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Qual a viabilidade dos democratas socialistas nos EUA

Nova geração de eleitores e de políticos americanos tenta deslocar o eixo ideológico à esquerda

     

    Bernie Sanders anunciou nesta terça-feira (19) que será candidato à Presidência dos EUA novamente, em 2020. O senador de 77 anos é atualmente o político mais à esquerda do mainstream político americano. Mas ele não está sozinho.

    Se em 2016 Sanders foi o único a se assumir socialista, em 2020 ele enfrentará concorrência. Dentro do Partido Democrata, há um grupo crescente de jovens políticos defendendo ideias que, no espectro ideológico americano, são consideradas de esquerda.

    Na eleição presidencial passada, em 2016, quando Sanders tentou se lançar pré-candidato à Presidência pelo Partido Democrata, ele acabou derrotado nas primárias por sua então rival de partido, Hillary Clinton.

    O desfecho é conhecido: Hillary acabou surpreendentemente derrotada pelo republicano Donald Trump em seguida, enquanto Sanders se desfiliou do partido e fez do Senado, onde ocupa uma cadeira pelo pequeno estado de Vermont, um palanque permanente para suas ideias.

    Em 2020, Sanders pode tanto tentar disputar a Presidência em sua condição atual, como candidato independente, quanto pode também voltar a se inscrever no Partido Democrata para disputar as prévias. A vantagem da filiação é o uso da máquina partidária. A desvantagem é a disputa interna, que pode barrá-lo mais uma vez antes da disputa final.

    O jornal americano The New York Times define Sanders como um “populista econômico” que pretende mudar o eixo da política e da economia americana dando “passos de gigante” na direção de uma esquerda à qual os EUA não estão habituados.

    Na raia ao lado, o jornal identifica uma porção de possíveis pré-candidatos democratas de perfil mais moderado e realista, todos capazes de rivalizar com um Sanders que, na disputa de 2020, estará com quase 80 anos de idade e desprovido do efeito novidade que embalou sua pré-candidatura em 2016.

    Os outros nomes no páreo

     

    Ainda não é oficial. Mas analistas que acompanham a política americana já enumeram um grupo de pelo menos oito políticos democratas que despontam como possíveis pré-candidatos.

    São eles: Amy Klobuchar (Minnesota), Cory Booker (Nova Jersey), Elizabeth Warren (Massachusetts), Kamala Harris (Califórnia), Kirsten Gillibrand (Nova York), Sharrod Brown (Ohio), Cory Booker (Nova Jersey), Tulsi Gabbard (Havaí) e Beto O’Rourke (Texas).

    Desse batalhão, o texano Beto O’Rourke desponta por seu talento como orador e pela conexão que consegue gerar com as mais diferentes audiências, seja ao vivo ou nos discursos, que, transmitidos pelas redes sociais, conseguem milhares de visualizações. 

     

    Outro nome forte – talvez o mais forte hoje no Partido Democrata – seria o de Alexandria Ocasio-Cortez. Porém, a deputada eleita por Nova York tem apenas 29 anos, e a Constituição dos EUA diz que é preciso ter pelo menos 35 para comandar a Casa Branca.

    O ‘socialismo’ americano

    Alexandria Ocasio-Cortez chama a si mesma de “democrata socialista”. Quando se trata de encaixar políticos em caixas ideológicas estanques, às vezes é difícil usar etiquetas.

    No caso americano, porém, há pelo menos uma linha vermelha claramente traçada: o sistema de saúde. Em linhas gerais, republicanos não querem um sistema público e nacional de saúde. Democratas, querem. 

    O presidente democrata Barack Obama conseguiu erguer o esqueleto de um sistema público de saúde nos EUA, batizado de “Obamacare”. Mas seu sucessor, o republicano Donald Trump, fez a iniciativa regredir.

    O debate não envolve apenas a questão da saúde em si. Ela também mexe com o nível de autonomia dos estados americanos. Historicamente, desde a formação do país, os estados preferem prezar ao máximo por sua própria autonomia em relação ao poder central, evitando delegar a Washington iniciativas de abrangência nacional, como acontece no sistema de saúde proposto por Obama.

    “Se nossos amigos escandinavos podem dar saúde de qualidade para todo o povo, como um direito, e por muito menos do que nós gastamos, digam-me então por que nós não podemos fazer o mesmo”

    Bernie Sanders

    pré-candidato à Presidência dos EUA em 2020 e atualmente senador independente pelo estado de Vermont, em entrevista à CBS, no dia 19 de fevereiro

    O socialismo jovem da moda

    A revista britânica The Economist – frequentemente referida como uma bíblia do liberalismo econômico – apresentou na capa de sua edição do dia 14 de fevereiro de 2019 o que chamou de onda dos “millennials socialistas”.

    Millennials é o nome dado à geração dos que nasceram após 2000. Para a revista, essa geração trouxe o debate sobre o socialismo de volta “porque conseguiu produzir uma crítica incisiva a respeito do que está dando errado nas sociedades ocidentais”.

    Então, “30 anos depois, o socialismo voltou à moda”. A conta dos 30 anos toma por marco a queda do Muro de Berlim, que dividia fisicamente os blocos comunista, ou socialista, e capitalista, entre o fim da Segunda Guerra Mundial (1945) e o fim da Guerra Fria (1989).

    A Economist diz que esses “millennials socialistas” estão focados na proteção do meio ambiente, na redução da desigualdade e no atendimento às necessidades básicas.

    O lado negativo desse setor está, segundo a publicação, na seguinte constatação: “seu pessimismo com o mundo moderno vai longe demais”. Esses jovens “são ingênuos sobre orçamentos, burocracias e negócios”.

    Ainda assim, o grupo de esquerda vai levando vantagem sobre uma direita que, diz a Economist, está perdida em “chauvinismo e nostalgia” e precisa se reinventar.

    Há espaço para crescer

    Nas eleições presidenciais americanas de 2016, mais jovens votaram por Bernie Sanders do que por Hillary Clinton e Donald Trump somados, diz a Economist.

    A conclusão é de que essa nova esquerda americana tem espaço para crescer, dada a óbvia constatação de que os eleitores mais velhos e mais conservadores morrerão antes.

    51%

    dos americanos com idades entre 18 e 29 anos têm uma visão positiva sobre o socialismo, segundo o Gallup

    O fenômeno se repete em países como a França, onde quase um terço do eleitorado com menos de 24 anos votou pelo candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa – a despeito da vitória do centrista Emmanuel Macron e do melhor desempenho da extrema direita na história da França no pós-Guerra, com a candidata Marine Le Pen chegando ao segundo turno pela primeira vez. 

    A menção aos casos da França e dos EUA é especialmente interessante pelo seguinte: o sistema de saúde pública que a esquerda americana apenas ousa ambicionar como um futuro possível não é nada mais nada menos do que o centrista Macron, um ex-banqueiro odiado pela esquerda francesa, defende como um piso mínimo de bem estar social, acima das ponderações ideológicas de sempre.

    O caso mostra como palavras como “esquerda” e “socialismo” têm valores diferentes de um lado e outro do Atlântico.

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