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O aplicativo usado para impedir mulheres sauditas a deixar o país

No país árabe, elas necessitam de autorização do tutor legal, um homem, para viajar para o exterior. Antes do sistema, elas precisavam de autorização por escrito para passar pelas alfândegas

 

Ligado ao Ministério do Interior da Arábia Saudita, o aplicativo Absher permite que cidadãos sauditas resolvam burocracias, como renovar a carteira de motorista ou pagar multas, com alguns cliques e na palma da mão.

Também é através dessa ferramenta que o tutor legal de uma mulher (normalmente seu pai, irmão ou marido) pode conceder ou não a ela autorização para viajar para fora do país. Legalmente, elas não podem deixar a Arábia Saudita sem a permissão desse tutor.

Uma reportagem publicada pelo site americano Insider no dia 1 de fevereiro de 2019 investiga a base de dados coletada pelo aplicativo, usada para rastreá-las e impedi-las de fugir país e do controle frequentemente autoritário desses tutores.

O sistema não é novidade – existe há anos, mas ganhou atenção renovada após o caso de Rahaf Mohammed al Qunun, jovem saudita de 18 anos que recebeu asilo do Canadá e havia fugido do país por sofrer violência psicológica e física de sua família.

Antes da digitalização do sistema, as sauditas necessitavam de um documento com o consentimento assinado de seus tutores para conseguir passar pelas alfândegas.

Como funciona

O Insider entrevistou ativistas, refugiados sauditas e especialistas sobre o Absher e obteve capturas de tela da versão em inglês do aplicativo.

Entre os recursos do app ligados ao controle de saída do território saudita de mulheres e outros dependentes legais dos tutores, a reportagem destaca que:

  • é possível especificar a partir de qual aeroporto a mulher pode viajar;
  • pelo aplicativo, é possível determinar a quantidade de deslocamentos que elas estão autorizadas a realizar, para onde e em que período;
  • o usuário consegue visualizar se há dependentes seus fora do país;
  • também é possível ter acesso a todo o histórico de viagens do passaporte de um dependente;
  • há um sistema de alerta, via SMS, que notifica o tutor quando um dependente faz uso de seu passaporte, informando a data e o aeroporto de onde partiu.

Há casos em que as próprias sauditas “invadem” os dispositivos de cônjuges ou familiares para alterar a permissão e conseguir viajar. Mas são facilmente retidas – o aplicativo faz com que deixem um rastro digital e a permissão pode ser facilmente revertida pelo aplicativo. Elas têm maior chance de sucesso ao fugir durante férias em família, por exemplo, quando já se encontram fora das fronteiras sauditas.

Em 2012, os alertas via SMS se tornaram automáticos (antes, as notificações eram opcionais), e o rastreamento foi criticado pelos sauditas nas redes sociais. Ao jornal britânico The Telegraph, a jornalista e escritora saudita Badriya al-Bishr declarou que a tecnologia estava sendo usada para manter as mulheres aprisionadas no país.

Como resposta às críticas, o governo anunciou em 2014 que as notificações via SMS estavam suspensas, segundo um relatório de 2016 da ONG Human Rights Watch.

Adam Coogle, pesquisador da Human Rights Watch que se dedica ao Oriente Médio, disse ao Insider porém que os alertas continuam a ser enviados, porque as fugitivas são descobertas muito rapidamente.

Por que elas fogem

A despeito de algumas concessões recentes feitas pelo príncipe saudita Muhammad bin Salman, como o decreto que passou a permitir que mulheres dirijam na Arábia Saudita, o regime permanece extremamente restritivo quanto à autonomia delas para viver, trabalhar, se relacionar, vestir, viajar e dispor dos próprios recursos.

Todos esses aspectos são tutelados por seus responsáveis legais, os familiares homens.

Uma reportagem publicada em 15 de janeiro de 2019 pela revista New Yorker descreve as ações do governo em benefício das mulheres como uma estratégia na construção de uma imagem mais liberal, ao mesmo tempo em que conduz, em paralelo, prisões e expurgos de opositores, perseguidos por autoridades sauditas mesmo em território estrangeiro.

Quando fogem, muitas mulheres afirmam não poder voltar, sob pena de serem gravemente punidas e mesmo mortas por suas famílias.

Elas também não são o único grupo demográfico que busca se evadir do regime. A quantidade de sauditas que pedem asilo no exterior cresceu de 575 casos, em 2015, ano de ascensão de Muhammad bin Salman, para mais de 2000 em 2017.

 

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