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O que há de tóxico na lama da Vale em Brumadinho

Órgãos estaduais, federais e a própria Vale estão realizando testes relativos à composição da lama tóxica que atingiu o rio Paraopeba

 

No dia 25 de janeiro de 2019, uma barragem  da empresa mineradora Vale se rompeu em Brumadinho (MG), na região metropolitana de Belo Horizonte, causando o vazamento de cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro.

A lama atingiu o centro administrativo e um refeitório da empresa, além de destruir casas na área rural da cidade e desaguar no Rio Paraopeba, que faz parte da bacia do Rio São Francisco. O desastre deixou centenas de mortos e desaparecidos, entre moradores e trabalhadores da Mina Córrego do Feijão.

Em decorrência da atividade mineradora, a lama represada pela barragem contém metais pesados e por isso contamina o solo e a água da região.

Além do dano ambiental, humano e animal já causado, há ainda o risco de rompimento de novas barragens na região e os perigos imediatos e futuros para a saúde daqueles que tiveram contato com o barro ou que vivem nas proximidades do rio Paraopeba.

Ainda que a lama continue descendo, os metais pesados estão longe de ir embora. Isso porque algumas substâncias altamente tóxicas não podem ser eliminadas por completo no tratamento feito nas estações de água, por exemplo.

Parte dela também fica retida em encostas e no leito do rio e ainda vai ser carregada pela água das chuvas, aumentando a concentração de componentes tóxicos na água do rio.

O que dizem as análises

Órgãos estaduais, federais e a própria Vale estão realizando testes relativos à composição da lama tóxica que atingiu o rio Paraopeba.

Uma nota conjunta divulgada em 31 de janeiro de 2019 pelas Secretarias de Estado de Saúde, do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais adverte que a água do Rio Paraopeba apresenta riscos à saúde humana e animal, segundo resultados iniciais do monitoramento feito pelo Governo de Minas, após o rompimento da barragem.

Segundo uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, as análises foram feitas com amostras coletadas entre os dias 25 (quando o acidente ocorreu) e 29:

  • foram encontrados valores de chumbo e mercúrio até 21 vezes acima do aceitável;
  • no dia 26, também foi constatada a presença de níquel, chumbo, cádmio e zinco em um dos pontos de monitoramento.

O comunicado das secretarias recomenda que não se utilize a água do rio para nenhuma finalidade e que seja guardada uma distância de 100 metros em relação às margens, mas a nota afirma que o contato eventual não causa risco de morte. A recomendação vale desde a confluência do Rio Paraopeba com o Córrego Ferro-Carvão até Pará de Minas.

“Qualquer pessoa que tenha tido contato com a água bruta do Rio Paraopeba – após a chegada da pluma de rejeitos – ou ingerido alimentos que também tiveram esse contato, e apresentar náuseas, vômitos, coceira, diarreia, tonteira, ou outros sintomas, deve procurar a unidade de saúde mais próxima e informar sobre esse contato”, diz o comunicado.

Equipes de campo do Serviço Geológico do Brasil, em parceria com a Agência Nacional de Águas, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas, e  Companhia de Saneamento de Minas Gerais também vêm emitindo boletins diários do monitoramento realizado em pontos de interesse ao longo do curso d’água do Rio Paraopeba.

Eles avaliam, entretanto, parâmetros de temperatura, pH, condutividade, oxigênio dissolvido e turbidez, sem trazer informações específicas sobre os minérios encontrados.

Para Marta de Freitas, engenheira de segurança que atua na área de mineração desde a década de 1980 e é membro da Ação Sindical Mineral, a divulgação do monitoramento do que havia antes e o que há agora na água do rio, para que se mensure a toxicidade da lama, está entre as medidas urgentes a serem tomadas pelas autoridades.

“A água do Rio Paraopeba está vermelha. Ela já era barrenta, por conta da mineração na região, mas mudou de cor, está um vermelho de minério de ferro”, disse a engenheira.

Ao Nexo, Freitas disse que, por exigências ambientais, a Vale monitora constantemente a composição do solo e é quem deve divulgar esse comparativo. Ela também defende que seja feita análise dos peixes do rio. “Estão morrendo só pela falta de oxigênio ou porque estão intoxicados?”, questiona.

Segundo uma reportagem publicada pela BBC Brasil em 30 de janeiro, o serviço de toxicologia do Hospital João XXIII, de Belo Horizonte, que atendeu alguns dos sobreviventes, solicitou à Vale uma lista de substâncias presentes na lama para tentar medicar os pacientes, que não foi enviada, sob a alegação de que a questão ainda estava em estudo.

O laudo da análise laboratorial do rejeito feita pela Vale deve ficar pronto em até 15 dias, de acordo com a BBC.

O Nexo também solicitou à empresa informações sobre a composição e toxicidade da lama vazada em Brumadinho, mas não obteve resposta.

Na quarta-feira (30), circulava um boato de que haveria césio entre os agentes contaminadores do Paraopeba. A informação foi desmentida pelo Corpo de Bombeiros e também pela Defesa Civil de Minas Gerais.

Questionada pelo Nexo, a engenheira de segurança Marta de Freitas também afirmou não haver risco de contaminação por material radioativo ao longo do curso do rio. “Existem sim metais pesados, perigosíssimos, mas que não são radioativos”, disse.

Quais as possíveis implicações para a saúde

A lama  disseminada  pode provocar infecções, intoxicações e, no futuro, até câncer e doenças autoimunes.

No curto prazo, o barro pode fazer aumentar a incidência de doenças infectocontagiosas ou parasitárias como leptospirose, dengue e febre amarela.

A médio e longo prazos, ainda há risco de exposição a elementos químicos altamente prejudiciais à saúde, por exemplo através do consumo de peixes contaminados, que podem causar doenças ainda mais graves.

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