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Os cursinhos populares. E a ideia de universidade para todos

Uneafro oferece 2.000 vagas para alunos pobres e negros que tentam vaga em faculdades. Iniciativa é reação à fala do ministro da Educação, para quem universidade deve ser reservada à ‘elite intelectual’

 

Em dez anos, 15 mil pessoas passaram pelos cursinhos comunitários da Uneafro, uma rede de articulação e formação de jovens e adultos moradores de áreas periféricas. Em 2019, ano em que o grupo completa dez anos de existência, a rede abriu 2.000 vagas gratuitas para jovens pobres e negros que buscam entrar nas universidades do país. São 32 núcleos espalhados por comunidades do Rio e de São Paulo.

Ao Nexo, Douglas Belchior, professor e coordenador da rede, diz que a ideia é reagir à política do governo Bolsonaro, que enxerga a universidade como um espaço exclusivo “para os filhos dos ricos” e para uma “elite acadêmica iluminada”. “Nós voltamos a crescer. Saímos de 26 núcleos em 2018 e fomos para 32 em 2019”, conta. As inscrições estão abertas ao longo do mês de fevereiro, e os cursos começam em março de 2019.

A iniciativa se contrapõe a declarações do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, para quem “a ideia de universidade para todos não existe”. As instituições de ensino superior no Brasil, segundo ele, deveriam ficar “reservadas para uma elite intelectual”, ao passo que o governo investiria em ensino técnico para inserir os jovens de maneira mais rápida no mercado de trabalho e trazer, assim, maior retorno financeiro ao país.

O que Vélez Rodríguez, professor de filosofia escolhido para chefiar a pasta da educação na gestão de Jair Bolsonaro, pensa sobre o tema foi explicitado em entrevista ao Valor Econômico, em janeiro de 2019.

O ministro afirmou ainda, ao jornal, que um advogado não deveria “perder seis anos estudando legislação” para, depois, virar motorista de Uber.

A ideia de universidade para todos

Na prática, nenhum país do mundo conseguiu colocar todos os seus jovens nas universidades, como lembra o jornalista Antônio Gois, em texto publicado em O Globo.

Segundo dados apresentados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) no relatório “Education at a Glance” (Um olhar sobre a educação), de 2018, quem mais se aproxima da ideia é a Coreia do Sul. Em 2017, o país asiático tinha 70% da população entre 25 a 34 anos matriculada no ensino superior. Era seguido por Canadá (61%) e Japão (60%).

Já o Brasil aparece na lanterna do ranking, com apenas 17% (a média de todos os países da OCDE é de 44%). Fica à frente apenas da Indonésia (16%), Índia (14%) e África do Sul (6%). Houve, porém, um avanço. Em 2007, eram apenas 10%.

O peso da escolaridade

Os dados da OCDE mostram, porém, que numa realidade como a brasileira (o país é o nono mais desigual do mundo, segundo relatório de 2018 da Oxfam Brasil), ter nível superior tem um peso diferente.

O mesmo relatório aponta que a taxa de empregabilidade de quem tem diploma universitário no Brasil é de 86%, enquanto ela fica em 68% entre quem possui o ensino fundamental, e em 75% entre os que concluíram o ensino médio. Em relação ao desemprego, a falta de trabalho atinge 6,5% dos que têm curso superior. A taxa é de 10,6% para quem possui o ensino fundamental e 10,9% para quem tem o médio.

Em relação à renda, o fato de ter passado por uma universidade também tem forte impacto. Quem possui diploma no Brasil ganha, em média, 149% a mais do que quem estudou apenas até o ensino médio, segundo os dados apresentados em 2018 pela OCDE.

Os cursinhos populares

Foi na década de 1990 que cursos pré-vestibular acessíveis começaram a se espalhar, principalmente pelas capitais. Segundo o trabalho “Cursinhos populares e o acesso ao ensino superior: contribuições para além do conteúdo”, defendido por Ana Thereza Reis Magalhães na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), os cursinhos têm em comum o fato de oferecerem aulas a preços populares ou gratuitas e prover uma “formação crítica e formadora de cidadania”.

Eles surgem por iniciativa de movimentos populares (como o movimento negro, principalmente), ONGs (que têm caráter mais de solidariedade do que de militância, como lembra Magalhães) ou movimentos estudantis (como o que criou o Cursinho da Poli, em 1987).

O estudo “Cursinhos pré-vestibulares alternativos no município de São Paulo (1991-2000): A luta pela igualdade no acesso ao ensino superior”, apresentado em 2003 por João Galvão Bacchetto, na Escola de Educação da USP, identificou ao menos 17 cursinhos populares em São Paulo, nos anos 1990. Naquela década, apenas o da Educafro (Educação para Afrodescendentes e Carentes) oferecia 890 vagas, em bairros da capital como Jardim Ângela (zona sul), Capão Redondo (zona sudoeste) e Cidade Tiradentes (zona leste).

O Nexo conversou com Douglas Belchior sobre a luta do movimento negro por acesso à educação e sobre a iniciativa da Uneafro.

Como se formou a rede de cursinhos comunitários?

DOUGLAS BELCHIOR A rede tem no centro da ação política o combate ao racismo e a tarefa de levar negras e negros à universidade. Historicamente, o espaço educacional foi negado a eles. No século 19, uma lei negava o direito de pessoas escravizadas e de seus filhos de frequentarem a escola pública. O contexto social exclui o negro, mesmo havendo o direito universal à educação, pois não o coloca em condições de frequentar esse espaço.

O movimento negro, nas suas reivindicações, desde o fim da escravidão, sempre lutou pelo direito ao letramento, à alfabetização e à participação nesse espaço. É uma demanda antiga. Ao mesmo tempo, houve um questionamento quanto ao conteúdo professado nesses espaços, que reafirma estereótipos racistas que não nos servem.

A Frente Negra Brasileira (1931-1937) organizava salas de aulas em comunidades na década de 1930. A gente apenas atualiza uma luta que é histórica. No início dos anos 1990, houve uma experiência de cursinhos pré-vestibulares para negros na Bahia, com o Instituto Steve Biko, que é precursor. Ele existe ainda hoje e tem sede no Pelourinho, em Salvador. Aqui em São Paulo, você tem o Núcleo de Consciência Negra, que é de 1988. Você tem um cursinho organizado dentro da USP por estudantes negros fazendo esse trabalho de reforço para ver se aprova mais negros no vestibular da universidade. Essa experiência de organização comunitária migra para a Baixada Fluminense, para Duque de Caxias, São João de Meriti, e lá, nos anos 1990, surge o movimento PVNC (Pré-Vestibular para Negros e Carentes). Ele existe ainda hoje.

Depois disso, essa experiência, que era uma aliança entre igreja e comunidade, tem uma fissura. A igreja sai, e alguns padres vêm para São Paulo e fundam aqui a Educafro, ligada aos franciscanos, nos anos 1990. Foi quando eu conheci essa experiência. Fiquei nela por quase dez anos até que aconteceu um novo desdobramento e surgiu a Uneafro, que é uma rede que dá continuidade histórica a essa luta. Hoje, temos 32 núcleos em várias comunidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Esses núcleos possuem autonomia quanto à forma de ensino?

DOUGLAS BELCHIOR Nós trabalhamos numa rede que se sustenta a partir da ação militante de professores e coordenadores voluntários. Esses núcleos de coordenadores mobilizam em cada cursinho de dez a 15 professores, e esse grupo atende de 50 a 100 alunos por ano em cada comunidade. Ou seja, varia muito. Tem núcleo que tem 200 vagas, que tem mais professores, mais experiência. Assim como tem núcleos que surgem pequenos.

Há como avaliar o trabalho em dez anos?

DOUGLAS BELCHIOR Tivemos mais de 15 mil matriculados em dez anos. Hoje a gente tem vaga para 2.000 pessoas. É muito disperso e é difícil de ter um controle de quantos foram aprovados. Tem gente que sai do cursinho, se estabelece, e a gente fica sabendo bem depois, quando encontra ele terminando o curso, ou já formado. Os que estão em atividade a gente acompanha o máximo possível. Temos uma iniciativa de apoio à permanência na universidade. A gente faz campanha de arrecadação de dinheiro para cumprir o papel que o Estado deveria fazer, que é oferecer condições de permanência, uma bolsa. No ano passado, conseguimos levantar quase R$ 60 mil em doações e transferimos integralmente o valor aos estudantes da Uneafro que estavam em universidades espalhadas pelo país. Nós temos um cadastro de cerca de 60 estudantes que são esses que a gente continua com vínculo, mas são centenas que chegaram à universidade pelo nosso trabalho. A gente não tem um controle efetivo. A maioria deles entrou em universidade públicas, com o Sisu [Sistema de Seleção Unificada, que permite ao estudante se candidatar a vagas em universidades públicas em todo o país] e em outros estados, porque conseguem vaga em faculdade que tem menor concorrência.

E como é o material didático?

DOUGLAS BELCHIOR Durante muito tempo nós mesmos formulamos, de maneira amadora, o conteúdo, com colaboração dos professores voluntários. A gente não conseguiu ainda criar o nosso material didático próprio, com nosso próprio direito autoral. Mas, nos últimos dois anos, por conta de parcerias com fundações e ONGs parceiras, a gente conseguiu comprar o material didático e oferecer gratuitamente para toda a rede. Neste ano a gente conseguiu de novo.

Vocês percebem mudanças na vida das pessoas que passaram pelos cursinhos?

DOUGLAS BELCHIOR Absolutamente. Falei dos 60 que estão em atividade no ensino superior e que são beneficiários desse trabalho de acompanhamento, mas o número dos que passaram é muito maior. Temos relação com os que já se formaram e que já se estabeleceram profissionalmente. A grande parte retorna para contribuir com ativismo, e outra parte até financeiramente. Nós temos, por exemplo, no Itaim Paulista, na divisa com Poá, uma sede que é alugada e que oferece cursinho e oficinas e que é toda financiada com uma vaquinha feita por ex-alunos do cursinho e que hoje são médicos, advogados, dentistas.

Como vocês receberam a fala do ministro de que a universidade tem que ser restrita a uma elite?

DOUGLAS BELCHIOR A declaração é coerente com o caráter do governo que o colocou nesse lugar. Temos um governo profundamente descomprometido com o futuro do país e com as condições de vida da maior parte da população e que não tem nenhum pudor em fazer defesa de pautas conservadoras e reacionárias. Considerando isso, é coerente quando ele verbaliza a ideia que as elites brasileiras têm da universidade. Ela é para os filhos dos ricos, para uma elite acadêmica iluminada e que só pode ser oriunda das classes abastadas. A grande diferença é que anuncia e radicaliza isso nas políticas. Da nossa parte, é radicalizar naquilo que a gente sempre fez, que é organizar nas bases espaços para exigir direitos que são constitucionais por enquanto. 

E o que pensam do caminho que ele propõe de investir em ensino técnico?

DOUGLAS BELCHIOR Do ponto de vista da narrativa, estão atentos ao sentimento que foi construído no Brasil. Quando se fala sobre ensino técnico que garante empregabilidade mais rápida, é lógico que isso tem acolhimento dos pobres e dos trabalhadores, porque o pai de família quer ver logo o filho empregado e encaminhado na vida, e o próprio filho, percebendo como muito distante o espaço de uma universidade, vai buscar o que está mais próximo do seu alcance. O ensino técnico pode até encontrar uma certa acolhida num primeiro momento, mas nós também vivemos num período em que as novas gerações tiveram seus irmãos mais velhos na universidade e até eventualmente os pais voltando a estudar. Nossa tarefa é provocar nessa população a indignação e a vontade de querer mais e não apenas ficar no aperitivo.

O fato objetivo é que a gente lutava para ampliar a possibilidade de acesso do povo trabalhador negro principalmente ao ensino superior e dava passos de tartaruga. A movimentação deles é de mudar o sentido, ir para outro caminho. Apesar desse discurso de que a universidade não é nossa, estamos crescendo em inscrições, em número de professores querendo dar aula voluntariamente. Nós voltamos a crescer. Saímos de 26 núcleos e fomos para 32. Você tem uma reação do lado de cá. É nisso que a gente aposta. 

  

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