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Como fica o discurso ético de Bolsonaro na crise dos laranjas

Ministro caiu em meio a desentendimentos internos diante de repasse de dinheiro público a candidaturas suspeitas. Presidente usou combate à corrupção como bandeira de campanha

    O presidente Jair Bolsonaro demitiu oficialmente Gustavo Bebianno do cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência na terça-feira (19), quando a exoneração foi publicada no Diário Oficial da União. A saída havia sido confirmada no dia anterior. O substituto, general da reserva Floriano Peixoto, já participou de reunião ministerial.

    O governo deu duas justificativas oficiais para a demissão. Primeiro, o porta-voz presidencial, general Rêgo Barros, disse que se tratou de uma decisão de “foro íntimo” do presidente. Depois, em um vídeo, Bolsonaro falou vagamente sobre o caso, citando “diferentes pontos de vistas sobre questões relevantes” e agradeceu o trabalho do agora ex-ministro.

    O contexto da queda foi a crise das candidaturas laranjas, com suspeitas de irregularidades no uso do fundo eleitoral pelo PSL de Bolsonaro na campanha de 2018. Mas dessa crise também emergiram desavenças entre um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, com Bebianno, assim como acusações de quebra de confiança feitas contra o agora ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

    Na terça-feira (19), a revista Veja divulgou áudios de WhatsApp trocados por Bolsonaro e Bebianno em meio à crise, num episódio com potencial para prolongá-la. As gravações confrontam declarações públicas do presidente. E mostram sua preocupação de herdar a “batata quente” das suspeitas. Uma comissão do Senado convidou o agora ex-ministro para falar aos parlamentares e esclarecer as suspeitas em relação aos laranjas — como está sem cargo oficial, ele não é obrigado a comparecer.

    A situação de outros ministros

    A crise dos laranjas envolve outro ministro, o titular do Turismo, que acabou poupado até aqui. Aliados de Bolsonaro, aliás, associam a queda de Bebianno menos às suspeitas das candidaturas de fachada e mais a uma quebra de confiança no então ministro da Secretaria-Geral, no que se refere à relação com a imprensa.

    O discurso da moralidade pública, portanto, permanece na agenda tanto do presidente quanto dos aliados, mesmo diante de uma série de procedimentos dos quais os ministros do atual governo são alvo. O Nexo lista abaixo alguns casos a que representantes do primeiro escalão respondem.

    Em andamento

    Marcelo Álvaro Antônio

    Ministro do Turismo, foi presidente do PSL de Minas Gerais durante as eleições de 2018. Segundo reportagens da Folha de S.Paulo, Álvaro Antônio bancou esquema de laranjas no estado e fez com que parte do dinheiro público dessas candidaturas fosse repassado a empresas ligadas a seus assessores ou parentes, supostamente para serviços de campanha. O ministro diz ser inocente. O Ministério Público está investigando o caso.

    Onyx Lorenzoni

    Ministro da Casa Civil, admitiu em 2017 ter recebido, na eleição de 2014, R$ 100 mil de caixa dois do frigorífico JBS. Pediu desculpas, disse que na época desconhecia a origem do dinheiro e iria regularizar sua situação frente às autoridades. Atualmente ele está sendo investigado. Onyx se elegeu cinco vezes seguidas deputado federal.

    Luiz Henrique Mandetta

    Ministro da Saúde, é investigado pelo Ministério Público por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois por um projeto de informatização quando foi secretário municipal de Saúde em Campo Grande. Ele teria favorecido empresas no projeto e o sistema não foi implementado. Mandetta diz ser inocente e que o serviço não foi adiante por decisão posterior da prefeitura.

    Ricardo Salles

    Ministro do Meio Ambiente, em dezembro de 2018 foi condenado na área civil, por improbidade administrativa de um projeto quando era secretário estadual do Meio Ambiente em São Paulo. Salles, que diz não ter cometido nenhuma irregularidade, está recorrendo.

    A crise de representatividade

    Bolsonaro chamou Sergio Moro, então juiz federal responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância, em Curitiba, para comandar o Ministério da Justiça. Figura com alta popularidade, Moro aceitou o convite, reforçando o discurso de Bolsonaro a favor da ética.

    Após vencer uma eleição em que os partidos tradicionais perderam espaço em razão das denúncias de corrupção reveladas pela Lava Jato, Bolsonaro disse que nenhum ministro do seu governo manteria o cargo se fosse condenado por corrupção.

    Depois, Moro foi mais longe: afirmou que ministros que eventualmente fossem acusados de corrupção deveriam ser demitidos caso a denúncia fosse “consistente”, sem detalhar o que indica a consistência.

    Até o momento, existem apenas investigações contra os ministros e uma condenação por improbidade, que é na área civil, não criminal.

    A imagem do governo após 50 dias

    Agora, especificamente sobre o caso de Bebianno e do ministro Álvaro Antônio, Moro disse nesta terça-feira (19) que seria prematuro atribuir responsabilidades sobre o caso de laranjas e é necessário esperar investigações.

    O Nexo ouviu duas cientistas políticas a respeito do discurso anticorrupção do presidente e a demissão de Bebianno. São elas:

    • Nara Pavão, professora de ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)
    • Luciana Veiga, professora de ciência política da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

    Como a demissão de Bebianno impacta o discurso contra a corrupção usado por Bolsonaro?

    Nara Pavão O caso dos laranjas é um problema para Bolsonaro, porque ele está tentando evitar um choque da imagem dele no governo com a imagem que ele transmitiu na campanha, de um político que traria um grupo moralizador. Quando ele montou o time de ministros, teve um discurso de que finalmente estava limpando o governo. Nos primeiros 50 dias, cai um ministro. As suspeitas [das candidaturas laranjas] são graves porque seria um sinal de que a corrupção continua e porque contrasta com a plataforma eleitoral, que ainda está muito próxima de Bolsonaro. Ele surfa na onda de popularidade da eleição e tenta manter esse clima de campanha. Bolsonaro tem uma relação muito peculiar com o PSL. O que ele está tentando fazer e vai continuar fazendo é se desvincular do partido, deixar como problemas de um partido que ele utilizou na campanha, mas não deveria comprometer a imagem dele. É uma particularidade em relação aos antecessores: Temer completamente associado ao MDB, Dilma e Lula completamente associados ao PT. A estratégia do presidente é separar o PSL, incluindo Bebianno, dele e do governo.

    Luciana Veiga A demissão reforça o discurso da campanha dele, mas gera uma dúvida. É a dúvida de por que outros ministros que já tiveram suspeitas ou problemas com a Justiça não foram demitidos. Bebianno saiu após a questão de candidaturas laranjas, mas os outros não saíram por outros casos. Fica no ar um critério aleatório, de que houve um problema pessoal, mas isso não pode ser motivo para demitir um ministro de Estado. Demitir Bebianno endossa o discurso de campanha, deixar de demitir os outros mostra falta de coerência. Talvez isso é que tenha deixado Bebianno mais incomodado, uma situação de “dois pesos e duas medidas”.

    Esse discurso ético, reforçado pela ida de Moro ao Ministério da Justiça, é central para o sucesso do governo?

    Nara Pavão Do ponto de vista do sucesso de popularidade, é sim importante. Significa manter viva uma promessa de campanha. Acho que quem o ajuda muito é Sergio Moro, por ser visto como uma pessoa apta a dizer o que é ou não corrupção, o que é ou não errado, e está ali num papel diferente do que tinha como juiz, mas significa muito para a opinião pública. Na semana passada, eu conduzi seis grupos focais, todos com o tema da percepção da corrupção. É muito claro que as pessoas, sobretudo quem votou nele, estão conectadas com a ideia de que é um governo diferente, que vai fazer algo diferente, que não vai exterminar com a corrupção, porém está mais comprometido com essa causa do que outros estiveram. Vários estudos mostram que os efeitos de acusações de corrupção tendem a diminuir pela afeição que se tem a um partido ou a um líder. Bolsonaro é uma grande liderança, mas por ser um fenômeno mais recente até agora não tem tanta margem como Lula, por exemplo, que quando estava no governo se blindou como nenhum político de acusações de corrupção e ainda tem por volta de 40% da população que o apoia hoje.

    Luciana Veiga A ação a favor da lisura e contra a corrupção é central para o governo Bolsonaro. Afinal de contas, é um dos pilares da justificativa do voto que ele recebeu em 2018, junto com o antipetismo, melhora da economia e o discurso conservador nos costumes. São os aspectos principais que levaram a população a votar em Bolsonaro, portanto ele precisa desses aspectos para manter coerência entre campanha e mandato. Se for diferenciar o que é dito na campanha e o que é dito no governo, aí existe um problema. Porque Bolsonaro ganhou a eleição dizendo que não faria essa diferenciação. Se no governo ele romper com o que disse na campanha, é justamente uma prática que ele combateu e atribuiu a políticos comuns.

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