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O catálogo com a memória gráfica da arquitetura de Olinda

Cobogós, gradis, azulejos e ladrilhos hidráulicos que adornam casas da cidade histórica pernambucana foram fotografados e compõem mapa afetivo de designer olindense

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Natural da cidade de Olinda, em Pernambuco, a designer Renata Paes concluiu seu curso de design na Universidade Federal de Pernambuco no fim de 2017, com o trabalho Memória Gráfica da Arquitetura de Olinda, um catálogo que registra elementos gráficos da arquitetura da cidade.

O material não se resume a um levantamento técnico ou ilustrado: passa pela memória afetiva que a designer estabeleceu com esses elementos e com a cidade natal desde a infância.

“Caminhava na cidade desde pequena com meu pai, que era arquiteto, e ele me contava e apontava detalhes do casario da cidade. Sei decorado qual casa tem tal tipo de ladrilho, como é a grade da casa dos meus amigos, quem tem ou não cobogó em casa...se tornou um vício”, disse ao Nexo.

Depois da entrega do trabalho de conclusão, Paes continuou a perambular e fotografar, aumentando o catálogo, que será publicado em livro em 2019 pela Companhia Editora de Pernambuco, a Cepe.

O centro histórico de Olinda foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1968 e é reconhecido como Patrimônio Mundial Cultural pela Unesco desde 1982.

Nas centenas de fotos que tirou de detalhes gráficos das construções desse patrimônio, Paes estabeleceu como foco principal de seu projeto elementos modulares: cobogós, ladrilhos hidráulicos, gradis e azulejos.

O que é cada um

Cobogó

 

 

Surgido em Pernambuco em 1920, o cobogó foi inspirado pelos muxarabis árabes e tem a função de trazer luminosidade e ventilação para a construção.

Sua denominação vem das iniciais do sobrenome de seus três criadores: o comerciante português Amadeu Oliveira Coimbra, o cidadão alemão Ernest August Boeckmann e o engenheiro recifense Antônio de Góes. Foi implantado de forma pioneira pelo arquiteto Luiz Nunes em seu projeto modernista da caixa d’água de Olinda, de 1934.

 

Ladrilho hidráulico

 

 

Surgido na metade do século 19 no sul da Europa, o ladrilho hidráulico chegou a Pernambuco em meados de 1820 como substituição à pedra, principalmente ao mármore.

Trata-se de um revestimento para pisos (utilizado atualmente também em paredes), feito de forma individual e artesanal.

Confeccionado à base de cimento, pó de pedra, areia fina, pigmentos minerais e água, não precisa de forno para cura, uma vez que o processo é feito na água, tornando-o um produto de baixo impacto ambiental.

Gradil

 

 

Os gradis surgiram no Brasil no período barroco. Por não existirem ainda fundições no país, tinham a princípio desenhos menos rebuscados. Seu uso teve relação com a proibição, por D. João 6º, das treliças de madeira, por questões de saúde da população.

Há dois tipos de produção desse elemento: os de ferro fundido e os de ferro forjado. Os de ferro forjado são produzidos artesanalmente, por serralheiros.

 

Em Olinda, as grades aparecem delimitando sacadas, em parapeitos, bandeiras de janelas e portas, com função decorativa ou de proteção. Também delimitam espaços como jardins e terrenos laterais, em “meias paredes” para proteger sem impedir a visão e a ventilação.

Azulejo

 

 

Esse elemento cerâmico de revestimento é constituído por uma placa de barro cozida e vitrificada. É utilizado como proteção contra a erosão, uma vez que isola a superfície, e atua como refletor de calor, diminuindo a temperatura, além de sua alta durabilidade.

O azulejo colonial chegou ao Brasil por volta dos séculos 17 e 18. Foi trazido pelos portugueses em seus navios, onde também eram utilizados como lastro, servindo de peso para dar sustentação às embarcações.

 

Em Olinda, azulejos estão presentes em fachadas do casario, como um elemento único de repetição em painéis mono ou policromáticos que criam um padrão gráfico.

Qual o estado de conservação

“Nas ruas principais aqui da cidade, esses elementos se encontram bem mais preservados do que nas ruas mais afastadas. Isso se dá tanto pela degradação dos imóveis, pelas reformas feitas pelos moradores sem autorização da prefeitura quanto pela má administração de bens públicos”, disse Paes ao Nexo.

Segundo ela, os ladrilhos estão sendo substituídos pelas cerâmicas, os azulejos são roubados ou caem e sua reposição é bem difícil. Os cobogós são retirados em meio a reformas ou mesmo tapados com cimento.

“Acho que, dos quatro elementos, o gradil é o mais bem preservado, salvo pela troca, em ruas afastadas, pelos portões de alumínio”, diz Paes.

Sobre intervenções gráficas contemporâneas feitas na cidade, como pichações e grafites, e seu diálogo com o patrimônio, Paes é favorável à abertura ao diálogo entre as formas antigas e novas.

“Criminalizar a pichação e o grafite, como já foi feito pela prefeitura da cidade, é um retrocesso. Considero as duas formas de expressão gráfica artísticas, manifestantes e comunicativas e, por isso, são imprescindíveis”, diz a designer.

Segundo ela, discute-se a liberação de áreas específicas da cidade para serem grafitadas, mas não se fala em diálogo com os pichadores.

“É briga velha por aqui e ainda carece de muita reflexão, mas acredito que educação patrimonial e abertura sincera para o diálogo com os artistas seria um bom começo”, diz Paes.

 

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