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A condenação de Joaquín Guzmán, o megatraficante mexicano

El Chapo, como ficou conhecido, foi sentenciado em uma corte de Nova York após dois anos de detenção nos Estados Unidos

    O narcotraficante mexicano Joaquín Guzmán Loera foi condenado no dia 12 de fevereiro de 2019. O julgamento ocorreu na cidade de Nova York, nos Estados Unidos. El Chapo, como é conhecido, foi o maior narcotraficante estrangeiro a ser julgado na Justiça americana, num processo que recebeu atenção mundial.

    Ele liderou o cartel de Sinaloa, organização criminosa responsável por uma rede de produção e distribuição de drogas ilícitas como cocaína, maconha, heroína e metanfetamina, um negócio bilionário. O nome vem do estado mexicano de Sinaloa, onde El Chapo nasceu e o grupo teve origem.

    A condenação veio de um júri, cujos integrantes tiveram a identidade mantida sob sigilo. Eles consideraram El Chapo culpado por todos os crimes em julgamento — incluindo tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e uso ilegal de arma de fogo.

    A sentença, com o tamanho da pena, será dada apenas em junho — ela cabe ao juiz, não ao júri. A expectativa é que seja prisão perpétua, numa unidade de segurança máxima. El Chapo tem 61 anos e atualmente está preso em Nova York.

    Como foi o julgamento

    O julgamento começou em novembro de 2018, quase dois anos após sua extradição para os EUA. El Chapo se declarou inocente. Seus advogados afirmam que foram privados de contato com o cliente por ele ter ficado em cela solitária, que o júri já o assumia previamente como culpado, que ele teve participação pequena no cartel de drogas de Sinaloa e serviu como um bode expiatório. Ele optou por não testemunhar — permaneceu calado e praticamente sem demonstrar emoções em todas as sessões.

    A quantidade de testemunhas é ilustrativa de como o julgamento se desenrolou: 56 depuseram contra El Chapo, parte delas pessoas que trabalharam com ele no cartel. A defesa convocou apenas uma testemunha.

    Uma das testemunhas disse que El Chapo pagou uma propina de US$ 100 milhões a Enrique Peña Nieto, ex-presidente do México (2012-2018), nas eleições de 2012. Peña Nieto nega. Foram frequentes relatos de propina a diversas autoridades mexicanas (na política, Exército, polícias e Judiciário), assim como de assassinatos, tortura e outras formas de violência pelas mãos do cartel.

    Segundo a acusação, o cartel de Sinaloa é a maior organização de narcotráfico do mundo e responsável por mais de 100 mil mortes no México desde os anos 1980.

    As sessões no tribunal tiveram um forte esquema de segurança. Escoltas policiais, franco-atiradores, cães farejadores para detectar explosivos e agentes com sensores de radiação ao redor do tribunal.

    O governo americano mostrou interesse no julgamento. O procurador-geral dos EUA (cargo similar aos brasileiros advogado-geral da União e ministro da Justiça), Matthew Whitaker, chegou a comparecer ao tribunal, cumprimentar os integrantes da acusação e elogiar o trabalho deles.

    O presidente Donald Trump não fez declarações públicas sobre o julgamento de El Chapo. Governante ultranacionalista, Trump defende há anos a construção de um muro na fronteira com o México, afirmando que isso barraria a entrada de drogas e criminosos.

    Ele já disse que os mexicanos que cruzam a fronteira não são “os melhores” do país e são “estupradores” — apenas uma minoria é “gente do bem”. Trump vem fracassando na tentativa de conseguir verba para construir o muro, fortemente criticado pelo Partido Democrata. A autorização depende do Congresso.

    Quem é El Chapo

    Adolescente, El Chapo trabalhou em plantações de cannabis. Seu pai também fazia parte de cultivos ilegais.

    Nos anos 1980, El Chapo trabalhou com Miguel Ángel Félix Gallardo, principal narcotraficante do México na época e responsável por criar a primeira grande organização centralizada no país para produzir e vender drogas. Ele não estava mais na colheita dos cultivos, tinha um status intermediário no grupo, conhecido como cartel de Guadalajara, que controlava a distribuição para os EUA.

    Com a decadência e prisão de Gallardo, o negócio se dividiu. El Chapo retornou ao estado natal de Sinaloa, de onde o próprio Gallardo havia saído. Lá, fundou uma nova organização, que veio a se tornar mais poderosa que o cartel de Guadalajara.

    El Chapo foi preso três vezes. Nas duas primeiras fugiu: segundo a versão oficial, em 2001 ele organizou um esquema no qual escapou dentro de um carrinho de roupa suja da lavanderia, em 2015 fugiu por um túnel. Outra hipótese é que, nas duas vezes, El Chapo pagou policiais, conseguiu sair da prisão pela porta da frente e as autoridades encobriram a corrupção disseminando fugas mirabolantes.

    Em 2016, foi novamente detido no México. Dessa vez, foi feito um acordo para extraditá-lo aos EUA. Nas negociações, o governo mexicano exigiu que não houvesse pena de morte, em caso de condenação. Não existe pena de morte no México. Ele chegou aos EUA em janeiro de 2017.

    Para uma pequena parte da população mexicana, El Chapo tinha uma imagem de herói, alguém que ajudava a comunidade local, ao passo que o Estado se mostrava ineficiente e havia violência policial.

    Algo similar ocorreu com o narcotraficante colombiano Pablo Escobar, na década de 1980, quando parte da cidade de Medellín o via como um líder que se importava com os mais pobres e o ajudava. Escobar teve sua figura mistificada, dentro e fora do país.

    A prisão e extradição de El Chapo não fizeram com que índices de violência melhorassem. Para alguns, isso indica que a solução para a segurança pública no México é mais complicada do que prender líderes criminosos e realizar ofensivas contra o tráfico. Para outros, prender e julgar essas lideranças é fundamental para enfraquecer grandes organizações, desestruturar o tráfico e reduzir a violência.

    Em 2017 e 2018, com o líder narcotraficante atrás das grades nos EUA, o México registrou dois recordes sucessivos no número de homicídios. Foram 33.341 assassinatos intencionais ao longo de 2018.

    Em dezembro de 2018, Andrés Manuel López Obrador assumiu o governo do México. Ao contrário dos seus antecessores, Obrador, de centro-esquerda, é contrário à guerra às drogas e defende uma política diferente para enfrentar a violência, focando no dia a dia das comunidades e não em prender grandes traficantes. Em início do mandato, as operações militares contra drogas continuam no México.

    Obrador, porém, tenta criar uma nova instituição, a Guarda Nacional, escanteando o Exército na área de drogas. É incerto se sua proposta vai reduzir a violência e se ele vai seguir com a nova abordagem diante da pressão de opositores e de parte da população.

     

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