Como a tragédia influencia o preço das ações da Vale

Empresa que operava barragem em Brumadinho deve ter seu fluxo de caixa afetado nos próximos anos. Entenda o impacto no valor da companhia

     

    A Vale, uma das maiores empresas do Brasil e uma das maiores mineradoras do mundo, sofreu na última semana de janeiro de 2019 a maior perda de valor de mercado da história do país. Somente na segunda-feira (28), as ações da empresa negociadas na B3, a bolsa de valores de São Paulo, caíram 24,5%. Isso significa que a empresa perdeu um quarto de seu valor em oito horas.

    Foi o primeiro pregão depois da tragédia em Brumadinho. Na sexta-feira (25), quando a barragem da mina do Córrego do Feijão se rompeu, a bolsa estava fechada devido ao aniversário de São Paulo. Quando as negociações começaram no início da semana, a lista oficial de mortos e desaparecidos já somava mais de três centenas de pessoas, mas não é a tragédia ambiental e humanitária em si que impacta diretamente o valor das ações da Vale.

    Variação

     

    O preço de uma ação e a Vale

    Ao estimarem o valor de uma ação, os investidores se baseiam, muitas vezes, em avaliações subjetivas, mas sempre pragmáticas. O preço de um papel aumenta se uma parcela relevante dos investidores acha que aquela empresa vai gerar mais lucro no futuro, por exemplo, pois passam a aceitar pagar mais pelas ações. O preço cai quando as expectativas sobre fluxos de caixa futuros se reduz por algum motivo, ou quando se passa a identificar mais riscos e incertezas em relação aos resultados da empresa.

     

    Neste caso, apesar da catástrofe humanitária que matou centenas de pessoas, a avaliação feita sobre a Vale leva em conta basicamente a possível repercussão nas finanças da empresa. A grande volatilidade dos papéis, que caíram 24% em um dia e subiram 9% dois dias depois, se dá porque ainda é difícil medir qual será esse impacto.

     

    Um exemplo de como uma tragédia pode ou não afetar as ações é o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, em que a própria Vale esteve indiretamente envolvida. A cotação da empresa, no entanto, foi pouco afetada. Depois de cair significativamente nas semanas seguintes, o preço das ações da empresa teve três anos de crescimento e seu valor chegou a ser multiplicado por seis.

     

    A barragem era operada pela Samarco, companhia que pertence à Vale em sociedade com a BHP Billiton. Depois do desastre, a Samarco passou a dar prejuízo, está devendo R$ 350 milhões em multas ambientais e alega já ter gastado mais de R$ 5 bilhões em ressarcimentos.

     

    A Vale alegou na época que não tinha participação na administração da Samarco e conseguiu se distanciar economicamente da tragédia. No gráfico é possível ver o ganho no preço das ações a partir de novembro de 2015, quando ocorreu o rompimento de Mariana.

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    A tendência de crescimento da Vale nos últimos anos acompanhou o movimento de valorização do preço do minério de ferro. Olhando para o mesmo período, é possível ver que tanto a Vale quanto seu produto tiveram o pior momento ao mesmo tempo. E, com volatilidades diferentes, tiveram crescimento nos anos seguintes. Um sinal de que o preço da commodity influenciou no preço dos papéis.

    A influência do minério

     

    O que impacta as ações agora

    A Vale era diretamente a operadora da barragem que se rompeu e já sofre algumas consequências judiciais. Pouco depois do rompimento, a empresa anunciou a suspensão do pagamento de dividendos aos acionistas.

    Executivos da empresa foram presos, dinheiro da companhia foi bloqueado e multas aplicadas. O plano da Vale para tentar recuperar a credibilidade envolve aumento de custos e diminuição de produção.

    As três principais agências de classificação de risco do mundo, responsáveis por avaliar a capacidade de pagamento de grandes empresas e governos, divulgaram comunicados negativos sobre a Vale. A Fitch foi a única, porém, que já rebaixou a empresa, informando que a expectativa é que sejam aplicadas pesadas multas. Bancos e corretoras, como o Goldman Sachs, também diminuíram a recomendação das ações da Vale para seus clientes. O Nexo lista 3 fatores que afetam o preço dos papéis da Vale.

    Multas, bloqueios judiciais e indenizações

    A Vale provavelmente terá de indenizar as milhares de pessoas afetadas pelo desastre. Além dos cerca de cem mortos e mais de duzentos desaparecidos, outras muitas famílias perderam tudo que tinham.

    Há ainda os danos ambientais. A primeira multa, de R$ 250 milhões, já foi aplicada pelo Ibama. Outras multas ainda podem ser aplicadas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente, além de sanções relacionadas ao licenciamento de atividades de mineração.

     

    Para garantir o pagamento de ressarcimentos humanitários e ambientais, a Justiça já determinou o bloqueio de R$ 11 bilhões da companhia. A indisponibilidade desses recursos torna mais difícil a operação da empresa.

    Plano de recuperação e produção

    Numa tentativa de responder à tragédia, a Vale anunciou que vai desativar todas as suas barragens de rejeitos construídas com o método de alteamento a montante, como eram a de Brumadinho e de Mariana. A desativação, segundo a empresa, vai custar R$ 5 bilhões em três anos.

    Enquanto as dez barragens são eliminadas, a empresa não vai poder produzir nas minas próximas. Isso vai impactar a quantidade de minério de ferro extraído pela companhia em 10%. O plano, mais uma vez, envolve custos e diminuição de lucro.

    Ação coletiva nos EUA

    Além das multas ambientais e indenizações humanitárias, a Vale pode ter que ressarcir acionistas. Donos de papéis da empresa nos Estados Unidos alegam que foram lesados pela empresa, que teria omitido riscos, feito declarações falsas e enganosas.

     

    Em ações parecidas, investidores acionaram a Petrobras por conta de perdas geradas por corrupção na operação Lava Jato. Em janeiro de 2018, a estatal entrou em acordo e aceitou pagar R$ 9,5 bilhões aos donos das ações.

    O dano à imagem e à credibilidade

     

    A imagem da empresa está abalada e isso pode ter consequências econômicas. A pressão pode aumentar a fiscalização e endurecer as regras ambientais, inclusive com mecanismos que fortaleçam a capacidade do Estado de cobrar multas já aplicadas. Há a proposta, por exemplo, de obrigar as mineradoras a criarem um fundo que seria usado para socorrer populações em caso de desastre.

    O rompimento de duas barragens em um intervalo de pouco mais de três anos reforça a ideia de que a atividade econômica da empresa envolve riscos ambientais e humanos graves e que a companhia não opera de maneira segura, não paga pelos danos ambientais que causa no entorno das muitas minas e pelos prejuízos às comunidades vizinhas.

    Se a sociedade e as autoridades se convencem de que é necessário um endurecimento de regras ambientais e de convívio com as comunidades, isso impacta a Vale. Para a empresa, significa aumento de custo. E aumento de custo indica diminuição do lucro esperado, que interfere no preço da ação.

    A recuperação parcial das ações

    Mesmo com todas as notícias ruins para a Vale, na quarta-feira (30) as ações da companhia subiram 9%. A valorização compensou parte das perdas bilionárias de segunda-feira (28).

    Esse movimento acontece, entre outros motivos, porque à medida que as notícias vão sendo divulgadas vai ficando um pouco mais claro como a Vale será financeiramente responsabilizada pelo desastre.

    Depois da divulgação do plano de recuperação, a avaliação de parte importante dos investidores é de que a empresa conseguiria se recuperar melhor do que estava previsto na segunda-feira. A partir dessa percepção, chegaram à constatação de que os papéis, naquele preço, estavam baratos.

    Resumindo, na quinta-feira (24), véspera do desastre, o mercado achava que uma ação da Vale valia R$ 56. Após o rompimento, o preço chegou a R$ 42,59. Com a divulgação do plano, a avaliação foi que um papel da empresa valia mais que isso e teve gente aceitando pagar cerca de R$ 47 na manhã de quinta-feira (31).

    Com os desdobramentos que o caso ainda deve ter, as avaliações podem mudar nos próximos dias e semanas.

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