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Como a Vale estimou os efeitos da ruptura de suas barragens

Documento entregue pela mineradora ao Ministério Público de Minas Gerais calculou custos da empresa com tragédias e quantidade de mortes para cada estrutura que ruísse

     

    Em 31 de janeiro de 2019, quase uma semana após a ruptura da Barragem 1 da Vale, em Brumadinho (MG), que deixou 166 mortos e 155 desaparecidos, o Ministério Público de Minas Gerais ajuizou uma ação civil pública exigindo que a mineradora tomasse uma série de precauções em relação à segurança de todos os demais reservatórios da empresa que corriam risco de ruir.

    Segundo a Promotoria, a Vale apresentou ao órgão um documento datado de outubro de 2018 que mostrava que, de 57 barragens, dez estavam dentro de uma zona de atenção, ou seja, possuíam “severo risco de rompimento”. A Barragem 1, do Complexo da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e sua vizinha 4-A, que foi afetada pela ruptura, estavam na lista.

    Em relação às outras oito estruturas, os promotores pediram que a mineradora:

    • Realizasse uma auditoria técnica de estabilidade
    • Apresentasse um plano de ação de forma a “neutralizar todo e qualquer risco à população e ao meio ambiente”
    • Executasse todas as medidas necessárias para garantir a estabilidade e a segurança das barragens
    • Entregasse planos de ações emergenciais
    • Informasse ao órgão o nome de todas as pessoas cadastradas como residentes na zona de autossalvamento (região logo abaixo das estruturas, a uma distância de até 10 km, onde a onda de rejeitos chegaria em até meia hora, sem a possibilidade de salvamento a tempo realizado por equipes de resgate)
    • Comunicasse toda a população nas áreas de autossalvamento e realocasse, em caráter provisório e emergencial, quem assim desejasse

    O Ministério Público também pedia sigilo na ação, para não criar “pânico geral” na população. Em 1º de fevereiro, a Justiça deferiu os pedidos e determinou que a Vale cumprisse as medidas.

    O que diz o documento da Vale

    As análises entregues pela mineradora, às quais o Nexo teve acesso, foram feitas pelo setor de Gestão de Risco Geotécnico (GRG) da empresa. Elas traziam vários detalhes sobre as condições das estruturas da empresa.

    As zonas de atenção

    Em novembro de 2017, um painel internacional de especialistas que analisou 23 barragens da Vale colocou quatro delas dentro da zona de atenção e duas acima dessa região (ou seja, com risco maior de rompimento). Já em outubro de 2018, dez reservatórios apareciam com risco severo. Isso significa que, no período de um ano, o número de estruturas que apresentavam risco pulou de seis para dez.

    Número de mortes

    O documento também calculou o número de mortes, considerando 57 barragens. O cálculo leva em conta que as tragédias ocorreriam em dias de sol (com chuvas, as barragens podem transbordar, o que agravaria o cenário). Também considerou cenários com alerta e falta de alerta (como de fato ocorreu em Brumadinho, onde as sirenes não foram acionadas).

    • Sem alerta: de 57 barragens, 28 poderiam causar de 0 a 10 mortes; quatro matariam de 10 a 100 pessoas; 17 causariam de 100 a 1.000 mortes; oito fariam mais de 1.000 vítimas

    • Com alerta: do total, caso as sirenes funcionassem, 46 deixariam de 0 a 10 mortos, oito causariam de 10 a 100 mortes, três poderiam matar de 100 a 1.000 pessoas e nenhuma seria capaz de fazer mais de 1.000 vítimas, o que demonstrava à empresa a importância de alertas nas áreas potencialmente atingidas

    No caso da Barragem 1, a Vale previa entre 100 e 200 mortes. As com maior potencial de mortes seriam as barragens Forquilhinha 1, 2 e 3, todas em Ouro Preto (MG).

    As possíveis causas de ruptura

    O trabalho também classificou os fatores que poderiam levar as estruturas ao colapso.

    • Erosão interna: 26 barragens corriam risco

    • Liquefação: 9

    • Transbordamento: 9

    • Instabilização (ruptura por falta de estabilidade): 13

    Os custos das rupturas

    A Vale também havia calculado os prejuízos financeiros que cada barragem poderia ocasionar. Em caso de colapso da Barragem 1, a consequência seria um gasto de US$ 1,5 bilhão, o equivalente a R$ 5,6 bilhões. As prováveis causas para uma ruptura dessa estrutura seriam erosão interna e liquefação. O maior prejuízo se daria com a barragem Norte/Laranjeiras, em Barão de Cocais (MG), que causaria gastos de US$ 6,4 bilhões (R$ 23,8 bilhões).

    O que a Vale diz

    Ao jornal Folha de S.Paulo, a mineradora afirmou que os estudos de “risco e demais documentos elaborados por técnicos consideram, necessariamente, cenários hipotéticos para danos e perdas”. Também disse que não existia em nenhum documento “qualquer menção a risco de colapso iminente da barragem”. Segundo a empresa, a estrutura tinha “todos os certificados de estabilidade e segurança”.

    A “zona de atenção” de que os documentos tratam significa, segundo a Vale, que os técnicos tinham apontado recomendações a serem feitas nas estruturas que eram assim classificadas, “mas não risco iminente”.

     

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