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O crescimento do antissemitismo na França e na Alemanha

Duas das maiores economias da Europa enfrentam alta nos ataques a judeus, segundo registros oficiais dos próprios governos

 

França e Alemanha registraram no último ano aumento nas notificações de atos de antissemitismo – nome dado à aversão aos judeus. A nova onda preocupa uma Europa ainda marcada pelo Holocausto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em que mais de 6 milhões de judeus foram mortos em campos de concentração nazistas.

Os registros dos casos são oficiais, feitos pelos governos de cada um desses países. Eles só incluem, no entanto, os casos que foram registrados por iniciativa do poder público ou por queixas levadas pela própria população. Não é possível saber o tamanho da subnotificação.

As tentativas de explicação para o aumento

O aumento do registro de casos de antissemitismo ocorre na esteira do crescimento da força política de grupos de extrema direita na Europa. Nenhuma figura relevante da política proclama abertamente a adesão a esse tipo de racismo. Entretanto, o discurso soberanista, nacionalista e antiglobalista incorporado por eles acusa frequentemente um difuso lobby judeu liberal de financiar ONGs de direitos humanos, imprensa independente e outros setores da sociedade, que são apresentados como uma ameaça ao que seria o valor tradicional desses países.

Outra fonte de atos antissemitas, de acordo com as autoridades da França e da Alemanha, são núcleos islâmicos radicalizados na Europa, que veem nos judeus e particularmente no Estado de Israel uma ameaça.

“Além do antissemitismo islâmico, nós estamos presenciando o ressurgimento de uma extrema direita identitária virulenta não apenas nas redes sociais mas também nas ruas”

Frédéric Potier

delegado Interministerial da França para a Luta Contra o Racismo, o Antissemitismo e o Ódio anti-LGBT, em cerimônia em Paris no dia 12 de fevereiro de 2019

Líderes da extrema direita europeia rechaçam a associação com o antissemitismo. Eles concentram as explicações para o fenômeno do aumento de número de denúncias, principalmente, no islamismo.

Na França, aumento de 74% nos registros

O Ministério do Interior da França diz que o número de atos antissemitas notificados no país cresceu 74% na comparação de 2018 com 2017.

Em 2017, foram registrados 311 atos desse tipo. Em 2018, esse número subiu para 541, dos quais 81 envolveram violência física, incluindo tentativas de homicídio.

Em Paris, atos antissemitas têm sido registrados durante as manifestações dos coletes amarelos – grupo difuso de franceses insatisfeitos com o governo, apoiados tanto pela esquerda quanto pela extrema direita, que saem às ruas para protestar, desde novembro de 2019.

Frédéric Potier, delegado Interministerial da França para a Luta Contra o Racismo, o Antissemitismo e o Ódio anti-LGBT, associou diretamente os protestos dos coletes amarelos com os atos antissemitas, como pichações de “Macron puta judia” e suásticas desenhadas sobre representações do rosto da ex-subprefeita Simone Veil, na frente da subprefeitura onde ela trabalhou, em Paris. Simone foi uma sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz.

Na Alemanha, aumento de 9,4% nos registros

O governo alemão diz que o número de atos antissemitas no país cresceu 9,4% na comparação dos anos de 2017 e 2018.

Embora o crescimento desses casos na Alemanha seja inferior ao crescimento percentual registrado na França no mesmo período, os alemães registraram três vezes mais atos antissemitas que os franceses, em números absolutos. Foram 541 casos na França contra 1.646 na Alemanha, só no ano de 2018.

Em 62 desses atos, foram registradas violências físicas, sendo 43 delas com vítimas feridas.

O crescimento coincide com a ascensão inédita da extrema direita alemã no período do pós-Guerra. Nas eleições de setembro de 2017, a AfD (Alternativa para a Alemanha), que representa esse setor, se tornou a terceira maior força legislativa do país ao receber 12,6% do total dos votos válidos, entrando pela primeira vez desde 1945 no Bundestag, o Parlamento Alemão.

Em junho de 2018, um dos líderes da AfD, Alexander Gauland, declarou que Adolf Hitler e o nazismo não representam mais que “um pedaço de titica de passarinho nos mil anos de sucessos da história da Alemanha”.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que os coletes amarelos protestam na França desde novembro de 2019. O ano correto é 2018. O texto também afirmava que a Alemanha registrou cinco vezes mais casos de antissemitismo que a França em 2018. O correto é que a Alemanha registrou o triplo de casos que a França em 2018. As duas informações foram corrigidas às 14h42 do dia 18 de fevereiro de 2019.

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