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3 momentos do teatro no Brasil com a marca de Bibi Ferreira

Em homenagem a sua trajetória, o ‘Nexo’ selecionou três momentos da carreira da atriz que também dizem respeito à história do teatro brasileiro no século 20

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    A atriz Bibi Ferreira morreu na quarta-feira (13), de uma parada cardíaca, aos 96 anos. Ela estava em sua casa no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, quando passou mal.

    Considerada a diva do teatro musical brasileiro, Bibi permaneceu em atividade profissional até seu último ano de vida – anunciou seu afastamento dos palcos em setembro de 2018, por motivos de saúde.

    Desde a década de 1990, a atriz e cantora vinha se apresentando em espetáculos como “Bibi in concert”, de 1991, e “4x Bibi”, de 2016, que resgataram sua trajetória, na qual tiveram destaque os musicais.

    A atriz esteve nos palcos desde a infância e fez sua estreia profissional em 1941, aos 18 anos, na peça “La Locandiera”, de Carlo Goldoni. No ano seguinte, já tinha sua própria companhia de teatro.

    Nas décadas de 1940 e 1950, a atriz se tornou uma das primeiras mulheres a dirigir teatro no Brasil.

    Estreou na função com a peça “Fizemos divórcio”, de 1947, grande sucesso que tinha seu pai, Procópio Ferreira, no elenco. Dirigiu, em 1954, a estreia de “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues e, na década de 1960, as montagens nacionais dos musicais “My Fair Lady” e “Alô, Dolly”, além de ter sido a estrela de ambos.

    Além de atuar e cantar, continuaria a dirigir espetáculos importantes nas décadas seguintes.

    O Nexo lista abaixo três momentos da carreira da atriz que dizem respeito também à história do teatro brasileiro no século 20.

    A família teatral no início do século 20

     

    Apelidada de Bibi, Abigail Izquierdo Ferreira nasceu em junho de 1922, no Rio de Janeiro, filha da bailarina espanhola Aída Izquierdo e do ator Procópio Ferreira, um dos responsáveis pela profissionalização do ofício de ator no país.

    Além dos pais artistas, seus tios e avós também viviam do circo e do teatro. Sua primeira aparição nos palcos foi aos 24 dias de idade.

    Bibi entrou em cena nos braços da madrinha, a atriz Abigail Maia, substituindo uma boneca de pano que havia sido perdida e que era utilizada  em uma cena da peça “Manhãs de sol”, de Oduvaldo Vianna, pai do também dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho.

    Aos 3 anos, passou a animar os entreatos das peças da Companhia Velasco, na qual sua mãe passou a atuar após a separação de Procópio.

    A infância da atriz foi atravessada ainda por estudos de ópera, piano e violino. Entre os 7 e 14 anos, participou do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio.

    A origem familiar da trajetória artística de Bibi não era exceção naquele período do teatro brasileiro.

    “Habitualmente associada ao universo circense, a formação pelo aprendizado familiar é de grande importância na história do teatro brasileiro, tanto no século 19 como ao longo do século 20”, diz um artigo apresentado no 28º Simpósio Nacional de História, em 2015, pela pesquisadora Angela de Castro Reis.

    A primeira escola de teatro do Brasil foi fundada em 1908. Antes disso, não havia educação teatral formal: o aprendizado profissional de atores e atrizes se dava por meio da prática e da formação familiar.

    As dinastias de trabalhadores do teatro brasileiro, entre as quais Angela Reis cita a família de Bibi Ferreira, têm a ver com essa contingência histórica.

    A tradição do aprendizado familiar também esteve presente em momentos importantes do teatro mundial, como a Commedia dell’Arte (teatro popular surgido na Itália entre os séculos 15 e 16). Começou a ser substituída na Europa pela implantação de novas estruturas teatrais a partir do fim do século 19.

    No Brasil, a tradição familiar permaneceu durante boa parte do século 20. Isso começou a mudar com a regulamentação da profissão de ator, na década de 1970, que trouxe novas exigências.

    Segundo Angela Reis, esse modelo de aprendizado praticamente desapareceu, mas ainda ecoa na cena teatral brasileira, como mostra a trajetória de Bibi.

    A chegada dos musicais da Broadway nos anos 1960

    Ferreira inaugurou a adaptação dos musicais americanos para os palcos brasileiros, produções que se tornaram grandes sucessos de público no país.

    Sua montagem de “My Fair Lady”, de 1962, em que contracenou com Paulo Autran, foi o primeiro musical da Broadway versionado e adaptado para o público brasileiro.

     

    Com os musicais, se tornou a grande atriz do teatro musical brasileiro de sua época. O impacto dessas produções e a influência da atriz atravessaram décadas e diferentes gerações de atores.

    “My Fair Lady” ficou em cartaz dois anos e meio: 14 meses no Rio de Janeiro, e em seguida São Paulo e Buenos Aires.

    O teatro politizado da década de 1970

    No teatro brasileiro e na carreira de Bibi, a magia e o entretenimento leve dos musicais foram atravessados pelo golpe de 1964 e pela ditadura militar.

    Também em 1964, Ferreira conheceu o dramaturgo e ativista paraibano Paulo Pontes, recém-chegado ao Rio, com quem estabeleceu uma  parceria amorosa e artística.

    Dela resultaram obras importantes como “Brasileiro, profissão: esperança”, musical de 1970 escrito por Pontes e Oduvaldo Vianna Filho, e dirigido por Bibi, e “Gota d’água”, de autoria de Paulo Pontes e Chico Buarque, em que Bibi interpreta Joana – papel que é considerado um dos maiores, senão o maior, de sua carreira.

     

    Em 1976, Bibi dirigiu Walmor Chagas, Marília Pêra, Marco Nanini e outros 50 artistas em “Deus lhe Pague”, de Joracy Camargo.

    Desde o fim da década de 1950, a cultura brasileira vinha passando por um intenso processo de politização que, nas artes cênicas, teve início com a fundação do Teatro de Arena, em 1953, e culminou no Teatro de Resistência, que floresceu durante os anos 1970, após o AI-5, e fazia oposição ao regim militar. 

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