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Por que as ruas do Haiti estão de novo em chamas

País caribenho de sucessivas crises mergulha em nova onda de manifestações, que pedem a saída do presidente Moïse

     

    A capital do Haiti, Porto Príncipe, vive desde 7 de fevereiro de 2019 uma onda de violentos protestos de rua contra o governo do presidente Jovenel Moïse. Em uma semana, pelo menos sete pessoas morreram em grandes marchas, com automóveis virados, queima de pneus e construção de barricadas em bairros da capital.

    As manifestações têm um objetivo imediato, que é a deposição do presidente Moïse, e um objetivo mais amplo, que é recuperar o poder de compra dos salários e melhorar a qualidade de vida num dos países mais pobres do mundo. A moeda nacional, o gourde, vem se desvalorizando rapidamente em relação ao dólar. Essa desvalorização dificulta a compra de itens básicos, que são quase todos produzidos fora do país.

    Mapa mostra a localização do Haiti

    A expectativa de vida no Haiti é hoje de 63 anos. Quase metade da população maior de 15 anos é analfabeta e vive com menos de R$ 11,5 por dia, de acordo com o Programa da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

    Moïse foi eleito presidente em novembro de 2016 para um mandato de quatro anos. O partido dele, o Tèt Kale – que, em creole, significa cabeças raspadas – é classificado como de centro-direita, mesmo que, no Haiti, as questões práticas relativas à sobrevivência imediata e à reconstrução física das estruturas se sobreponham a ponderações ideológicas.

    “Não sairemos do país para deixá-lo nas mãos de gangues armadas e de traficantes de drogas”

    Jovenel Moïse

    presidente haitiano, em pronunciamento na TV, no dia 15 de fevereiro de 2019

    A promessa do novo presidente era combater a corrupção e reerguer a economia nacional. Porém, passados dois anos, um relatório publicado no início de 2019 pelo Tribunal de Contas do Haiti concluiu que o presidente e seus principais auxiliares são suspeitos de desviar recursos que eram para ser usados na reconstrução do país.

    A oposição puxou os protestos a partir da data de aniversário de dois anos do mandato de Moïse. Desde então, milhares de haitianos mantiveram as marchas quase diárias pelas ruas da capital, terminando em violentos enfrentamentos com a Polícia Nacional Haitiana.

    Uma longa história de crises

    O Haiti vive uma sucessão de crises políticas, cujas origens estão ligadas à escravidão e à exploração colonial francesa nos séculos 18 e 19. Os haitianos protagonizaram a primeira revolução vitoriosa de escravos negros, justamente contra o império de Napoleão Bonaparte, em 1804.

    Os franceses, ao sair, impuseram uma pesada multa ao Haiti, a título de indenização pelas supostas benfeitorias e pelo lucro perdido na comercialização do açúcar que era produzido ali. Alguns estudiosos dizem que essa dívida equivale, em valores atuais, a US$ 17 bilhões.

    Já no século 20, entre 1915 e 1934, o país foi ocupado pelos EUA. Em seguida, dos anos 1950 até o fim dos anos 1980, viveu sob as ditaduras dinásticas de François Duvalier, chamado Papa Doc, e, em seguida, do filho dele, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc.

    A brutalidade desses governos levou a um êxodo da elite haitiana. A saída de toda uma geração de médicos, engenheiros e professores dificultou a reconstrução do país nos anos 1990.

    Já em 2004, a ONU (Organização das Nações Unidas) deu início a um ambicioso plano de reconstrução do país, baseado em grande medida no emprego de uma força militar de paz comandada pelo Brasil.

    Em 2010, um terremoto arrasou grande parte das construções da capital, Porto Príncipe, deixando milhares de mortos e desaparecidos. A ilha de Spagnola, na qual ficam o Haiti e a vizinha República Dominicana, também está na rota dos furacões que todos os anos varrem o Caribe.

    O capítulo mais recente dessa crise

     

    A eleição do atual presidente resultou de uma série de postergações, cancelamentos e sucessivas alterações do calendário eleitoral, que, desde o início, reforçaram as suspeitas de que a instável política local não havia melhorado nem mesmo após a operação internacional de reconstrução do país.

    Moïse é ligado ao grupo político de seu antecessor no cargo, o presidente Michel Martelly. Ele nunca foi visto como um reformador. A expectativa depositada em seu mandato era de que ele servisse pelo menos para colocar as disputas políticas num trilho previsível de alternância institucionalizada, sem os solavancos provocados pelos protestos violentos, pelas deposições e pelos golpes que se sucedem na história haitiana.

    Porém, as manifestações do início de fevereiro fizeram crescer o temor de que o Haiti mergulhe num período prolongado de violência e instabilidade. Nesta sexta-feira (15), a imprensa internacional noticiou que o governo americano ordenou a retirada do Haiti de todo seu pessoal diplomático não essencial, e seus familiares. O Canadá fechou temporariamente sua embaixada.

     

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