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O que há de natureza e imperícia nas perdas da chuva no Rio

Ausência de planejamento urbano e gerenciamento de risco falho são apontados por urbanista como razões para o agravamento dos impactos da tempestade violenta que atingiu a capital fluminense

Uma tempestade que atingiu a cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana na noite de quarta-feira (6) deixou seis mortos.

A chuva forte, acompanhada de ventanias de velocidade próxima à de um furacão, causou deslizamentos, apagões, alagamento de vias e queda de árvores, além de ter feito desabar um trecho da Ciclovia Tim Maia.

É a terceira vez que parte da estrutura desmorona. Outro trecho da ciclovia já havia caído, sem chuva, em abril de 2016 e, após chuvas fortes, em fevereiro de 2018

Na Avenida Niemeyer, que passa pela zona sul da cidade, dois ônibus foram atingidos por deslizamento de terra e árvore.

A chuva teve início por volta das 20h30, quando o Rio entrou em estágio de atenção, segundo nível em uma escala de três que significa a possibilidade de chuva moderada, ocasionalmente forte, nas próximas horas.

Às 22h15, passou ao estágio de crise, que corresponde ao terceiro nível, o mais grave, dessa mesma escala que alerta para chuva forte a muito forte nas próximas horas, com possibilidade de alagamentos e deslizamentos.

Dentre as seis mortes, duas ocorreram em Barra de Guaratiba, uma na Rocinha, uma no Vidigal e duas na Avenida Niemeyer. A comunidade do Vidigal fica na zona sul do Rio de Janeiro. A ciclovia Tim Maia fica na Avenida Niemeyer, que está entre o mar e o Morro do Vidigal. A Rocinha também fica na zona sul da cidade.

‘Uma tempestade atrás de outra tempestade’

Nos bairros onde mais choveu, a precipitação chegou ao dobro do esperado para o mês inteiro.

Segundo uma reportagem do portal G1, a tempestade foi alimentada por três fatores: um sistema de baixa pressão, um cavado e o relevo do município.

O primeiro “suga” ventos e forma nuvens do tipo cúmulos-nimbos, criando áreas de mau tempo. Já os cavados são perturbações atmosféricas que aumentam a chance de tempestade.

Por último, os Maciços da Pedra Branca e da Tijuca represaram as nuvens carregadas, despejando a água nos bairros das zonas oeste e sul, mais voltados para o mar.

A água e o vento “presos” pelos morros junto à costa explicam o grande volume de chuva em três horas: na Rocinha, o volume foi de 165,6 mm, o que representa 189% da média de chuvas em fevereiro.

Quanto aos ventos, a chuva do dia 6 chegou à escala 11, “tempestade violenta”, na Escala Beaufort de intensidade de ventos.

Questionado por jornalistas sobre se a prefeitura sabia que a tormenta seria tão forte, o prefeito Marcelo Crivella disse na quinta-feira (7) que  meteorologistas haviam previsto que a chuva seria de moderada a forte.

“Agora, surpreendentemente atrás daquela tempestade se formou uma outra tempestade. E essa outra tempestade ficou presa, ela não ultrapassou a Floresta da Tijuca e se precipitou toda na zona sul, sobretudo na Rocinha, no Vidigal e no Jardim Botânico”, disse.

Ocupação territorial e infraestrutura urbana

Há cerca de 80 mil famílias vivendo em situação de risco no Rio de Janeiro, segundo afirmou governador do Rio de janeiro, Wilson Witzel (PSC), em entrevista ao G1 na quinta-feira (7), baseado em um levantamento da Defesa Civil.

Witzel criticou o que chamou de “ocupação desordenada” e o abandono de décadas por parte da prefeitura, que não teria feito o suficiente para evitar que construções irregulares, como as comunidades instaladas em encostas de morros, avançassem.

Em um texto publicado em seu blog no UOL nesta quinta-feira (7), o jornalista Leonardo Sakamoto ressaltou já haver tecnologia e protocolos para prever, reduzir e evitar o sofrimento causado por chuvas como essa.

“A não implementação dessas medidas é irresponsabilidade e incompetência de gestores, acumulada ao longo do tempo”, escreveu.

As providências “incluem um sistema de alerta decente, para fazer circular informação rápida e efetivamente horas, dias ou semanas antes de um fenômeno natural, mas também a execução de políticas de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias, campanhas de conscientização quanto ao lixo”.

Em entrevista ao programa Bom Dia Rio também na quinta (7), o prefeito Marcelo Crivella declarou que “às 19h, às 18h, lançamos SMS para quase toda a cidade avisando que haveria uma tempestade”.

Segundo checagem feita pela Agência Lupa, porém, a Secretaria Municipal de Ordem Pública informou que duas mensagens de texto foram disparados pela Defesa Civil do Rio de Janeiro na noite da quarta-feira (6) para avisar sobre a chuva, mas a primeira só foi encaminhada às 20h27, cerca do mesmo horário em que a tempestade teve início.

Na análise da arquiteta e urbanista Tainá de Paula, entrevistada pelo Nexo, o impacto da chuva da noite de 6 de fevereiro sobre a cidade leva a duas questões principais: a ausência de planejamento urbano e as falhas no gerenciamento de risco pela administração. 

De Paula é coordenadora do Br Cidades e integrante do Fórum de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro. O Nexo destaca abaixo, por temas, alguns trechos:

Planejamento no RJ

“Ainda na gestão de Eduardo Paes, o planejamento existente estava muito pautado para os megaeventos e pouco para as ações acumuladas necessárias na cidade.

Crivella fala em um planejamento estratégico de 50 metas, o que para mim já é insuficiente para dar conta de uma cidade como o Rio. Esse planejamento fala genericamente da urbanização de 20 comunidades de baixa renda, que não nomeia.

A única favela de que ele cita de fato é Rio das Pedras, mas fala da remoção. Não toca no ponto central de Rio das Pedras, que é o debate de saneamento. A comunidade nem precisa de um volume de chuva como o da noite passada. Qualquer chuva alaga Rio das Pedras. Tanto os moradores da própria favela quanto do entorno sabem que o transbordo do canal e o retorno do sistema precário de esgoto e drenagem faz com que tenha esse acúmulo tão grande de água.

Autoridades lidam com a favela como se ela fosse desaparecer – o ex-secretário [municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação do Rio de Janeiro] Índio da Costa voltou a falar de desfavelização – quando, na verdade, a gente precisa falar de urbanização, de dar casa e moradia adequada. Para mim, não é natural perder seis pessoas a cada chuva.

As pessoas vão continuar morando nesses territórios, porque existe um problema grave que é a desigualdade urbana e social que está colocada, não existe possibilidade, nem terra, para se construir casas para todas essas pessoas, então falar em retirar as favelas é absurdo, leviano e assassino, mas existem soluções técnicas de infraestrutura e moradia, de baixo custo inclusive, que poderiam ser aplicadas nesses territórios e não o são por escolha política e técnica equivocada”.

Gerenciamento de risco

“Precisamos voltar a falar do nosso gerenciamento de risco no Rio de Janeiro. A gente investiu milhões no Centro de Operações Rio e ele mal dá conta da visualização das áreas da cidade. O Ministério das Cidades tinha um plano de mitigação nacional de risco, que o Rio de Janeiro não conseguiu consolidar.

Temos um mapeamento até bem completo [de áreas de risco] mas que serviu para Eduardo Paes remover pessoas com discurso técnico. Favelas que tinham muito risco não foram tocadas e outras, como a Rocinha, que teve uma vítima por deslizamento de terra nessa chuva, não foram marcadas como áreas de risco.

Não só a Defesa Civil como a secretaria que gerencia o risco hoje dentro da estrutura da prefeitura não fazem mais atividades casadas de monitoramento, desde o treinamento dos moradores, a como retirar essas pessoas das áreas de risco, como fazer um sistema de alerta que funcione de forma integrada. Os pontos de apoio na noite passada simplesmente não funcionaram.

É um período de chuvas esperado no Rio. Sempre chove. É claro que o volume de ontem equivaleria a uma chuva de anos. Mas as ações de preparo da cidade que a prefeitura deveria realizar para minimizar o que aconteceu não foram feitas. Do ponto de vista do risco, há esse gargalo de não existirem ações casadas entre as estruturas do município e do estado para conseguir dar conta dos desastres naturais”.

As declarações do governador

“É óbvio que existe ausência do poder público em relação ao ordenamento territorial urbano. Mas agora ele [Witzel] não é um morador, ele é um gestor público. Ele não pode simplesmente culpar o outro gestor público de uma responsabilidade que também é dele.

O fato é que tanto a prefeitura quanto o estado do Rio de Janeiro andaram casadas, criaram programas somando forças que foram, sucessivas vezes, intensificadores da especulação, do aumento e densificação dessas áreas [de risco]. Os PACs, as grandes obras de intervenção como o teleférico do qual, inclusive, um cabo se desprendeu ontem por causa da chuva no Morro do Adeus.

Não dá pra se esquivar da responsabilidade do Estado, obviamente histórica, mas o fato é que existe esse legado de quem eles [os gestores] têm que dar conta”. 

A ciclovia

“Sobre a ciclovia [Tim Maia]: não matou gente dessa vez, mas eu sou uma das favoráveis de que se faça a interdição completa dela e faça um estudo de impacto, da viabilidade da real manutenção ou da demolição da ciclovia. Ela foi construída com um sistema construtivo equivocado, ela é pré-moldada e, da forma como isso foi implementado, não dá a possibilidade de se ter certeza da sobrecarga em relação às marés e às ressacas. A gente quer pagar pra ver? Eu não quero pagar pra ver com a vida das pessoas. Se a gestão pública é incapaz de dar conta dos problemas técnicos que ela mesma gera, é melhor demolir”.

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