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Como a lama da Samarco afetou Abrolhos, segundo este estudo

Pesquisadores do Rio de Janeiro mostram que houve um pico de metais pesados em corais da região após a chegada dos rejeitos ao oceano no fim de 2015, pela foz do rio Doce

 

Um estudo acadêmico mostra que o Arquipélago de Abrolhos, na Bahia, foi afetado pela lama da barragem da Samarco que se rompeu em Mariana (MG), em 5 de novembro de 2015. O trabalho, conduzido por pesquisadores da Uerj (Universidade do Estado do Rio Janeiro), aponta que houve um aumento de dez vezes na concentração de metais como zinco, cobre e arsênio em dois tipos de corais coletados no parque nacional marinho da região, no início de 2018, mais de dois anos após a tragédia.

Para o doutor em biociências nucleares Heitor Evangelista da Silva, que é professor da Uerj e chefe do departamento de biofísica e biometria da universidade, é “notório” que a lama tenha afetado os corais. Segundo ele, que é responsável por coordenar as pesquisas, as espécies coletadas são capazes de indicar o histórico da coluna d’água (faixa de água do fundo do mar à superfície) na região, e os aumentos na concentração de metais pesados ao longo do tempo coincidem com o avanço da lama pelo oceano.

Com a ruptura da barragem de Fundão, cerca de 32 bilhões de litros de rejeitos (material descartado no processo de mineração) foram lançados no meio ambiente. Grande parte ficou depositada nos primeiros 100 km do percurso da lama, até uma usina hidrelétrica. Cerca de 5,5 bilhões de litros chegaram ao rio Doce. No curso d’água que atravessa dois Estados, o material percorreu 537 km até desembocar, 16 dias após a tragédia, no oceano Atlântico, pelo litoral do Espírito Santo.

Mais importante recife de corais do Hemisfério Sul (os recifes são responsáveis por mais de um terço da biodiversidade marinha conhecida), Abrolhos fica a cerca de 250 quilômetros do ponto onde a lama desembocou no oceano. Em janeiro de 2016, o Ibama chegou a cogitar que a lama teria chegado ao arquipélago, mas recuou da afirmação poucos dias depois.

A própria Samarco afirmou, na mesma época, que a probabilidade do parque marinho ser atingido pelos rejeitos era “muito baixa”. A mineradora disse ter analisado a água na região para chegar à conclusão.

O pesquisador da Uerj diz, porém, que ainda não se sabe quais os efeitos da lama na vida marinha do arquipélago. “Só com monitoramento para poder responder a isso.”

O Nexo conversou com Heitor Evangelista da Silva para saber como chegou a tais resultados.

Quando vocês começaram as pesquisas com os corais de Abrolhos?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Nós já trabalhamos em Abrolhos desde 2005. Nosso trabalho não é um trabalho de ecologia de corais, mas a gente usa o esqueleto do coral para datá-lo, para estabelecer uma cronologia de crescimento. Cada pedaço de crescimento do coral representa um ano diferente. Existem técnicas para determinar exatamente isso. O crescimento depende da espécie, pode ser de milímetros ou de centímetros, mas normalmente são frações de centímetros. É como nas árvores, em que cada um dos anéis representa um ano. No coral, é praticamente a mesma coisa, só que debaixo d’água. Não são anéis, são como cascas de cebola que crescem à medida que o ano passa.

O trabalho era de analisar o crescimento de corais?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Sim, nós fazíamos esse trabalho. Se você faz análises geoquímicas e isotópicas nesses esqueletos, chega-se a uma monte de informações sobre a coluna d’água. Tudo o que acontece na coluna d’água em termos de poluição, de mudança de temperatura da água do mar, tudo isso é registrado no coral.

É possível analisar a coluna d’água antes de a lama ter chegado?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA A gente analisa o coral porque ele diz o que estava acontecendo na água. Os corais com os quais a gente trabalhava tinham mais de cem anos. Então a gente estudava para trás no tempo. Quando aconteceu esse episódio, vi que os corais poderiam ser um excelente indicador para sabermos se a poluição chegou lá ou não. A gente fez campanhas de coleta de duas colônias diferentes, de espécies diferentes, de lugares diferentes, e fizemos as datações e as análises químicas em laboratórios diferentes, um na Uerj e outro na PUC-RJ. O resultado foi o mesmo.

E qual foi o resultado?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA No período imediatamente após a chegada da lama na foz do Rio Doce, os teores de zinco e de cobre, entre outros elementos, aumentaram quase que simultaneamente. A gente consegue saber como era a incorporação desses metais no passado. O zinco e o cobre são elementos da crosta terrestre. São sempre encontrados, mas não nessas concentrações.

Qual foi o aumento?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Aumentou dez vezes.

Vocês analisaram a lama da Samarco para saber se esses metais vieram dela?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Nós não, mas existem vários trabalhos que analisaram. Esses trabalhos já existem na literatura. O que acontece é que o minério da Samarco tem três elementos principais: o silício, o ferro e o manganês. São os principais componentes das jazidas de ferro. Está provado também, por vários trabalhos, que quando a lama saiu, ela varreu o fundo do rio Doce, e todo aquele passivo ambiental que estava no rio foi junto. Na foz do rio Doce, foi encontrado muito zinco, arsênio, em concentrações acima do usual.

Em 2016, discutiu-se que a lama em Abrolhos poderia ser de uma dragagem próxima, feita por outra empresa. Não poderia ser dela?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Por que a gente crê que o material seja da Samarco? Simplesmente por causa da questão temporal do evento. No coral, existe uma cronologia, e isso é uma vantagem enorme. As coisas foram casando. Os elementos que a gente encontrou nos corais foram os mesmos que a gente encontrou na coluna d’água por causa da Samarco. Mas é provável que na dragagem podem ter outros elementos que sejam indicadores apenas dela. Seria um alvo de estudos para nós também.

Qual impacto desse aumento de metais nos corais?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Essa pergunta a gente não sabe responder ainda. Muitos dos corais que existem na costa brasileira são endêmicos no Brasil. Muitas espécies ocorrem aqui, apenas. A gente não tem uma massa de trabalho que possa identificar isso. Existem trabalhos em corais de outros países, onde ocorreram outras degradações ambientais, como no Caribe, na Indonésia. Em alguns corais, onde houve grande aumento da concentração de cobre, isso afetou o crescimento dos corais. Tem aspectos conhecidos de outras literaturas. No Brasil, não. De repente, os corais podem ser capazes de resolver o problema e não ter nada.

Não é possível saber se houve alteração na vida marinha, então?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA No trabalho, a gente não mediu só metais pesados. Em algumas das amostras, após a chegada da lama da Samarco, houve um aumento da bioerosão. Ela é formada pela proliferação de outros organismos pequenos que acabam interagindo com o coral. Quando se olha o coral, ele fica mais furadinho. Quando se tira um raio-X, é possível ver uma série de alterações na calcificação dele. Não sei se é uma coisa que vai ter um impacto ruim ou não. Isso tem que ser monitorado. Só com monitoramento para poder responder a isso.

Quando vocês coletaram as amostras?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Em fevereiro de 2018. A base desse coral coletado é de 2013. Escolhi coletar o que pudesse me dar o antes, o durante e o depois, para poder comparar. É notório que a lama afetou os corais. A concentração de metais foi dez vezes maior no começo de 2016. Não é normal isso, definitivamente. Esses elementos, principalmente o zinco e o cobre, aumentaram durante a chegada da pluma (água que veio do rio com a lama). Outros elementos tiveram comportamento diferente. O arsênio, por exemplo, foi aumentando sistematicamente.

Como a lama chegou até Abrolhos?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Na maior parte do ano, existe a influência da Corrente do Brasil, que é uma corrente litorânea, vem do Norte em direção ao Sul. Só que, quando chega o inverno, as frentes frias invertem esse processo. Elas empurram para o Norte. Existem muitas correntes durante o inverno, e as frentes frias são acompanhadas de ventos mais fortes.

Vocês também analisaram imagens de satélite?

HEITOR EVANGELISTA DA SILVA Nosso trabalho começou com imagens de satélites, mas essas imagens não respondem tudo. Elas são muito boas para ver a foz do rio Doce. A região de Caravelas, onde fica Abrolhos, já é uma região que tem muita sedimentação. Não estou dizendo que seja impossível acompanhar por satélite, mas é muito difícil, porque as plumas se juntam. Eu só acreditaria se fosse uma análise geoquímica.

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