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Os ataques do ministro do Meio Ambiente a Chico Mendes

Em programa de TV e em entrevista a jornal, Ricardo Salles investe contra ambientalista acriano, assassinado em 1988

    O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é alvo de questionamentos desde que entrou para o primeiro escalão do presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019. Isso porque é declaradamente um aliado do agronegócio, um setor que, em várias questões, se contrapõe a ambientalistas. 

    Na campanha eleitoral, foi candidato a deputado federal pelo Novo de São Paulo e chegou a divulgar um material de campanha no qual sugeria que trataria a bala “a praga do javali”, “as esquerdas e o MST”, “o roubo de trator, gado e insumos” e “a bandidagem no campo”. Abriu mão do material após uma advertência do partido.

    Na segunda-feira (11), ele foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. Já ao fim da entrevista, foi perguntado sobre sua opinião a respeito de Chico Mendes, ambientalista brasileiro, com atuação de destaque nos anos 1970 e 1980, que morreu assassinado.

    “Eu não conheço Chico Mendes, eu tenho um certo cuidado de falar sobre coisas que eu não conheço. Eu escuto histórias de todo lado. Do lado dos ambientalistas mais ligados à esquerda, um enaltecimento do Chico Mendes. As pessoas que são do agro, que são da região, dizem: ‘olha, Chico Mendes não era isso que é contado’ ”

    Ricardo Salles

    ministro do Meio Ambiente, nesta segunda (11)

    A jornalista Cristina Serra perguntou: “o que o pessoal do agro diz para o senhor sobre Chico Mendes?”

    “[Disseram que] Chico Mendes usava os seringueiros para se beneficiar, fazia uma manipulação da opinião ali”

    Ricardo Salles

    ministro do Meio Ambiente

    O apresentador do programa, Ricardo Lessa, questionou o ministro: como Chico Mendes poderia explorar os seringueiros se morreu pobre?

    “O fato é que é irrelevante [discutir isso]. Que diferença faz quem é Chico Mendes neste momento?”

    Ricardo Salles

    ministro da Meio Ambiente

    Criticado, Salles não voltou atrás e reafirmou sua posição. “O pessoal do agro, que conhece a região, diz que ele era grileiro”, disse ao jornal O Globo, nesta terça-feira (12). Grileiro é quem toma posse de terras usando documentos falsos, uma prática ilegal. O ministro não apresentou evidências da acusação contra o ambientalista.

    Quem é Ricardo Salles

    Salles admitiu nunca ter ido à Amazônia. Sua primeira viagem à região, que teria início nesta quarta-feira (13), foi cancelada. Como ministro, já determinou a suspensão por três meses de todas as parcerias do ministério com ONGs ambientais e disse que vai fazer um pente fino nos contratos desses convênios.

    Salles bloqueou no Twitter alguns integrantes de grandes entidades ambientalistas do Brasil, como o Observatório do Clima e Greenpeace. Criticado, afirmou que permanece aberto a “ambientalistas sérios”.

    Crítico do licenciamento ambiental, Salles afirma que é preciso discutir mudanças no Congresso. Para ele, há um “excesso de burocracia” que atrasa projetos e não resolve os problemas, citando como exemplo de fracasso o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), que matou pelo menos 165 pessoas.

    O ministro diz que é preciso focar no licenciamento de projetos de médio e alto impacto, enquanto os de baixo impacto possam ter uma autodeclaração — o empreendedor declara seguir a lei, se sujeita a fiscalização posterior e a obra pode prosseguir.

    Salles foi secretário estadual do Meio Ambiente em São Paulo entre 2016 e 2017, na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB). Ele tem formação na área de direito público e de administração de empresas.

    Em dezembro de 2018, foi condenado na esfera civil por improbidade administrativa, a respeito de um plano para a área de preservação do rio Tietê, na Grande São Paulo, quando era secretário estadual.

    Segundo a Justiça, o plano trazia potenciais danos ambientais e houve intimidação de funcionários e manipulação de documentos. Salles nega irregularidades e está recorrendo da decisão.

    O meio ambiente e Bolsonaro

    Durante e mesmo depois da campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro considerou unir em uma só pasta os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, a fim de, segundo ele, pôr fim a “brigas” entre as duas áreas. O presidente é aliado da bancada ruralista no Congresso.

    Bolsonaro enfim voltou atrás e anunciou que iria manter a pasta ambiental. Ricardo Salles foi o último dos 22 ministros que ele anunciou.

    O presidente chegou a considerar retirar o Brasil do acordo climático de Paris, firmado em 2015 e que define metas para impedir grande aumento de temperatura global a longo prazo. Depois, o governo Bolsonaro voltou atrás e reafirmou o compromisso com o acordo.

    Em diversas ocasiões, Bolsonaro disse existir no Brasil um “ativismo xiita” no setor do meio ambiente e uma indústria da multa ambiental.

    Quem foi Chico Mendes

    Nascido em 1944 em Xapuri, no interior do Acre, Chico Mendes trabalhou como seringueiro, mesmo ofício da sua família.

    Em 1977, já um líder local, fundou o sindicato de trabalhadores rurais de Xapuri e se elegeu vereador pelo MDB. Ele protestava contra as condições de trabalho de seringueiros e outros profissionais rurais e contra o desmatamento, fazendo manifestações para impedir a devastação de áreas da floresta.

    Defendia a ideia de “união dos povos da floresta”. Para ele, a preservação da Amazônia exigia a proximidade entre indígenas, seringueiros, populações ribeirinhas e demais populações cujo sustento dependia da floresta, para criarem áreas de preservação e exploração sustentável.

    Ajudou a fundar o PT em 1980 e tentou duas vezes se eleger deputado estadual, mas não conseguiu. Ele chegou a participar de debates na Assembleia Constituinte, em Brasília, sobre a temática ambiental.

    Em 1987, foi condecorado pelas Nações Unidas com o prêmio Global 500, pelo seu trabalho a favor da preservação ambiental.

    Chico Mendes foi morto a tiros na frente de casa em 1988, por um fazendeiro. O ambientalista já havia relatado sofrer ameaças de morte. Dois fazendeiros, pai e filho, foram condenados e presos dois anos depois.

    Após a morte, seu trabalho ganhou mais fama nacional e internacional. Chico Mendes foi um dos precursores do movimento ambientalista brasileiro e é a maior referência histórica do setor no país. Em 2013, ele foi reconhecido oficialmente, por lei federal, como “patrono do meio ambiente brasileiro”.

    O ambientalista dá nome ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão federal criado em 2007 e responsável por gerir parques nacionais e reservas. O instituto está sob a alçada do Ministério do Meio Ambiente, hoje comandado por Salles.

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