Foto: Sergio Moraes/Reuters

Adversários no primeiro turno da eleição de 2002, Lula e Ciro se abraçam em debate
Adversários no primeiro turno e aliados no segundo em 2002, Lula e Ciro se abraçam em debate
 

Em um discurso inflamado durante evento da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Salvador, na quinta-feira (7), Ciro Gomes escreveu mais um capítulo de sua disputa recente com o PT. Candidato do PDT derrotado na mais recente eleição presidencial, em outubro de 2018, o ex-governador do Ceará e ex-ministro dos governos Itamar Franco e Luiz Inácio Lula da Silva discutiu com a plateia e criticou os petistas.

Ciro disse que parte da esquerda que defende Lula não reflete sobre os erros do PT e do ex-presidente. “O totem deles não responde mais”, afirmou. Desde a eleição de 2018, o antigo aliado tenta disputar com Lula, preso pela Operação Lava Jato, o papel de protagonista na oposição ao governo de Jair Bolsonaro e a hegemonia entre os eleitores de esquerda e centro-esquerda no país.

“Tem coisa mais chata do que um jovem estar num bar defendendo corrupto? Imagina um jovem num bar agora obrigado a defender corrupção, ladroeira, aparelhamento do Estado, fisiologia, formação de quadrilha”

Ciro Gomes

ex-governador do Ceará

O discurso de Ciro foi feito um dia depois de o ex-presidente Lula ser condenado pela segunda vez na Lava Jato. Pelo caso das reformas no sítio de Atibaia, a juíza substituta Gabriela Hardt condenou Lula a 12 anos e 11 meses de prisão. Os crimes imputados são de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Lula está preso desde abril de 2018 em Curitiba por conta da condenação a 12 anos e 1 mês em outro processo, envolvendo um apartamento no Guarujá.

Ao ser chamado de corrupto por um integrante da plateia enquanto criticava o PT, Ciro rebateu citando diretamente Lula.

“Eu não sou [corrupto] não, eu estou solto, 38 anos de vida pública e nunca respondi por nenhum malfeito. Eu sou limpo! Engole! O Lula está preso, babaca!”

Ciro Gomes

ex-governador do Ceará

A frase é uma reprodução da fala de seu irmão Cid Gomes, senador pelo Ceará, em outubro de 2018, durante um evento de campanha. Com o candidato do PT, Fernando Haddad, disputando o segundo turno da eleição presidencial contra Bolsonaro, Cid praticamente selou a ruptura com o PT ao fazer críticas públicas ao partido, cobrando uma autocrítica aberta sobre os escândalos de corrupção do período em que o partido governou o país (2003-2016).

Até aquele momento, parecia mais provável que Ciro e o PDT apoiassem Haddad na disputa contra Bolsonaro. Ideologicamente, o ex-ministro está mais próximo do PT do que do atual presidente, mas a postura naquele momento deu o tom do que virou a relação entre os ex-aliados que disputam, em teoria, uma fatia parecida do eleitorado.

De um lado, o PT tenta manter a hegemonia que tem na esquerda brasileira desde a década de 1980. Do outro, Ciro tenta cada vez mais se descolar de Lula e seu partido e se colocar como alternativa tanto para os eleitores de esquerda quanto para os que rejeitam o PT. Entre a possibilidade de aliança e as duras críticas feitas no evento da UNE, menos de um ano se passou. O Nexo relembra o processo de ruptura em três passos.

Isolamento na eleição

Desde que Lula teve sua primeira pena confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em janeiro de 2018, sua participação na eleição presidencial passou a ser improvável. A ausência de Lula, então líder isolado nas pesquisas de intenção de voto, abria espaço para outros candidatos de esquerda. E Ciro tratou de tentar ocupar o espaço.

Houve conversas com o PT sobre uma chapa única, mas nenhum dos lados queria abrir mão do candidato principal e a aliança não prosperou. A partir daí, Ciro passou a articular apoios e, segundo ele, Lula passou a bloquear seus caminhos.

Ciro acusa Lula e o PT de sabotarem sua aliança com os partidos do Centrão. O veto teria sido dado pela principal liderança do PR, Valdemar Costa Neto, “orientado pelo Lula”.

“Ele [Lula] está atuando para si. Não é para me prejudicar. Na minha mente, a burocracia do PT, menos o Lula, não está preocupada com o Brasil. A burocracia do PT está preocupada em manter a hegemonia no campo progressista no país. E para eles, qualquer negócio vale.”

Ciro Gomes

em entrevista ao Valor Econômico em 25/07/2018

A disputa ficou ainda mais clara quando Ciro e o PT disputaram uma aliança com o PSB, semanas depois. O PSB tinha conversas adiantadas com o PDT para indicar o vice na chapa, mas foi convencido pelo PT a adotar uma posição de neutralidade na disputa presidencial.

Para que o PSB ficasse neutro, a direção nacional do PT decidiu retirar a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco. A saída da pré-candidata do PT da disputa abria caminho para a reeleição do governador Paulo Câmara (PSB), o que acabou acontecendo.

Ciro foi para a eleição com uma aliança pequena e pouco tempo de TV e passou a culpar o PT por seu isolamento.

Postura no segundo turno

No primeiro discurso de Fernando Haddad após ser confirmado no segundo turno da eleição presidencial, o petista disse que queria “unir os democratas do Brasil” na disputa contra Jair Bolsonaro. Os acenos a Ciro, terceiro colocado no primeiro turno, foram claros, mas pouco efetivos.

Três dias após a votação, o candidato do PT conseguiu o apoio do PDT, partido de Ciro. Mas o candidato evitou o quanto pode comentar a disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Depois de ser derrotado, Ciro Gomes viajou para a Europa e não deu entrevistas.

A sinalização da nova postura do ex-governador em relação ao PT, a Lula e Haddad veio em um comício no Ceará. Em um evento pró-Haddad, Cid Gomes declarou voto no petista, mas fez críticas ao partido. Ao ser vaiado por parte da plateia, disse a frase que virou bordão dos antipetistas e entrou inclusive no programa de TV de Jair Bolsonaro: “O Lula está preso, babaca”.

Ciro Gomes permaneceu em silêncio até a véspera da votação quando, em um vídeo gravado, não declarou o apoio esperado a Haddad. Àquela altura, Bolsonaro tinha cerca de 10 pontos percentuais de vantagem sobre o petista.

“todo mundo preferia que eu, com meu estilo, tomasse um lado e participasse da campanha, mas eu não quero fazer isso por uma razão muito prática que eu não quero dizer agora. Porque, se eu não posso ajudar, atrapalhar é que eu não quero”

Ciro Gomes

em vídeo divulgado na véspera do 2º turno

Oposição não sistemática

Com a concretização da vitória de Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e o PT mais uma vez adotaram posturas diferentes. O partido de Lula e Haddad se colocou, desde o primeiro momento, como resistência ao novo governo. Os parlamentares do partido não participaram da posse de Jair Bolsonaro, alegando que não compactuam “com discursos e ações que estimulam o ódio, a intolerância e a discriminação”.

Por outro lado, em uma crítica indireta ao PT, mencionando uma oposição que torce pelo fracasso do país, o PDT anunciou que pode votar com o governo se considerar que a proposta é importante para o Brasil.

Em entrevista à rádio CBN, no início de dezembro, Cid Gomes acusou mais uma vez o PT de não priorizar o país, mas sim sua hegemonia na esquerda. O irmão de Ciro disse que o partido de Lula usa o Brasil como “um acessório”.

“Nós somos de oposição, mas teremos o cuidado de analisar as propostas que venham do executivo. Se forem boas para o país, não teremos a visão simplória de simplesmente ser contra”

Cid Gomes

em entrevista em 4 de dezembro de 2018

O PDT admite, inclusive, colaborar com o governo Bolsonaro em algumas situações. O economista responsável pelo plano econômico de Ciro e agora deputado federal, Mauro Benevides Filho (PDT-CE), se dispôs a apresentar uma proposta de reforma da Previdência ao secretário responsável pelo projeto do governo.

O líder do PDT na Câmara, André Figueiredo, diz que a grande preocupação é a crise fiscal. O partido de Ciro Gomes tem 28 deputados e 4 senadores. Menos do que os 54 deputados e 6 senadores eleitos pelo PT.

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