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O que diz o ‘Green New Deal’ de Ocasio-Cortez, nos EUA

Apresentada por deputados democratas, resolução propõe novo modelo sustentável para eliminar poluição e enfrentar a mudança climática

A deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey, ambos do Partido Democrata, nos Estados Unidos, apresentaram em  7 de fevereiro de 2019 um projeto que define o Green New Deal, plano ambiental que busca transformar o país em uma economia de carbono neutro até 2030.

A resolução propõe ações multissetoriais para o combate à mudança do clima nos EUA, incluindo uma meta de que, em dez anos, o país deve converter “100%” de sua demanda energética em “fontes de energia limpa, renovável e com emissões zero” de dióxido de carbono.

A ideia é incentivar o advento de um novo modelo econômico que tire os Estados Unidos do ranking de países poluentes, seguindo os moldes do New Deal, conjunto de reformas na indústria promovidas no governo de Franklin Roosevelt, que transformou o paradigma de desenvolvimento americano após a crise financeira de 1929.

“Resolver uma crise sem precedentes exigirá uma ambição sem precedentes. A mudança climática é uma ameaça às nossas vidas”

Alexandria Ocasio-Cortez

deputada americana, em post no Instagram sobre a mudança climática em 8 de dezembro de 2018

A proposta atende às expectativas de ambientalistas, movimentos sociais e democratas que pertencem à ala à esquerda do partido — como a própria Ocasio-Cortez — ao propor, mais do que soluções para o equilíbrio do clima, reformas profundas nas políticas sociais dos EUA.

A resolução, que não se apega a detalhes práticos, não deve ser entendida como um projeto de lei — a ideia é que, daqui para frente, legisladores que apoiam o projeto divulguem projetos sobre como seria feita a execução das medidas propostas para a transição econômica.

O que propõe o Green New Deal

A resolução, de 14 páginas, enumera cinco objetivos para a infraestrutura nacional que, segundo os autores, exigem o desenvolvimento de uma série de novas políticas públicas e ações do governo americano.

A proposta se baseia na premissa de que os EUA, segundo Markey e Ocasio-Cortez, enfrentam duas crises interdependentes — uma ambiental e outra, econômica, marcada pela estagnação de salários e crescente desigualdade. O Green New Deal busca atacar a ambos.

3 eixos do plano

Metas

O projeto propõe um acordo nacional para que os EUA cumpram uma série de grandes metas — alcançar emissão líquida zero de gases do efeito estufa, criar empregos “sustentáveis”, investir na indústria e infraestrutura pela ótica dos desafios do século 21, garantir ar e água limpos e garantir justiça para os mais vulneráveis à mudança do clima.

Medidas

A fim de atingir as metas, o projeto propõe uma mobilização nacional de uma década envolvendo medidas como a restauração de ecossistemas, a modernização das redes elétricas do país, a “descarbonização” dos setores de energia, transportes e indústria e a formação de parcerias com agricultores que levem ao fim das emissões de carbono na zona rural.

Governo

Como parte da mobilização, o governo americano deve fiscalizar a aplicação do Green New Deal, pensar novas leis e ações para executar o plano, assegurar um ambiente econômico profícuo para a transição sustentável, investir no desenvolvimento de tecnologias limpas, promover a transparência e incentivar a participação, dialogando com a sociedade civil, a academia, o setor privado, sindicatos e comunidades vulneráveis.

O conceito de ‘justiça ambiental’

Uma das principais ideias apresentadas no texto é a de “justiça ambiental”, que diz que o combate à mudança do clima não deve se restringir à discussão sobre emissões, tecnologia e políticas públicas, mas entender como a crise ambiental reforça desigualdades — daí a proposta do plano de fortalecer políticas sociais.

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pessoas devem ficar expostas a temperaturas “terríveis” até 2050 devido à emissão de carbono, segundo relatório da ONU citado no texto

A segunda ideia central do texto diz respeito ao papel do poder público — que, segundo os autores, deve ser a principal fonte de financiamento da transição econômica, garantindo que o valor investido no projeto retorne à população na forma de empregos e da oferta universal de serviços públicos.

“[...] a Câmara dos Representantes reconhece que uma nova mobilização nacional, social, industrial e econômica em uma escala não vista desde a Segunda Guerra Mundial e o New Deal é uma oportunidade histórica de criar milhões de empregos bons e de alto salário, fornecer níveis sem precedentes de prosperidade e segurança econômica para todos e combater as injustiças sistêmicas nos Estados Unidos”

Green New Deal

resolução de Ed Markey e Alexandria Ocasio-Cortez, na página 4

Por outro lado, o plano não se aprofunda em pontos como o custo da transição econômica, a taxação (ou não) de emissões de carbono, as novas fontes de energia a serem priorizadas e soluções para o ambiente nas cidades. As pendências devem se resolver em projetos futuros.

Qual a repercussão do plano

Apelidado de “utópico” e “socialista”, o Green New Deal foi recebido com “escárnio” por republicanos na Câmara dos Representantes, que dizem que seus planos ameaçam o crescimento da economia como é hoje nos EUA.

Isso porque o plano põe em xeque alguns dos setores mais lucrativos da indústria americana, que, com vasto uso de combustíveis fósseis, posiciona os EUA como o segundo maior emissor de carbono no mundo.

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toneladas de dióxido de carbono foram emitidas pelos EUA em 2017, segundo a BP, conglomerado de energia; em volume total de emissões, o país perde para a China

A ideia é rebatida por Markey e Ocasio-Cortez, que sustentam que é a manutenção de uma indústria poluente que pode causar prejuízos à economia — já que a intensificação da mudança no clima deve provocar catástrofes e tornar insustentável o modelo atual a médio prazo.

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é a estimativa de perda anual na economia dos EUA em 2100, segundo relatório da Fourth National Climate Assessment citado na resolução

Entre os democratas, Ocasio-Cortez tem estimulado colegas que avaliam concorrer à eleição presidencial em 2020 a apoiar o plano durante a campanha — o que deve servir como teste para o lançamento de outras políticas progressistas capitaneadas pela legenda. A ideia enfrenta resistência de integrantes do partido mais ligados ao establishment.

Por ora, no Congresso, a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, disse que não levará o plano para votação em sua forma atual. Por outro lado, no Senado, o líder da maioria, o republicano Mitch McConnell, quer votá-la desde já — a ideia é tentar “minar” o projeto enquanto ele ainda está em debate, dizem analistas.

O presidente Donald Trump afirmou que, se aprovado, o Green New Deal “acabaria com carros e voos aéreos” e que as indústrias do país migrariam para a China. “É como o sistema funciona”, disse. Durante o mandato, Trump negou a mudança climática, deu incentivos para indústrias poluentes e tirou os EUA do acordo do clima de Paris.

Quem é Alexandria Ocasio-Cortez

Nascida e criada no Bronx, distrito de Nova York, Ocasio-Cortez tem 28 anos e origem latina — sua mãe é porto-riquenha e seu pai, americano. Estudou economia e relações internacionais na Universidade de Boston e, nesse período, trabalhou com o ex-senador democrata Ted Kennedy.

Eleita na onda de novas candidaturas femininas que venceram as eleições de meio de mandato de 2018, fez uma campanha ligada às bases e focada na mensagem de “dignidade social, econômica e racial para os trabalhadores americanos, especialmente do Queens e do Bronx”.

“Quando minha família estava à beira da execução da hipoteca [após a crise em 2008], comecei a trabalhar como garçonete. Entendo a dor dos americanos da classe trabalhadora porque experimentei essa dor”

Alexandria Ocasio-Cortez

deputada americana, em entrevista à rede de televisão MSNBC

A deputada integra a organização socialista The Democratic Socialists of America e faz parte de uma ala jovem e “radical” à esquerda, formada recentemente no Partido Democrata. Para integrantes da legenda, sua vitória nas primárias contra um veterano, Joseph Crowley, foi uma conquista dos “democratas progressistas contra os corporativos”.

Na campanha, Ocasio-Cortez fez duras críticas a Donald Trump e defendeu a abolição da polícia migratória nos Estados Unidos, assistência médica para todos os americanos, ensino superior gratuito e garantia universal de empregos, além do combate à mudança do clima.

“Acredito que todo americano deve ter acesso à moradia digna; a plano de saúde; à educação — [acredito] que as necessidades mais básicas da vida moderna deveriam ser garantidas em uma sociedade ética”

Alexandria Ocasio-Cortez

deputada americana, em entrevista ao portal The Cut

Para o site City & State New York, o sucesso de Ocasio-Cortez pode ser atribuído à ideologia progressista, à demografia dos bairros onde concorreu e ao uso inteligente e não convencional das redes sociais. A campanha se destacou entre pessoas mais jovens, negras e latinas.

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