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A torre da polícia no Rio. E as mortes de Manguinhos

Polícia Civil investiga se assassinatos em comunidade foram cometidos por snipers. Entidade de defesa de direitos humanos defende que apuração seja feita por órgão externo

     

    A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga uma possível ação de snipers (atiradores de elite) na morte de ao menos duas pessoas na comunidade de Manguinhos, zona norte da cidade. Suspeita-se de que os tiros tenham sido disparados de uma torre da própria polícia.

    Nesta segunda-feira (18), uma perícia foi realizada na Praça do Flamenguinho, numa área conhecida como Coreia, onde as mortes ocorreram em 25 e 29 de janeiro de 2019. Uma terceira pessoa foi baleada no local, no mesmo dia da segunda morte, com uma diferença de apenas duas horas entre um crime e outro.

    Testemunhas dizem que os tiros partiram da torre que fica a 200 metros da praça, de onde pode ser vista. Uma outra perícia já havia sido feita em 11 de fevereiro de 2019, na Cidade da Polícia, um complexo de delegacias especializadas que abriga a torre. Na construção funciona o Depósito de Evidências Criminais. Um laudo sobre os ataques deve ficar pronto em 30 dias.

    As mortes

    O uso da torre por atiradores tem sido denunciado ao menos desde 2018. Em 14 de fevereiro de 2019, o jornal Extra revelou que pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), entidade vizinha ao complexo, relataram a policiais civis e militares, durante uma reunião mensal do Conselho Comunitário de Segurança, em setembro de 2018, que pessoas estavam “sendo alvejadas por tiros vindos da Cidade da Polícia”.

    O alerta dos pesquisadores foi registrado na ata da reunião, o que comprova que a polícia estava ciente do caso desde o final de 2018. Mesmo assim, os tiros continuaram acontecendo.

    25 de janeiro de 2019

    Carlos Eduardo Santos Lontra, de 27 anos, funcionário havia mais de três anos de uma empresa de reciclagem de extintores de incêndio, voltava para casa de moto quando pegou um atalho pela região por causa da chuva. Foi morto com um tiro na barriga num cruzamento da praça, que tem vista para a torre.

    29 de janeiro de 2019

    Um ajudante de pedreiro de 22 anos, cuja identidade não foi divulgada por questões de segurança, foi baleado pelas costas na praça enquanto comprava uma água de coco para seu filho. A bala atravessou seu corpo, mas não atingiu nenhum órgão vital. À ONG Human Rights Watch, ele contou que foi atingido quando estava ao lado de um poste de luz, do lado de uma barraca de legumes.

    “Parece até que a gente é formiga e eles lá em cima estão fazendo tiro ao alvo”, afirmou a jornalistas, como registrou a BBC Brasil. “A qualquer momento a poeira vai baixar e eles vão dar tiro de novo”, disse ao jornal Folha de S.Paulo.

    Duas horas depois do primeiro ataque, Rômulo Oliveira da Silva, 37, que trabalhava como porteiro da Fiocruz, foi morto com um tiro no peito, enquanto passava de moto em frente à barraca de legumes. Ele levava o veículo ao borracheiro.

    Outras mortes

    Ao todo, cinco pessoas podem ter morrido desde setembro de 2018 pelos disparos, segundo depoimentos dados por testemunhas à Defensoria Pública. O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu uma investigação no dia 14 de fevereiro de 2019.

    O delegado Marcelo Carregosa, da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, negou que a torre possuísse seteiras (aberturas na parede que serviriam de apoio para as armas).

    “Existe um buraco na parede que não dá visão para o local dos ataques. Se há ângulo de algum local da torre para aquela localidade, isso quem vai afirmar é a perícia. Neste momento, afirmar que aconteceu ou não é achismo”, afirmou, à BBC Brasil.

    Tiros a partir da torre só seriam possíveis se saíssem do telhado, segundo peritos que estiveram no local. Eles investigam se o ângulo dos disparos coincide com o dos ferimentos das vítimas.

    Segundo a Human Rights Watch, o Ministério Público afirmou à ONG que seria “possível um franco-atirador deitado no telhado da torre atirar em pessoas na praça”, de acordo com a análise de especialistas.

    A Secretaria de Polícia Civil diz que “não autorizou nenhuma ação de snipers de dentro da Cidade da Polícia”.

    Investigação independente

    A Human Rights Watch cobrou uma investigação realizada por agentes externos. “Dada a possibilidade de que o assassino seja um policial civil atirando de uma instalação da Polícia Civil, a investigação não deveria ser liderada pela Polícia Civil, mas pelo Ministério Público do estado do Rio de Janeiro e pela Polícia Federal”, afirmou Daniel Wilkinson, diretor adjunto da divisão das Américas da ONG.

    Segundo a entidade, a pesquisa “Força Letal”, de 2009, realizada pela própria ONG, revela que a Polícia Civil não cumpre requisitos básicos ao investigar crimes cometidos por agentes da corporação.

    • Ela não visita os locais onde ocorreram os crimes. Em apenas 14 de 64 casos analisados isso ocorreu
    • Peritos não coletam, como exige a lei, sangue, pêlos, cabelos, fibras e outras provas nos locais do crime. Isso não ocorreu em 52 dos 64 casos estudados
    • A polícia não questiona adequadamente policiais e testemunhas. Os investigadores não colheram depoimentos de todos os policiais envolvidos em pelo menos 30 dos 64 casos de homicídios analisados

    “Nos 64 casos que documentamos, os policiais procuraram acobertar a natureza criminosa das mortes”, afirma a ONG.

    O delegado Marcelo Carregosa disse à BBC Brasil que as investigações estão sendo feitas de forma transparente e são acompanhadas pela Promotoria e pela Defensoria Pública, “justamente para evitar qualquer tipo de alegação de que estamos sendo parciais”.

    Witzel e os snipers

    O caso de Manguinhos se torna mais grave devido às declarações feitas pelo governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), na época das eleições de 2018. No final daquele ano, o então governador eleito defendeu em entrevista à Globonews que o estado treinasse atiradores de elite para “abater” criminosos que fossem vistos segurando fuzis. “Fuzil na mão? É ameaça. Ele vai usar o fuzil para atacar quem quer que seja na frente dele”, afirmou ao canal, em outubro de 2018.

    Ele defendeu a ação como “legítima defesa”. “Prefiro defender policiais no tribunal do que ir a funeral. O policial será defendido. Se condenado, nós vamos recorrer. Se a sentença for mantida, é um risco que a gente corre. O que me deixa desconfortável é ver bandido com fuzil na rua”, afirmou à Globonews.

    Ainda em outubro de 2018, o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a proposta de Witzel não tinha base legal. “A proposta precisa passar pelo crivo das leis, da legislação e da Justiça. Não podemos ter atividades que não sejam dentro das normas, das leis. E hoje ela (a proposta) não está. Precisa de uma modificação legislativa”, afirmou durante evento na presença do governador.

     

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