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A busca masculina por corpos mais fortes no século 21

Comentarista lançou em 2014 termo 'spornosexual' para falar de profusão de músculos na mídia

 

No dia 12 de janeiro de 2019, a repórter do jornal britânico The Observer Vanessa Thorpe publicou um artigo sobre algo que observou: a profusão de corpos masculinos muito fortes, em filmes e séries de qualquer tipo.

Ter um corpo não apenas magro ou atlético, mas sim musculoso, se tornou prerrequisito para encarnar todo tipo de identidade masculina, algo que não foi sempre imprescindível para galãs.

Seja um “matemático, um cirurgião ou um cientista, a probabilidade é que, assim que a camisa se vai, ele estará equipado com um abdome firme, assim como grandes bíceps”.

Thorpe escreve que a demanda recente por músculos superdesenvolvidos estaria levando atores a correrem para a academia.

Entre outros exemplos, cita os britânicos Richard Madden e Aidan Turner, mas seria possível adicionar os americanos Ryan Gosling e Chris Pratt ou os brasileiros Cauã Raymond e Chay Suede à lista.

Thorpe não é a primeira a apontar certas mudanças de comportamento entre homens, relacionadas ao corpo e à aparência.

Em um artigo de 1994, o comentarista cultural britânico Mark Simpson lançou o termo “metrossexual” para se referir à tendência de homens heterossexuais assumirem cuidados de beleza, como cremes para a pele, penteados e roupas da moda, incluindo esse repertório à masculinidade. Para o comentarista, assumiam dessa forma o desejo de serem desejados, mais associado na época a mulheres e a gays.

Em 2014, Simpson escreveu no jornal britânico The Telegraph que o masculino passava por uma atualização: o foco da vaidade estaria migrando para a modificação dos próprios corpos por meio de exercícios físicos.

O maior acesso à pornografia e a recente possibilidade de ver e exibir seus corpos musculosos nas redes sociais seriam propulsores do fenômeno.

“O esporte foi para a cama com o pornô, enquanto o Sr. Armani tirava fotos (...) Mídias sociais, selfies e pornografia são os maiores vetores do desejo masculino de ser desejado. Eles [homens] querem ser desejados pelos seus próprios corpos, não pelo seu guarda-roupa”

Mark Simpson

Comentarista cultural em artigo publicado em 2014 no jornal britânico The Telegraph

Simpson sugeriu “spornosexual” para definir esse arquétipo de masculinidade dedicada a ostentar um corpo forte, com apelo erótico acentuado. O termo foi adotado por veículos de mídia, assim como por alguns pesquisadores ao tratar de performances masculinas contemporâneas e o potencial de marketing em torno delas e do público alvo que as almeja.

A busca no corpo pelo status ameaçado

Em um artigo publicado em 2016 na revista acadêmica Journal of Gender Studies, o pesquisador Jamie Hakim, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, recorreu ao termo “spornosexual” de Mark Simpson, ao endossar a ideia de que homens estariam buscando corpos mais sarados, exibidos não só nas telas de cinema, TV ou computadores, mas em celulares.

Pensando especificamente no contexto do Reino Unido, propõe a seguinte interpretação para o fenômeno: a maior busca por corpos sarados seria uma resposta a mudanças sociais que colocam em xeque o prestígio normalmente associado aos homens cisgênero (que têm o sexo biológico de acordo com o gênero), em especial àqueles heterossexuais e brancos. Ela ocorreria há décadas e teria se intensificado recentemente.

O pesquisador parte de trabalhos anteriores para afirmar que, até a década de 1970, no contexto da expansão de uma cultura de consumo, privilegiava-se entre homens “a mente sobre o corpo”.

Esses homens heterossexuais eram associados ao trabalho intelectual, como tomadores de decisões em empresas, por exemplo. Por outro lado, na interpretação de Jamie Hakim, grupos inferiores na hierarquia social — mulheres, trabalhadores, queers e não brancos no geral — definiam seu prestígio pelos seus corpos, associados ao trabalho braçal, trabalho doméstico ou ao trabalho sexual.

“Em regimes modernos de poder, pertencer a um grupo em que sua forma primária de criar valor é pelo corpo é um sinal de subordinação”, afirma o autor.

Ele avalia que a busca por um corpo mais forte entre homens cisgênero, heterossexuais ou não, tem relação com uma dificuldade em obter status pelos meios “tradicionais”, ligados ao trabalho intelectual.

Hakim se baseia em pesquisas encomendadas pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido para confirmar que há mais homens buscando um corpo forte, especificamente nas primeiras décadas do século 21.

Elas indicam que aumentou a proporção de homens de 16 a 25 anos indo à academia no país — de 14,7% dos pesquisados em 2006, chegaram a 21% em 2013. Além disso, a venda de suplementos alimentares e revistas fitness masculinas, que têm como público alvo homens que desejam uma aparência musculosa, cresceu.

O pesquisador levanta a hipótese de que o aumento mais recente dessa busca no Reino Unido se relacionaria à crise financeira de 2008, que serve de argumento para cortes de despesas sociais pelo governo. Sob uma ótica neoliberal, essas medidas são classificadas como de “austeridade”, um remédio que traz sofrimento, mas que seria necessário para a retomada econômica.

Elas levam à concentração de renda e dificultam a vida de trabalhadores, especialmente de jovens, afirma. Malhar e obter corpos fortes seria uma forma alternativa de assegurar status. Ele pode ser buscado em redes sociais que oferecem curtidas, comentários e outras interações como métricas para o prestígio.

“O meu argumento aqui é que a maior busca por essa prática entre homens jovens, brancos, cisgênero, de classe média por um corpo mediado digitalmente evidencia mudanças nas hierarquias de poder que vêm ocorrendo recentemente na Grã Bretanha”, escreve.

O pesquisador defende, portanto, que, mesmo não pertencendo aos grupos menos privilegiados na hierarquia social, os homens brancos, cisgênero e de classe média que lutam para obter corpos sarados “o fazem como uma reação à perda de poder em um momento de austeridade”.

Os ganhos precários

O pesquisador realizou seis entrevistas com três homens gays e três heterossexuais que se esforçavam para atingir corpos fortes e tinham o hábito de exibi-los em redes sociais. Eles tinham entre 20 e 35 anos.

As entrevistas focavam em “como eles atingiam seus corpos sarados e compartilhavam imagens de si mesmos nas redes sociais, explorando também o que motiva sua adesão a essas práticas e como elas fazem com que se sintam no geral”.

Os entrevistados falam sobre como iam vários dias por semana à academia e tomavam cuidado ao se promover nas redes sociais. Um deles, identificado como Colin, afirma que preferia tirar fotos quando viajava, porque acredita que seu corpo musculoso em roupas de banho em frente a uma praia ou piscina “vende o sonho” — segundo seus próprios termos — de forma mais convincente.

Ele escolhia ângulos sensuais e salvava algumas imagens para publicar após voltar, estendendo os ganhos da viagem após seu término. O pesquisador afirma que esse tipo de esforço confere aos homens capital erótico, ou seja, se tornam mais desejáveis sexualmente. E capital social, ou seja, status entre o círculo de pessoas com as quais estão conectados.

Um capital está agregado ao outro, é possível medi-los nas redes sociais a partir do número de curtidas, compartilhamento e comentários nas imagens publicadas.

Ao relatar como se sentiam, no entanto, muitos homens traziam relatos ambíguos. Se por um lado ficavam felizes ao serem vistos como atraentes e energéticos, por outro lado questionavam o que ganhavam de fato com todo o esforço. Muitos usam termos associados à saúde mental, como “loucura” ou “obsessão”.

Um deles afirmou: “eu acho um pouco louco, isso tudo… Ir à academia obsessivamente e postar fotos e ganhar comentários (...) É uma obsessão consigo mesmo e ela não leva a nada de verdade no futuro, em termos de se construir como uma pessoa, construir seu corpo. Eu acho que simplesmente é narcisista demais”.

O otimismo cruel

O pesquisador relaciona esses relatos à ideia de “otimismo cruel”, elaborada pela filósofa da Universidade de Chicago Lauren Berlant em seu livro homônimo de 2011, “Cruel Optimism”.

Ela afirma que, em um contexto de erosão de bem-estar social, impulsionada e intensificada em momentos de “austeridade”, parcelas da população afetadas se atêm à busca por desejos — como o desejo por um corpo bonito — que não só não entregam o bem-estar que prometem, como impedem buscas realmente transformadoras. Como citado por Hakim:

“Uma relação de otimismo cruel existe quando algo que você deseja é na verdade um obstáculo para seu florescimento. Pode envolver comida, ou um tipo de amor; pode ser uma fantasia de uma vida boa, ou um projeto político. Pode residir em algo mais simples, também, como um novo hábito que prometa inseri-lo em uma forma aperfeiçoada de existência (...) otimismo é cruel quando o objeto que ativa um juízo de possível na verdade torna impossível atingir a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a ambicionar”

Lauren Berlant

Em ‘Cruel Optimism’, de 2011

ESTAVA ERRADO: A primeira versão do título deste texto não era precisa quanto à abrangência do estudo citado no material. O título foi alterado para para deixar claro que se trata de uma discussão sobre o tema, e não uma conclusão definitiva. A correção foi feita às 12h57 de 31 de janeiro de 2019. A primeira versão deste texto também citava a autora de ‘Cruel Optimism’ como Lauren Barlent. Na verdade, o nome é Lauren Berlant. A correção foi feita às 15h30 de 1º de fevereiro de 2019.

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