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O cientista que ajudou a popularizar a ideia de mudanças climáticas

Um dos ‘gigantes’ da sua área, o americano Wallace Smith Broecker alertou para o aquecimento do planeta em 1975. Ele morreu aos 87 anos

 

Atualmente, o aquecimento global e as mudanças climáticas são fenômenos reconhecidos pela quase totalidade da comunidade científica mundial. O cientista americano Wallace Smith Broecker foi um dos pioneiros na disseminação desses conceitos. Ele morreu em 18 de fevereiro de 2019, aos 87 anos.

Broecker era professor no departamento de Ciências da Terra e do Meio Ambiente na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ele publicou mais de 450 artigos científicos e 10 livros.

Em seu artigo “Climatic Change: Are We on the Brink of a Pronounced Global Warming?” (Mudanças climáticas: estamos à beira de um aquecimento global pronunciado?, em tradução livre), publicado em 1975, o geofísico alertou para um incremento da temperatura mundial ocasionado pela maior presença de dióxido de carbono na atmosfera.

Embora o uso do termo “global warming” (“aquecimento global”) para descrever esse processo já tivesse sido usado antes, o artigo de Broecker foi importante para expandir seu alcance.

“É difícil de imaginar uma Universidade de Columbia sem a visão intelectual [de Broecker], seu dom para destilar o importante do meramente interessante, e sua continuada paixão pela ciência, seus colegas e seu planeta. Um dos últimos gigantes do nosso campo não caminha mais entre nós”, afirmou Sean Solomon, diretor do Observatório da Terra Lamont-Doherty, em Columbia, onde Broecker trabalhava, em um e-mail enviado a colegas, de acordo com o site NPR.

Nos anos 1980, o cientista, que era um pesquisador do ramo conhecido como paleoclimatologia, o estudo de mudanças climáticas na história da Terra, teorizou sobre a existência de um grande sistema que movimenta constantemente as águas oceânicas, uma “esteira transportadora”

“Se há um grande guru entre o grupo relativamente pequeno de cientistas que tentam entender o comportamento presente e futuro do clima da Terra, estudando como ela se comportou no passado, tem de ser Wallace S. Broecker, de 66 anos: meio rabugento ríspido e iconoclasta de papo reto, meio diabinho e brincalhão — mas inteiramente intelecto”, descreveu o New York Times em 1998.

Correntes e efeitos

“...O crescimento exponencial do conteúdo de dióxido de carbono atmosférico tenderá a se tornar um fator significativo e, no início do próximo século, terá levado a temperatura planetária média para além dos limites vividos nos últimos mil anos”, escreveu Broecker no resumo do artigo de 1975.

No mesmo trabalho ele diz que, “dos efeitos climáticos induzidos pelo homem, só [o ligado ao] CO2 pode ter sua relevância global demonstrada conclusivamente”. Citando medições feitas ao longo de 15 anos por outros cientistas, Broecker afirmou que “estamos na posição de fazer estimativas bastante acuradas” da quantidade de dióxido de carbono na atmosfera terrestre. O artigo aponta para a queima de combustíveis fósseis, como carvão e gasolina, como importante agente nas emissões de CO2.

“Ele não foi enganado pelo esfriamento da década de 1970”, declarou o cientista Michael Oppenheimer, da Universidade de Princeton. Oppenheimer se referia a um fenômeno ocorrido no planeta, entre as décadas de 1940 e 1970, quando emissões de aerossóis pelas indústrias compensaram o dióxido de carbono e a temperatura global registrou declínio. “Ele viu claramente o aquecimento inédito que se desenvolvia e deixou sua visão bem clara, mesmo quando tão poucos estavam dispostos a escutar.”

No trabalho de 1975, Broecker alertou que mudanças climáticas poderiam ter consequências imprevisíveis.

Nos anos 1980, o cientista, que era um pesquisador do ramo conhecido como paleoclimatologia, o estudo de mudanças e padrões climátivos vigentes no passado, teorizou sobre a existência de um grande sistema que movimenta constantemente as águas oceânicas, uma “esteira transportadora” (“conveyor belt”, em inglês.).

O mecanismo é influência fundamental no clima e em suas variações. Em sua pesquisa, Broecker sugeriu que eras do gelo de períodos passados foram provocadas por interrupções na circulação das correntes. Segundo ele, um ligeiro acréscimo na temperatura global poderia impedir o movimento da água no Atlântico Norte, comprometendo toda a corrente e causando uma diminuição drástica nas temperaturas da Europa.

Broecker acreditava em traduzir a ciência para o grande público. Seu livro de 2010, “The Great Ocean Conveyor Discovering the Trigger for Abrupt Climate Change” (A grande correia transportadora oceânica: descobrindo o gatilho para mudanças climáticas abruptas, em tradução livre) apresenta suas ideias em linguagem acessível.

‘Vivemos em um sistema climático que pode pular abruptamente de um estado para outro”, explicou Broecker à Associated Press, em 1997. Ao continuar emitindo gases poluentes, “estamos brincando com uma fera brava — um sistema climático que já demonstrou ser muito sensível”.

Pequeno glossário

Mudanças climáticas

Termo usado como sinônimo mais abrangente de aquecimento global. A formulação mais genérica daria conta de todo tipo de reação do clima à poluição atmosférica, incluindo ocorrências de queda de temperatura alterações em regimes de chuvas,  frequências de tempestades e circulação de correntes marinhas.

Aquecimento global

As emissões de gases responsáveis pelo chamado efeito estufa contribuem para aumentar a temperatura média do planeta. O dióxido de carbono é o principal gás estufa, liberado por uma série de atividades humanas. A principal fonte desse tipo de gás é a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural.

Efeito estufa

Em 1895, o químico sueco Svante Arrhenius inaugurou a pesquisa sobre os efeitos dos gases estufa no clima, ao calcular o efeito do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas na temperatura terrestre. As substâncias gasosas absorvem parte dos raios infravermelhos, impedindo que o calor se disperse pelo espaço. Em 1901, o meteorologista sueco Nils Gustaf Ekholm usou pela primeira vez o termo “estufa” para caracterizar esse fenômeno.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmou que Wallace Broecker morreu em 19 de fevereiro de 2019. A correção foi feita às 18h48 de 20/02/19.

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