, diminuindo a quantidade de sangue que chega ao coração, podendo causar infarto e derrame cerebral.

As gorduras vegetais da margarina seriam, em tese, menos ruins. Mas o produto passa por um processo químico para ficar sólida, a hidrogenação, responsável por gerar as gorduras trans. Elas aumentam o LDL e também diminuem o HDL, o “colesterol bom”.

Após a divulgação dos estudos mais positivos sobre a relação e o consumo de manteiga, doenças cardíacas e mortalidade, que repercutiram enormemente na imprensa e entre os consumidores, a escola de saúde pública da Universidade de Harvard publicou, em 2015 e 2016, notícias que desmentem a volta triunfal da manteiga.

Para o autor de um dos estudos citados pelas reportagens, a manteiga não deve ser demonizada e tampouco deve ser alardeada como um caminho para a boa saúde. Evitar as gorduras saturadas ainda é o melhor para saúde do coração.

O azeite extravirgem, o óleo de soja ou de canola são alternativas melhores para o preparo de alimentos, por conterem gorduras insaturadas.

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