Por que Rússia e EUA estão anulando acordos da Guerra Fria

Trump e Putin retrocedem em compromissos assumidos nos anos 1980 para frear corrida armamentista e ameaça nuclear

     

    Os governos da Rússia e dos EUA anunciaram a intenção de anular os efeitos de um acordo bilateral firmado em 1987 para frear a construção, o armazenamento e o uso de mísseis nucleares de médio alcance.

    A decisão é vista por especialistas em desarmamento como um dos maiores retrocessos para a segurança internacional desde o fim da Guerra Fria (1945-1991).

    O nome Guerra Fria se refere ao período de disputas militares entre a hoje extinta União Soviética, comunista, e os EUA, capitalista, quando o mundo esteve mais perto de uma catástrofe nuclear.

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    Mísseis russos e americanos foram destruídos após a assinatura do tratado, entre Ronald Reagan (EUA) e Mikhail Gorbachev (URSS), em 1987

    O anúncio da saída americana do acordo conhecido pela sigla em inglês INF (referente a Forças Nucleares de Alcance Intermediário) foi feito na sexta-feira (1º) pelo presidente americano, Donald Trump, por meio de um comunicado oficial.

    Há uma batalha de versões entre russos e americanos para justificar suas próprias posições em relação ao rompimento do acordo. Entre Washington e Moscou, estão – tanto retoricamente quanto geograficamente – as potências europeias, que também expressaram suas posições.

    O que são esses mísseis

    Os mísseis que o tratado tenta regular têm entre 500 km e 5.500 km de alcance. São chamados de mísseis de cruzeiro ou mísseis balísticos. Esses mísseis, lançados a partir de plataformas terrestres, podem transportar diferentes tipos de explosivos contidos em ogivas, incluindo material nuclear.

    A característica desses mísseis coloca as principais capitais europeias ao alcance de um lançamento feito, por exemplo, a partir de Moscou. Paris está a 2.836 km de Moscou. Berlim a 1.818 km. Lisboa, capital europeia mais distante, está a 4.562 km.

    As potências europeias são parte de uma aliança militar formada após a Segunda Guerra Mundial (1945) chamada Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), da qual os EUA fazem parte.

    A existência do tratado sobre os mísseis é vital, portanto, para os países europeus em caso de guerra, pois esses países da Otan estão ao alcance de uma retaliação russa que venha a ser feita contra uma eventual ação hostil dos EUA.

    O tratado em questão trata dos mísseis de alcance intermediário. Além desses, há ainda mísseis com maior raio de alcance, como os mísseis balísticos intercontinentais, com capacidade para atingir alvos em qualquer lugar do mundo – esses, não são objeto deste tratado em particular. Eles são regulados por outro instrumento ainda em vigor, que determina a redução paulatina dos arsenais.

    Quais as alegações americanas

     

    Trump acusa o presidente da Rússia, Vladimir Putin, de ter violado o tratado. O presidente americano diz que os russos estão desenvolvendo há anos um tipo de míssil cujo alcance extrapola os limites impostos pelo documento.

    Por essa lógica, os EUA querem se desobrigar de ter de cumprir o acordo, investindo também no seu próprio programa de mísseis, para estar à altura de uma potencial ameaça russa. “Nós não podemos ser o único país do mundo limitado unilateralmente por este tratado, ou por qualquer outro”, disse Trump em comunicado oficial.

    “Nós vamos seguir em frente desenvolvendo nossas próprias opções de resposta militar e trabalharemos com a Otan e com outros aliados e parceiros para negar à Rússia qualquer vantagem militar advinda dessa conduta ilegal”

    Donald Trump

    Presidente dos EUA, em comunicado oficial do dia 1º de fevereiro de 2019

    Quais as alegações russas

     

    Representantes do governo russo, por sua vez, disseram que Trump mente, pois precisa de uma justificativa moral para sair de um tratado no qual simplesmente nunca quis estar.

    “Nossa resposta será simétrica”, anunciou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em pronunciamento às TVs locais no sábado (2). A retórica da simetria, mencionada por Putin, faz lembrar a lógica que levou à corrida armamentista da Guerra Fria, na qual americanos e soviéticos apostavam uma corrida para ver quem estava à frente em relação às tecnologias militares.

    “Nossos parceiros americanos declararam que suspenderão a própria participação no tratado, então nós suspenderemos a nossa também. Eles disseram que começarão a pesquisar e desenvolver [novos mísseis]. Nós faremos o mesmo”

    Vladimir Putin

    Presidente da Rússia, em pronunciamento às TVs locais, no dia 2 de fevereiro de 2019

    A Rússia de hoje pode não ser um adversário comparável ao que a URSS foi, em relação aos EUA, nos anos da Guerra Fria. A China vem, em grande medida, ocupando esse lugar. Apesar disso, russos e americanos ainda são adversários fortes em vários conflitos geopolíticos, sendo os principais deles a guerra na Síria e a crise política que se desenrola na Venezuela.

    Qual a posição das potências europeias

     

    O tratado em questão é bilateral – ou seja, diz respeito apenas a EUA e Rússia –, mas interessa também às potências europeias, que seriam inevitavelmente afetadas por um eventual conflito entre americanos e russos.

    A Europa pode tanto ser alvo de retaliação russa em caso de conflito, como pode se prestar à instalação de baterias de mísseis do parceiro americano.

    A segunda hipótese foi lembrada em discurso pelo senador russo Igor Morozov. Ele disse que o movimento americano “traz consigo uma ameaça para todo o sistema de segurança internacional, mas, primeiramente, traz um risco para a Rússia porque, assim que deixarem o tratado, os EUA instalarão seus mísseis nos países europeus”.

    “O que nós definitivamente não queremos ver é nosso continente voltando a ser um campo de batalha no qual as superpotências se confrontavam”

    Federica Mogherini

    Chefe das Relações Exteriores da União Europeia, em entrevista a jornalistas no dia 1º de fevereiro de 2019

    Qual o papel da China

    A China não faz parte do tratado, como Rússia e EUA, não é membro da Otan, como as potências europeias. Mas, mesmo assim, os chineses estão diretamente implicados na discussão.

    A China é, em muitas instâncias, uma potência rival dos EUA. A oposição entre chineses e americanos se dá não apenas no plano econômico, mas também no campo abertamente militar.

    O exemplo mais visível é a reivindicação de soberania chinesa sobre parte do Oceano Pacífico – reivindicação à qual os americanos se opõem frontalmente.

    Como a China não é parte do tratado, ela não está limitada no que diz respeito à produção de mísseis. Além disso, ao se sujeitarem ao tratado, os EUA ficam impedidos de investir na construção de mísseis que poderiam fazer frente a uma eventual ameaça chinesa.

    Qual o cenário adiante

    A partir do momento que anuncia a intenção de sair do tratado, os EUA têm seis meses para efetivar o desligamento. Em tese, a saída só é efetiva após esse período – ou seja, em agosto de 2019.

    Porém, mesmo saindo do tratado, é possível ainda que o Congresso americano imponha restrições orçamentárias ao desenvolvimento deste tipo de armamento – seja por considerações realmente orçamentárias, seja por preocupações com a estabilidade internacional.

    Desde as eleições de meio de mandato, realizadas em novembro de 2018, os membros do Partido Democrata – opositores de Trump, que é do Partido Republicano – têm a maioria dos assentos. Com isso, torna-se possível barrar projetos de interesse do governo.

    Por outro lado, Trump pode radicalizar ainda mais o afastamento americano dos tratados que regulam armas e munições. O Novo Start (sigla em inglês do Tratado de Redução de Armas Estratégicas) entrou em vigor em 2011 mas, para seguir em vigor, deve ser renovado em 2021 – período que corresponde ao último ano de mandato de Trump na Casa Branca, sem contar a possibilidade de reeleição.

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