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Quem é Gustavo Bebianno, pivô da crise do governo Bolsonaro

Importante na campanha e escolhido para um dos ministérios mais próximos da Presidência, o advogado tornou-se desafeto e um problema institucional após ser associado a esquema de candidaturas laranjas

     

    Na quarta-feira (13), Gustavo Bebianno deixou de registrar compromissos oficiais em sua agenda pública na Secretaria-Geral da Presidência. Foi o dia em que veio a público a briga entre ele e a família Bolsonaro, tema que passou a dominar a rotina do titular de um ministério que funciona dentro do Palácio do Planalto, alguém que foi peça-chave na campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

    Bebianno e outros quadros do PSL, entre eles o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foram citados em reportagens do jornal Folha de S.Paulo que apontam suspeitas de lançamento de candidaturas laranjas para uso indevido de dinheiro do fundo público eleitoral, em Pernambuco e em Minas.

    O PSL, Partido Social Liberal, pelo qual Bolsonaro foi eleito, era presidido, na campanha, por Bebianno. Atualmente quem comanda a legenda é Luciano Bivar. Uma das candidaturas suspeitas é ligada ao grupo político próximo de Bivar. Mas é sobre Bebianno que recai a responsabilidade de liberação da verba pública para as candidaturas, afinal era ele que presidia o PSL na eleição.

    O caso ganhou ares de crise e entrou Palácio do Planalto adentro quando o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente, desmentiu, via Twitter, que o pai estivesse mantendo contato com Bebianno após a divulgação das reportagens. O presidente endossou a reação do filho e, em entrevista à Record na terça-feira (13), disse que o ministro poderia ser demitido se as suspeitas se confirmassem.

    Na quinta-feira (14), militares integrantes do governo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fizeram declarações no sentido de amenizar a situação. Fizeram ainda alertas de que crises dessa linha (criadas e amplificadas pela própria família Bolsonaro) poderiam prejudicar a tramitação do projeto da reforma da Previdência no Congresso – a proposta deve ser enviada à Câmara na quarta-feira (20).

    Os pedidos desse grupo a Bolsonaro vinham na linha de evitar a demissão de Bebianno e de pedir limites à participação dos filhos do presidente no governo. Além de Carlos, vereador do Rio, o presidente tem na política Eduardo, deputado federal reeleito, e Flávio, senador envolvido em suspeitas de retenção de salários de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio quando era deputado estadual.

    Na tarde de sexta-feira (15), as informações eram desencontradas sobre a permanência ou saída de Bebianno do governo. Já no início da noite a demissão era dada como certa. A exoneração foi oficializada na segunda-feira (19)

    Quem é e qual seu papel na campanha

     

    Gustavo Bebianno Rocha, 55 anos, é advogado, graduado pela PUC do Rio de Janeiro. Em sua biografia oficial, o ministro diz ter experiência também em gestão empresarial. Além de ter trabalhado num escritório de advocacia (o de Sérgio Bermudes, de quem é amigo até hoje), investiu em academias de jiu-jítsu (esporte que já praticou).

    O ministério foi sua primeira experiência em carreira pública. O cargo tem por função ajudar o presidente no relacionamento com a sociedade civil, o que significa ouvir demandas de representantes de setores diversos. Também responde por assuntos de expediente e da agenda presidencial. É um dos ministérios em que, a rigor, o titular precisa de bastante proximidade com o chefe do Planalto.

    Na campanha eleitoral, Bebianno e Bolsonaro tinham essa proximidade. O contato entre eles começou em 2017. O advogado dizia admirar a figura de Bolsonaro. Havia ainda uma afinidade política (o que aparece nas críticas ao PT e à esquerda). Bebianno se ofereceu para trabalhar de graça, cuidando de assuntos jurídicos da futura campanha.

    “[Brasileiro] não aguenta mais essa esquerdalha vagabunda, covarde, mentirosa, destruidora de mentes infantis e juvenis, e que cria imbecis como esse covarde que esfaqueou hoje o capitão Jair Messias Bolsonaro. Ninguém aguenta mais o PT. Ninguém aguenta mais o PSOL”

    Gustavo Bebianno

    em vídeo divulgado em 6 de setembro de 2018, horas após o atentado a faca contra Jair Bolsonaro

    Bolsonaro se interessou pela oferta de Bebianno e aos poucos o advogado foi ganhando espaço na campanha. É atribuída a ele, por exemplo, a estratégia de filiação ao PSL, formalizada em março de 2018. O advogado havia se filiado um pouco antes, em janeiro de 2018. Entre fevereiro e outubro daquele ano, ou seja, durante a campanha, presidiu a legenda.

    Bebianno, primeiro, dedicava-se exclusivamente à candidatura de Bolsonaro. Mas com o tempo passou a negociar nos estados outras candidaturas do PSL ao Senado, à Câmara e a Assembleias Legislativas. “Sou uma espécie de Bombril, mil e uma utilidades”, relatou ele ao jornal O Globo à época. Nesse período, já havia relatos de reclamações contra ele dentro do partido. Seu estilo era considerado agressivo.

    A proximidade com Bolsonaro, porém, parecia sólida. Após o atentado a faca ocorrido em Minas, em setembro de 2018, em plena campanha eleitoral, Bebianno foi um dos poucos (fora do círculo familiar) a ter acesso ao então candidato no hospital, conforme registrou o jornal O Estado de S. Paulo.

    Sua relevância política dentro da campanha presidencial era equiparada à de outros interlocutores importantes, como o deputado Onyx Lorenzoni (que virou ministro-chefe da Casa Civil) e o general da reserva Augusto Heleno (hoje ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional).

    Não à toa, Bebianno colocou em sua biografia no site oficial da Secretaria-Geral da Presidência que foi um dos “principais articuladores na campanha” que elegeu Bolsonaro.

    Bebianno no centro da crise

    A importância que Bebianno se atribuiu ao sucesso de Bolsonaro tem sido lembrada no atual momento, ora com um tom ressentido, ora de ameaça, após seu nome ser exposto em público por Carlos e Bolsonaro.

    “Não sou moleque, e o presidente sabe. O presidente está com medo de receber algum respingo”

    Gustavo Bebianno

    em entrevista à revista Crusoé, publicada na quinta-feira (14) de fevereiro de 2019

    Embora o titular do Turismo também tenha sido mencionado entre as suspeitas envolvendo candidaturas do PSL, somente Bebianno foi alvo da família Bolsonaro e está ameaçado de demissão. A pessoas próximas, o ministro disse que está sendo tratado de forma injusta.

    “Alguém botou minhocas na cabeça dele [Bolsonaro] em relação a esse assunto. Por que ele não tem essa preocupação em relação a Minas Gerais? Não tem um problema em Minas Gerais [que envolve o ministro do Turismo], supostamente? Alguém diz que a responsabilidade é minha? É a mesma coisa, não é?”

    Gustavo Bebianno

    em entrevista à revista Crusoé, publicada na quinta-feira (14) de fevereiro de 2019

    As motivações da reação de Bolsonaro são cercadas de informações de bastidores, que sugerem que o envolvimento de Bebianno nas supostas candidaturas laranjas apenas tenha servido para levar ao afastamento dele do governo, conforme relatos coletados pelo jornal O Estado de S. Paulo.

    “O problema de Bebianno é muito parecido com o de Flávio Bolsonaro. São temas diferentes, mas têm a ver como se trata dinheiro público. E a reação do presidente não foi a mesma. O caso do ministro do Turismo também é parecido com o de Bebianno. Ele [o ministro do Turismo] foi preservado no cargo. Me parece que o caso de Bebianno gira mais em torno do interesse de Carlos Bolsonaro do que ser uma reação moral do governo”

    Marco Antonio Carvalho Teixeira

    cientista político da FGV-SP, em entrevista ao 'Nexo' publicada na quinta-feira (14)

    Carlos Bolsonaro e Bebianno já se desentenderam no passado. E pessoas próximas do presidente dizem que a atual crise é o ápice de uma desconfiança crescente do ministro em razão de articulações políticas lideradas por ele sem o consentimento de Bolsonaro.

    As candidaturas laranjas

    A crise originada em torno de candidaturas do PSL giram em torno das suspeitas de que algumas campanhas, todas de mulheres, foram candidaturas laranjas, isto é, de fachada. São candidaturas que receberam altos valores de recursos públicos do fundo eleitoral, mas receberam poucos votos nas urnas.

    A discrepância seria um indício de que as candidaturas foram formalizadas somente para cumprir cotas impostas pela legislação e, assim, repassar o dinheiro do fundo eleitoral dado a elas para candidatos mais competitivos ou para pagar despesas de campanha, algumas sem comprovação da prestação do serviço.

    As suspeitas estão sendo investigadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Regional Eleitoral de Minas. Bebianno e Álvaro Antonio, titular do Turismo, afirmam que as candidaturas e os repasses de recursos seguiram as regras da legislação eleitoral.

    Em nota, Bebianno afirmou que seu trabalho na presidência do PSL durante a campanha foi feito com “transparência e lisura”, e que o destino dos repasses do fundo eleitoral era definido pelos diretórios estaduais.

    Ata de uma reunião do partido, de junho de 2018, atribui a Bebiano essa função. O documento foi assinado por ele, de acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

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