Foto: Valter Campanato /Agência Brasil

Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, posa com Bolsonaro no dia da posse do presidente
Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, posa com Bolsonaro no dia da posse do presidente

Jair Bolsonaro se tornou conhecido pelos embates com a esquerda e com petistas, pelas ideias conservadoras nos costumes, pela exaltação da ditadura militar e pela defesa do aumento da repressão na área de segurança pública como forma de lidar com a questão da violência. Foi assim que conquistou seus primeiros seguidores fiéis.

 

Mas para passar de deputado federal do baixo clero a candidato presidencial viável, acrescentou ao discurso, nos anos mais recentes, o elogio ao livre mercado e a redução da participação do Estado na economia, num viés chancelado por Paulo Guedes, seu guru liberal. 

 

Essa ampliação foi importante para que Bolsonaro atraísse apoio de outros setores da sociedade e obtivesse 58 milhões de votos nas eleições de outubro de 2018, vencida por ele no segundo turno. Esse discurso, no entanto, começa a se chocar com um de seus aliados de primeira hora: os representantes do agronegócio.

 

O presidente conquistou o apoio de empresários do setor rural ao se comprometer, por exemplo, com a flexibilização da posse de arma de fogo e com o afrouxamento de regras ambientais. Eleito, nomeou uma representante da bancada ruralista, Tereza Cristina, para o Ministério da Agricultura. E foi além. Nomeou um nome simpático ao agronegócio para comandar o setor do Meio Ambiente: Ricardo Salles.

 

O setor rural é responsável por cerca de 40% de tudo que o Brasil vende para o exterior e tem interesse tanto na política econômica, comandada pelo agora ministro Paulo Guedes, quanto nas relações internacionais, comandada pelo chanceler Ernesto Araújo. E os projetos tanto de Guedes quanto de Araújo esbarram nos interesses do agronegócio.

A política de Bolsonaro

Economia

Formado na tradicional Escola de Chicago, Paulo Guedes construiu um plano de governo de viés liberal – ou ultraliberal, na visão de adversários. O ministro acredita que o melhor para o Brasil é a redução de barreiras comerciais, de subsídios e outros mecanismos que estariam distorcendo a economia. Isso atinge diretamente o agronegócio, para quem subsídios internos e taxações de produtos externos são centrais.

Relações internacionais

O Itamaraty é considerado da cota de valores pessoais do presidente da República. A escolha de Ernesto Araújo foi feita a partir de indicação do escritor Olavo de Carvalho. A proposta do chanceler é que o país apareça mais ligado aos Estados Unidos e à administração de Donald Trump do que à China, maior importador de produtos agrícolas do Brasil. Mais ligado a Israel do que aos países do Oriente Médio, importantes compradores de produtos agropecuários nacionais.

O agronegócio e os subsídios

Uma das propostas da equipe econômica é reduzir ou acabar com linhas de crédito subsidiado. Durantes muitos anos, bancos públicos ofereceram, a diversos setores da economia, empréstimos com taxas abaixo do que era cobrado no mercado.

Na visão de Paulo Guedes e de seus principais assessores, quando o governo direciona parte dos recursos para determinadas atividades com taxas mais baixas, reduz o total disponível. Assim, sobra menos para o resto da economia e os juros gerais ficam ainda mais altos.

“Nós, economistas liberais, não gostamos disso [crédito subsidiado]. Achamos que isso distorce a economia, a rentabilidade do capital, distorce a alocação de investimento, derruba a taxa de crescimento, transfere renda perversamente”

Paulo Guedes

Ministro da Economia, durante a posse dos presidentes dos bancos públicos

Semanas depois, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, disse acreditar que o “grosso da atividade rural” pode ser financiado a taxas de mercado. O Banco do Brasil é o maior fornecedor de crédito para o agronegócio no país. Quase metade dos R$ 188 bilhões fornecidos em 2018 veio com taxas subsidiadas. A diferença entre a taxa de mercado e o juro cobrado do produtor custou R$ 5 bilhões.

Um eventual corte de subsídios teria como um dos alvos o Plano Safra, onde o governo define anualmente o montante que será disponibilizado para o crédito rural e as taxas a serem praticadas.

A possibilidade de mudança provocou reações do setor e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, disse que um corte abrupto de subsídios pode desarranjar o setor.

“Temos que ter muito cuidado porque estamos falando de 20% do PIB, que é o agronegócio que faz. Como é que isso [retirada do subsídio] vai se dar? Em quanto tempo isso vai acontecer? É uma medida radical? Eu brinco até que é um desmame. Você pode fazer o desmame radical e o controlado. Ainda está muito no campo das nossas ideias de lá e de cá. As nossas equipes estão sentando agora para discutir”

Tereza Cristina

Ministra da Agricultura

O agronegócio e o protecionismo

A agenda liberal de Paulo Guedes também prevê a abertura da economia brasileira e a redução de medidas protecionistas. Nesse sentido, a Secretaria de Comércio Exterior suspendeu uma tarifa sobre importação que era cobrada sobre o leite importado da União Europeia e da Nova Zelândia.

A taxa, de 14,8% para a Europa e 3,9% para a Nova Zelândia existia para combater um suposto dumping praticado pelos produtores desses mercados – venda do produto abaixo do preço internacional para vencer a concorrência. A cobrança existe no Brasil desde 2001.

A medida gerou reação dos representantes do agronegócio. Em um vídeo divulgado na internet, o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) pressionava o governo a voltar atrás na medida, alegando que ela vai prejudicar os produtores brasileiros. O deputado apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018.

“Eu quero dizer a ele, o ministro Paulo Guedes: você proteger a economia europeia ou a Nova Zelândia prejudicando o produtor de leite no Brasil é uma facada no peito do setor que primeiro apoiou Bolsonaro e que queria um Brasil melhor. Não vai ser tirando o emprego do produtor e do trabalhador de leite que nós vamos melhorar o Brasil. O governo tem que voltar atrás rápido”

Alceu Moreira

deputado federal (MDB-RS)

Na tarde de segunda-feira (11), diferentes órgãos de imprensa divulgaram que o presidente, pressionado pelos produtores, determinou que Guedes reavalie a situação. Em seu Twitter, Bolsonaro postou uma imagem com a manchete “Bolsonaro determina a Guedes voltar com taxa antidumping do leite em pó” e escreveu que a notícia era uma “canalhice”. Não houve negativa formal da informação. Divididos entre os que são contra e a favor da pauta do setor, seguidores do presidente questionavam: “determinou ou não?”.

 

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o deputado Alceu Moreira, que também é presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, disse que o governo vai aumentar, até quinta-feira (14) a taxação do leite em pó da União Europeia para compensar o fim da cobrança antidumping. Na tarde de terça (12), o presidente usou seu Twitter para falar com os produtores de leite e dizer que "o governo manteve o nível de competitividade do produto com outros países" e que "todos ganharam, em especial, os consumidores do Brasil". Bolsonaro não detalhou as medidas.

O agronegócio e os Estados Unidos

A política internacional também causa temores nos empresários e representantes do agronegócio. Desde que Bolsonaro chegou ao poder, o Itamaraty e políticos próximos ao presidente Jair Bolsonaro têm trabalhado por um alinhamento com os Estados Unidos. A questão é que, no agronegócio, os americanos são grandes concorrentes do Brasil.

O alinhamento com os americanos também poderia causar desconforto com a China, rival dos Estados Unidos e maior compradora de produtos agrícolas do Brasil. Em 2018, cerca de 80% de toda soja exportada pelo país foi para os chineses.

A ministra Tereza Cristina, da Agricultura, afirmou que não é contrária a um alinhamento com os Estados Unidos. Ela ressaltou, porém, que “não podemos esquecer que nesse setor somos competidores”. Disse ainda que está “ajustando relacionamento” com a China.

“Houve um mal-estar no começo do governo com algumas declarações. Então, estamos conversando, recebemos já o embaixador [da China], eu vou marcar uma viagem para a China em breve. O mercado internacional é de profissionais, não tem ninguém bonzinho nisso, então pega uma palavra... É um jogo de gente grande sofisticadíssimo. Temos que solidificar os nossos mercados já existentes e abrir outros. Isso é uma decisão que nós vamos ter que decidir internamente de política agrícola”

Tereza Cristina

Ministra da Agricultura

O agronegócio e Israel

A política internacional do governo Bolsonaro também pode causar prejuízo na relação com os países árabes.

No fim de janeiro, a Arábia Saudita anunciou a suspensão da compra de frangos de alguns frigoríficos brasileiros. A justificativa oficial é de que o embargo foi motivado por razões técnicas, apesar de os produtores afetados negarem problemas.

Em Davos, contrariando o discurso oficial, o ex-secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, disse que a medida era sim uma "expressão de protesto" contra o Brasil. O principal motivo seria a aproximação do Brasil com Israel e a promessa do presidente Jair Bolsonaro de mudar a embaixada no país de Tel-Aviv para Jerusalém.

“Essa é uma expressão de protesto contra uma decisão errada por parte do Brasil. Muitos de nós não entendemos o motivo pelo qual o novo presidente do Brasil trata o mundo árabe desta forma”

Amr Moussa

ex-secretário-geral da Liga Árabe

No fim de janeiro, o governo da Arábia Saudita reclamou oficialmente com o Brasil sobre a possível mudança da embaixada. Bolsonaro ainda não oficializou a decisão.

 

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