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A história do ensaio de João Cabral sobre a pintura de Miró

Publicado pela primeira vez em 1950 na Espanha e na França, texto de poeta brasileiro sobre pintor catalão ganhou sua primeira edição brasileira ilustrada, seu formato original, só no final de 2018

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Lançado no final de 2018 pela editora Verso Brasil, o ensaio “Joan Miró”, de João Cabral de Melo Neto, nunca havia sido publicado no Brasil em seu formato original, com três gravuras exclusivas do pintor, hoje raríssimo de se encontrar também em edição estrangeira.

Em 1947, o poeta pernambucano, que era também diplomata, chegou à Barcelona do pós-guerra para seu primeiro posto no exterior. Tinha 27 anos.

Autor dos já publicados “Pedra do Sono” e “Os Três Mal-Amados”, João Cabral enfrentava um impasse em sua poesia.

No período em que viveu na capital da Catalunha, ele se dedicou então a outras atividades: foi tradutor, editor e tipógrafo do selo O Livro Inconsútil, cujos livros eram feitos em uma prensa manual instalada em sua própria casa, e escreveu o ensaio sobre o pintor catalão, a quem havia sido apresentado no final de 1947.

Concluído em meados de 1949, o ensaio foi publicado na Espanha no ano seguinte, por uma editora chamada Edicions l’Oc.

A edição trazia as gravuras inéditas produzidas por Miró e contava com realização tipográfica de Enric Tormo, na qual Cabral também colaborou. Teve uma pequena tiragem, de 125 exemplares.

 

Uma edição francesa, publicada também em 1950, continha ainda uma série fotográfica que registra o processo de impressão das gravuras para o volume.

O jovem poeta e o pintor consagrado

Na época de seu encontro com João Cabral, Joan Miró (1893-1983) tinha 54 anos. Apenas alguns anos antes, em 1942, havia voltado a residir em Barcelona, sua cidade natal, após uma temporada na ilha espanhola de Maiorca.

Pintor, escultor e gravador, Miró “foi um criador de formas, figuras coloridas, imaginárias, que o identificam por um léxico próprio composto por manchas, pontos e linhas carregados de um intenso cromatismo que acompanha toda a sua obra”, define o site do Museu de Arte Contemporânea da USP.

Consagrado e estimado pelos novos grupos artísticos que surgiam na cidade, como o Dau al Set – mesmo sob a censura e o conservadorismo da ditadura de Francisco Franco (de 1936 a 1975) – Miró “investia em uma arte que negava a tradição prezada pelos círculos oficiais, além de manter uma postura de resistência que vinha desde a época da Guerra Civil Espanhola”, escreve o professor de Literatura Brasileira da USP, Ricardo Souza de Carvalho, em um posfácio à nova edição do ensaio.

Foto: Cedido ao 'Nexo' pela Verso Brasil
Uma das gravuras feitas por Miró exclusivamente para a publicação do ensaio de João Cabral
 

Após ser apresentado a Miró pelo pintor Ramón Rogent, João Cabral passou a visitá-lo semanalmente. Nesses encontros, mantinham longas conversas sobre artistas e a arte em geral.

Foi também por meio desses encontros que o poeta viu, em primeira mão, as obras que Miró vinha produzindo desde 1942. Cerceado pelo regime franquista, o pintor vinha tendo dificuldades de expor seu trabalho em seu próprio país.

Ao Nexo, o professor Ricardo Souza de Carvalho apontou que as artes plásticas foram um estímulo decisivo para a poesia de Cabral desde muito cedo.

“Além da atração [de João Cabral] pelo processo de criação de pintores e escultores, retomados com certa recorrência em seus poemas, as noções de visualidade e de materialidade vinculados à poesia encontravam seu parâmetro mais direto nas artes plásticas”, disse.

O que diz o ensaio

Organizado em duas partes, seguidas de um pós-escrito, o ensaio de João Cabral começa introduzindo as noções de beleza, equilíbrio, estatismo e a própria ideia do que é a pintura, fundadas pelo Renascimento.

João Cabral passa então a estabelecer uma oposição entre a pintura de Miró e a composição, a perspectiva, a representação e a contemplação passiva propostas pela pintura a partir desse período.

“É uma luta contra o estático da atenção que vemos em Miró: uma dupla luta, contra o estático próprio da cor e contra o estático próprio da contemplação de figuras conhecidas e apreendidas de memória”

João Cabral de Melo Neto

No ensaio ‘Joan Miró’

Cabral pontua que Miró aboliu de sua pintura a terceira dimensão. O pintor travava uma luta contra o estático e buscava um “ritmo livre de qualquer limitação”.

Segundo argumenta o poeta, as leis e a gramática da pintura, criadas durante o Renascimento e mantidas desde então, automatizaram os modos de fazer (dos artistas) e também a sensibilidade (do público).

Para Cabral, a originalidade de Miró não só abandonou princípios tradicionais da pintura como se consolidou, mantendo uma continuidade. Sua pintura possui uma qualidade viva, de invenção permanente, antagônica aos parâmetros de harmonia e equilíbrio.

“O trabalho de criação de Miró, eu o imagino como o de um homem que para somar 2 e 2 contasse nos dedos. Não por ignorância de sua tabuada – como se dá com a pintura infantil. Mas – e nessa capacidade de esquecer sua tabuada está uma das coisas mais importantes de sua experiência – pelo desejo de colocar seu trabalho, permanentemente, num plano de invenção aritmética”

João Cabral de Melo Neto

No ensaio ‘Joan Miró’

A linha de Miró surpreende, sua direção não pode ser prevista pelo olho de quem a observa – mais do que isso, segundo Cabral, seu caminho se estabelece à medida em que é contemplada.

“Vemos que Miró vai abandonando as pobres e repetidas melodias da linha renascentista. Já não é com a linha elegante e harmoniosa, formas plasmadas pelas necessidades do equilíbrio, que ele conta. Ele tem de reencontrar a função da linha. Tem de abandonar as linhas onde a contemplação permanece estagnada e entregar-se à criação de novas melodias. Miró parece haver compreendido perfeitamente a força de sua linha. Observemos os quadros que pintou a partir dessa época. Veremos como são mais frequentes neles essas linhas soltas, colocadas pelo pintor em posição essencial dentro da obra”

João Cabral de Melo Neto

No ensaio ‘Joan Miró’

Ricardo Souza de Carvalho chama atenção para o rigor e a sensibilidade com que o poeta avalia a pintura de Miró e estabelece uma correlação entre o fio percorrido pelo ensaio e a linha dos quadros do catalão.

“Cabral articula a livre movimentação do andamento do ensaio com o livre percurso da linha alcançado pelo pintor”, disse ao Nexo. “Essa identificação entre modo de expressão e objeto reforçam tanto o argumento principal do ensaio – a superação de princípios rígidos automatizados no fazer artístico sem a perda do rigor de construção – quanto a forma para abordar a arte e a poesia almejada por Cabral”.

Por que ler

O Nexo destaca abaixo comentários da editora e organizadora do livro, Valéria Lamego, e do professor Ricardo Souza de Carvalho, feitos em entrevista, que destacam a importância da obra e de sua publicação:

Valéria Lamego Acho que essa obra não foi editada antes com as gravuras e as fotografias por total desconhecimento dos editores e também porque não há uma tradição no Brasil de se fazer livros ilustrados, o que, aliás, não é uma tarefa muito simples. Além dos custos inerentes, tem o licenciamento das imagens, direitos autorais e a impressão em cor. São alguns fatores que levaram o leitor brasileiro ao desconhecimento dessa obra. Por outro lado, o ensaísmo não foi uma marca do João Cabral de Melo Neto, que escreveu seis ensaios em toda a sua vida. Isso também faz da obra [algo] muito especial.

A obra realça um momento em que escritores e artistas conviviam e compartilhavam suas sensibilidades, saberes e ideias. Joan Miró não é um ensaio crítico, biográfico ou de história da arte. É a visão de um poeta sobre um grande artista que ele viu em produção, em ação. É um instante daquele momento do Miró apreendido pelo poeta João Cabral.

Ricardo Souza de Carvalho O ensaio é a realização mais original motivada pelos impasses enfrentados por Cabral para continuar escrevendo poesia, ao refletir sobre o processo de composição de um grande artista.

Destaca-se como um ensaio muito bem elaborado entre os poucos textos em prosa deixados por ele, e que pode ser lido como uma espécie de poética ensaística que propõe uma representação de suas matérias por meio de fragmentos e correlações.

 

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