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Como Maduro tenta explicar ao mundo a crise na Venezuela

Em entrevistas e discursos na ONU, membros do governo venezuelano denunciam o que chamam de golpe da oposição e intervenção estrangeira liderada pelos EUA

     

    Desde que assumiu seu segundo mandato, no dia 10 de janeiro de 2019, Nicolás Maduro é classificado como presidente “ilegítimo” da Venezuela por um número cada vez maior de países e de organismos internacionais.

    Mapa da Venezuela

    Do ponto de vista desses países e órgãos multilaterais, Maduro é o pivô da crise que envolve o solapamentos das instituições, além de uma política econômica equivocada e o desastre humanitário que se seguiu.

    A saída, diz esse setor, é afastar Maduro do poder o quanto antes e convocar novas eleições, sob o comando do opositor Juan Guaidó, atual presidente da Assembleia Nacional, de maioria opositora.

    Guaidó foi empossado presidente interino da Venezuela a partir de uma interpretação da Constituição do país feita pela oposição. Isso num ato simbólico, já que a administração federal continua de fato com Maduro, que dispõe ainda do apoio das Forças Armadas.

    O principal argumento para proclamar o atual presidente “ilegítimo” é o de que a eleição vencida por ele em 20 de maio de 2018 foi fraudada. Parte da oposição boicotou a eleição. Outra parte foi impedida pela Justiça Eleitoral de participar.

    Pelo menos um juíz da Suprema Corte abandonou o país acusando o governo Maduro de interferir no Judiciário e fraudar a disputa.

    Essa pressão interna e internacional pela saída de Maduro inclui até mesmo a ideia de um golpe militar na Venezuela. O presidente dos EUA, Donald Trump, já tratou publicamente dessa possibilidade, sem meias palavras. Mas, por enquanto, os americanos apostam numa estratégia de pressão política que tem no envio de ajuda humanitária – taxativamente recusada por Maduro – seu capítulo mais recente.

    O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados estima que até o fim de 2019, de cada seis venezuelanos um terá deixado o país, por causa da crise. Isso daria um total de 5,3 milhões de migrantes. Maduro rebate. Ele diz que os migrantes venezuelanos “não passam de 800 mil” atualmente.

    Qual a versão do governo Maduro

    Maduro é pressionado pelas maiores potências do mundo, pela maioria dos países vizinhos e por diversos organismos internacionais. A cobertura da maior parte da imprensa mundial é crítica e desfavorável a ele.

    Mas o grupo político ligado a Maduro diz considerar tudo isso um erro. Na versão desse grupo, o que ocorre é o seguinte: o governo dos EUA repete na Venezuela uma estratégia conhecida na América Latina e no Caribe, de orquestrar intervenções para mudar governos percebidos como hostis a seus interesses, colocando no lugar governos dóceis a Washington.

    A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, e isso explica em boa medida o apetite dos americanos, na explicação de Maduro.

    Para mostrar suas versões dos fatos, o presidente venezuelano deu três entrevistas a influentes meios internacionais: no dia 12 de fevereiro ele falou à BBC, no dia 13 de fevereiro à Euronews e no dia 15 de fevereiro de 2019 à Associated Press.

    Nessas entrevistas, Maduro rebateu as acusações das quais é alvo. O chanceler venezuelano Jorge Arreaza, no dia 27 de janeiro de 2019, também fez um longo discurso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova York. O Nexo resumiu os principais argumentos governistas nos tópicos abaixo.

    A oposição venezuelana

     

    Maduro se considera presidente legítimo e acusa a oposição de tentar mais um golpe, como o ocorrido em 2002 contra seu antecessor e padrinho político, Hugo Chávez, que morreu em 2013.

    “Nos últimos 18 meses, a Venezuela teve seis eleições para eleger seus 23 governadores, ganhamos 19, e ganhamos eleições em 307 dos 335 municípios”, disse Maduro.

    “Não houve um só questionamento legal interno perante o Conselho Nacional Eleitoral nem perante o Poder Judiciário”, completou, sem levar em conta a fuga para os EUA do ex-membro do Tribunal Supremo de Justiça Christian Tyrone Zerpa, em 6 de janeiro de 2019, que acusa Maduro justamente de fraudar o sistema eleitoral, e se diz ameaçado.

    O chanceler de Maduro, Arreaza disse sobre Guaidó o seguinte: “O cidadão não foi empossado por ninguém, por nenhuma instituição. Não houve cerimônia. Houve a autoproclamação de um deputado na frente de uma multidão, durante um dos muitos protestos pacíficos que têm ocorrido nos últimos anos na Venezuela”.

    Guaidó se autoproclamou presidente legítimo, mas também foi proclamado pela Assembleia Nacional – cuja legitimidade é questionada por Maduro –, e foi reconhecido como tal pela OEA (Organização dos Estados Americanos), por países da União Europeia e do Grupo de Lima, coletivo de países latino-americanos criados para lidar com a crise na Venezuela.

    “Eles [opositores] queriam um golpe militar, mas falharam. Estão tentando dar essa cartada, mas acabou”, disse Maduro, acrescentando: “O mandato que me deram é muito poderoso e tenho de cumpri-lo. Eu o jurei com minha própria vida”.

    EUA: bloqueios e ajuda

     

    Maduro diz que a crise econômica na Venezuela é culpa do bloqueio que os EUA e outros países impõem à movimentação financeira do atual governo no exterior e ao bloqueio de recursos da estatal PDVSA.

    As sanções contra membros da alta administração venezuelana tiveram início em março de 2015. No início, elas visavam apenas movimentações financeiras de membros da alta administração venezuelana. Em agosto  de 2017, os EUA deram um passo a mais e impediram também a emissão de títulos da dívida, o que impediu o governo venezuelano de se recapitalizar. Aos poucos essas sanções foram avançando, de maneira que, hoje, há ativos da PDVSA, a estatal petrolífera, congelados nos EUA.

    Os bloqueios são uma forma de pressão sobre membros do governo Maduro. Mas, de acordo com o presidente venezuelano, eles impedem também que o Estado provenha serviços básicos à própria população.

    “O governo Donald Trump sequestrou US$ 10 bilhões de contas bancárias e outros bilhões em ouro em Londres que são nossos, dinheiro com que iríamos comprar alimentos, remédios e insumos. Se querem ajudar a Venezuela, que liberem os recursos”, disse Maduro.

    No Conselho de Segurança, órgão mais poderoso da ONU, o chanceler Arreaza disse que a “Venezuela perdeu U$ 23 milhões em bloqueios de janeiro 2017 a dezembro de 2018”. Para ele, “os EUA não estão por trás do golpe de Estado. Eles estão liderando o golpe de Estado” contra Maduro.

    “A Venezuela não estaria enfrentando uma situação tão séria quanto essa se tivesse acesso a seus recursos”, acrescentou o chanceler.

    Para ambos, a oferta de ajuda humanitária americana é um “show”, cuja intenção é expor politicamente Maduro ao mundo, não ajudar os venezuelanos. “Se quiserem ajudar a Venezuela, liberem nossas contas, devolvam o ouro que nos foi roubado. Temos meios de ajudar a nós mesmos.”

    “Eles roubam nosso dinheiro e depois nos dizem: ‘aqui, toma essas migalhas’, fazendo disso um show global”, disse Maduro. “É um erro fazer política com ajuda humanitária. E é isso que a oposição está fazendo.”

    Não há sinal à vista para o impasse. Em tese, a Venezuela tem dois presidentes, Guaidó e Maduro. O que faz a balança pender para o lado de Maduro atualmente é o apoio das Forças Armadas, mas Guaidó promete anistiar os militares que debandarem para o lado da oposição.

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