Ir direto ao conteúdo

Por que há poucas drogas contra doenças negligenciadas

Entre 2012 e 2018, apenas 3,1% dos novos medicamentos que chegaram ao mercado eram voltados para doenças como tuberculose, malária e leishmaniose

 

Um artigo publicado em fevereiro de 2019 na revista científica britânica The Lancet, assinado por dois pesquisadores brasileiros, alerta para a escassez de aprovação de novos remédios para doenças negligenciadas, como malária, tuberculose, dengue e leishmaniose.

Apenas oito (3,1%) dos 256 novos fármacos que chegaram ao mercado, entre 2012 e 2018, tinham como alvo essas doenças, apesar de seu vasto alcance entre a população, dizem os autores do estudo Leonardo Ferreira e Adriano Andricopulo, da Universidade de São Paulo.

11%

é a contribuição das chamadas doenças negligenciadas para a incidência de enfermidades no mundo, segundo o artigo

Nesses anos, todas as “novas entidades químicas” — como são chamadas as drogas que representam inovações farmacêuticas — foram direcionadas para malária e tuberculose. Outras doenças negligenciadas não tiveram a mesma atenção da indústria de remédios.

Esta é a primeira vez em que um estudo traz o levantamento dos remédios voltados a doenças negligenciadas aprovados na última década. Na conclusão do trabalho, os pesquisadores afirmam que, apesar de a pesquisa farmacêutica ter avançado ao longo dos anos, ainda persiste uma “lacuna profunda” entre o ônus dessas doenças e a evolução no tratamento.

O que são doenças negligenciadas

As doenças negligenciadas são um grupo diverso de condições infecciosas prevalentes em áreas tropicais e subtropicais, como África, Ásia e Américas. Afetam milhões de pessoas, especialmente entre populações mais pobres e de zonas remotas, rurais ou de conflito.

500 mil

é a quantidade mínima de óbitos que doenças negligenciadas podem causar anualmente, diz a Fiocruz; o número pode chegar a um milhão

A OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou 20 doenças entre as negligenciadas. Agrupadas, elas estão entre as principais causas de morbidez — marcada por enfraquecimento e esgotamento físico ou mental — e mortalidade no mundo. São algumas das doenças:

  • malária
  • tuberculose
  • dengue
  • raiva
  • leishmaniose
  • Aids
  • doença de Chagas
  • doença do sono
  • esquistossomose
  • chikungunya

Medidas de prevenção e tratamento para algumas dessas doenças são conhecidos e, em alguns casos, de baixo custo, segundo a Fiocruz. No entanto, eles não estão disponíveis universalmente em áreas mais pobres, e há pouco investimento no controle das enfermidades.

Por seus danos à saúde pública, as doenças negligenciadas estão no foco das metas para 2030 da OMS, que pretende erradicar epidemias como tuberculose e malária. Outros compromissos, como a Declaração de Londres sobre Doenças Tropicais Negligenciadas, de 2012, estabeleceram planos de ação para controlar essas doenças até 2020.

A produção de remédios, segundo o estudo

A escassez de medicamentos para doenças negligenciadas, observadas entre 2012 e 2018 no estudo de Ferreira e Andricopulo, segue uma tendência histórica de falta de inovações na área. O artigo comparou os números de agora com dados desde 1975.

3,6%

dos novos remédios aprovados entre 2012 e 2018 foram direcionados para doenças negligenciadas, diz o estudo de Ferreira e Andricopulo

4,3%

dos novos remédios aprovados entre 2000 e 2011 foram direcionados para doenças negligenciadas, segundo levantamentos anteriores

1,1%

dos novos remédios aprovados entre 1975 e 1999 foram direcionados para doenças negligenciadas, segundo levantamentos anteriores

A falta de inovação é ainda maior quando se distinguem as novas entidades químicas — inovações farmacêuticas de fato — de novos remédios que, na verdade, são reaproveitados de outros medicamentos, novas formulações de produtos que já existiam ou produtos biológicos.

No período mais recente, segundo Ferreira e Andricopulo, apenas dois dos oitos remédios aprovados para doenças negligenciadas — menos de 1% do total de medicamentos — eram inovações do tipo. Os seis restantes são drogas que, de algum modo, já existiam antes.

O que diz o estudo

Inovações farmacêuticas

Entre 2012 e 2018, foram aprovadas duas novas entidades químicas voltadas a doenças negligenciadas: a bedaquilina, para tuberculose, e a tafenoquina, para malária. São as primeiras alternativas de tratamento para as duas doenças em 40 e em 60 anos, respectivamente.

Outros medicamentos

Além da bedaquilina e tafenoquina, outros seis produtos (remédios reaproveitados, novas formulações e produtos biológicos) foram aprovados para doenças negligenciadas entre 2012 e 2018. São exemplos a miltefosina, para leishmaniose, moxidectina, para oncocercose, e benzonidazol, para doença de Chagas. Alguns deles, por exemplo, foram reaproveitados de antigos tratamentos para câncer.

Expansão de inovações

A lista de novas entidades químicas deve se expandir em 2019 com a liberação do fexinidazol, droga oral mais avançada para tratar a doença do sono (tripanossomíase africana humana). Será a primeira vez em que a doença poderá ser curada apenas com o uso de pílulas. Nenhuma droga havia sido desenvolvida para a doença desde 1990. O fexinidazol também está sendo testado para a doença de Chagas.

Não é por acaso que as únicas inovações farmacêuticas aprovadas nos últimos anos sejam voltadas a malária e tuberculose, dizem os pesquisadores. Junto com a Aids, essas doenças costumam receber mais recursos para tratamento e pesquisa que outras negligenciadas.

US$ 3,6 bi

foi o investimento em pesquisa farmacêutica para doenças negligenciadas em 2017, segundo estudo da Policy Cures Research

70%

ou US$ 2,5 bilhões do investimento para essas doenças em 2017, foram direcionados a pesquisas sobre malária, tuberculose e Aids

O levantamento dos novos remédios foi realizado como parte de estudos no Instituto de Física de São Carlos da USP. Andricopulo e Ferreira integram uma rede de pesquisa, em parceria com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a agência internacional da área, a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDI).

Por que há tão poucos medicamentos

O Nexo perguntou a Adriano Andricopulo, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP e um dos autores do estudo, por que há tão poucos novos remédios para tratamento de doenças negligenciadas, e o que pode ser feito para mudar o quadro de escassez da produção.

Quais são os motivos para termos aprovado tão poucos medicamentos para o tratamento de doenças negligenciadas?

Adriano Andricopulo As inovações farmacêuticas estão relacionadas com o investimento em estudos nessas áreas. Um exemplo é a diferença entre a quantidade de medicamentos voltados para HIV, malária e tuberculose — que recebem a maior parte dos recursos — e para outras doenças, que são muito escassos, quando não inexistentes.

E por que há pouco investimento? Isso tem relação com o tipo de pessoa atingida pelas doenças negligenciadas — muitas vezes, são pessoas mais pobres, que não podem pagar pelos remédios. Algumas décadas atrás, as empresas farmacêuticas simplesmente não investiam valores quaisquer nessas doenças, porque eles não resultavam em retorno financeiro. Isso vem mudando nos últimos anos por causa de acordos com empresas com governos e organizações internacionais, que têm dado incentivos a empresas que investem em desenvolvimento [de remédios] para doenças negligenciadas. Mas ainda é algo relevante.

Quais são os efeitos dessa carência de remédios entre as populações atingidas por doenças negligenciadas?

Adriano Andricopulo Temos casos significativos de mortalidade e morbidade. Ou seja, tanto pessoas vão a óbito quanto, por outro lado, vivem por vários anos — mas, por causa da doença, não conseguem trabalhar, produzir ou trazer recursos financeiros para suas famílias.

Além disso, como essas doenças acometem mais as regiões pobres tropicais, vemos uma série de dificuldades [comuns nessas áreas] em relação a saneamento básico, alimentação e acesso a bens públicos básicos que podem agravar ainda mais o quadro entre a maioria dos pacientes. Há um impacto socioeconômico indireto muito grande dessas doenças, agravado pela falta de alternativas para o tratamento.

No Brasil, destaco o problema da doença de Chagas, descoberta por um cientista brasileiro [Carlos Chagas] em 1909. De lá para cá, não descobrimos nenhuma alternativa terapêutica para a doença. Os medicamentos que estão no mercado são da década de 1970 e pouco contribuíram para o tratamento das pessoas. Ela é endêmica, um grande problema no Brasil e em países como Argentina e México.

O que pode ser feito para reverter o problema?

Adriano Andricopulo Somente a ciência vai poder nos salvar. Devemos fazer mais pesquisas em desenvolvimento [de remédios], especialmente no Brasil, que tem um papel-chave, uma liderança importante nessa área. Precisamos de mais projetos globais, com a participação de organizações internacionais. Os investimentos devem ser cada vez maiores no setor público, que tem contribuído com a maior fração [das pesquisas de hoje], mas também no setor privado, que nos últimos anos tem investido valores que eu considero muito baixos.

No Brasil, temos uma parceria com a DNDI (Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas), principal agência internacional que atua na área, para tratamento de doença de Chagas e leishmaniose. Além disso, temos um projeto de desenvolvimento [de medicamentos] na América Latina com base aqui no Brasil, na USP em São Carlos e no Instituto de Química da Unicamp. É uma rede que envolve mais de 50 parceiros no mundo inteiro, entre empresas farmacêuticas e laboratórios acadêmicos. Esse talvez seja um bom exemplo de como integrar especialidades da indústria internacional com os nossos laboratórios.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!